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Em vez da idade, classe social passa a definir quem morre de covid no país

Cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, tem covas abertas à espera dos mortos pela covid-19 na pandemia de coronavírus - Nelson Almeida/AFP
Cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, tem covas abertas à espera dos mortos pela covid-19 na pandemia de coronavírus
Imagem: Nelson Almeida/AFP

Talyta Vespa

Do UOL, em Sâo Paulo

06/05/2020 04h02

O bairro de Brasilândia, na zona norte de São Paulo, contabiliza o maior número de mortos pelo novo coronavírus na cidade. São 67, segundo levantamento divulgado pela prefeitura.

O número é quase dez vezes maior do que a quantidade de óbitos no Morumbi —sete—, bairro nobre na zona sul, que é o que tem mais casos registrados: 332. No Brasil, de acordo com dados divulgados pela ONG Rede Nossa São Paulo, o fator de risco para que a covid-19 seja fatal é o endereço.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, houve um aumento de 45% nas mortes nos 20 distritos mais pobres da cidade.

Nos 20 mais ricos, o aumento foi de 36%. Em entrevista ao UOL, o presidente da Rede Nossa São Paulo relaciona a taxa de mortalidade a questões básicas de falta de higiene e habitação, escancaradas pela desigualdade social.

"Estamos em um momento de expansão da crise. A gente vem observando que a covid-19 é letal na periferia. E não dá para responsabilizar as pessoas. Muitas não têm condições de cumprir o isolamento por morarem em cubículos, em que sete pessoas dividem um quarto. A impossibilidade é uma questão de estrutura, e isso revela o quanto a gente, como sociedade, ainda está atrasado quando se trata de condições dignas de habitação e saneamento básico", afirma Jorge Abrahão.

A pobreza no Brasil é muito séria. Mais da metade da população sobrevive com um salário mínimo ou menos. São pessoas que trabalham um dia para comer no outro. Então, pede-se que elas fiquem em casa, sem fonte de renda, sem condições de habitação favoráveis e espera-se que elas cumpram? Isso não existe. Nosso problema é muito maior e [as soluções] teriam de ter sido pensadas antes.

Divulgação
Imagem: Divulgação

Em um levantamento feito recentemente, a Nossa São Paulo mostrou que a distribuição de leitos de UTI vinculados ao SUS no município só confirma a exclusão vivida por cidadãos que moram nas periferias da cidade: apenas três subprefeituras (Sé, Pinheiros e Vila Mariana) —localizadas nas regiões mais ricas e centrais— concentram mais de 60% dos leitos em UTI do SUS no município.

Enquanto isso, 20% da população (2.375.000 pessoas) vivem em sete subprefeituras localizadas nas periferias, em que não há um leito sequer.

O mais recente mapa divulgado pela Prefeitura de São Paulo comprova o que diz Abrahão: percebe-se maior proporção de óbitos em faixas etárias inferiores na área mais excluída da cidade. Nas regiões com melhores condições sociais (incluídas socialmente), 90,4% das mortes ocorrem nas faixas etárias acima de 60 anos.

"O destaque é a faixa de 40 a 44 anos: nela, o risco de morrer por covid-19 quando se reside na área de maior exclusão social é 10 vezes maior que o risco que correm residentes de área de inclusão social", diz o documento.

"Verifica-se risco de morte por covid-19, no presente momento, mais elevado nas regionais Leste, Norte e parte da região Sudeste. Na Coordenação Regional de Saúde (CRS) Norte destacam-se os distritos da Brasilândia e Casa Verde. Na CRS Leste, São Miguel Paulista, Guaianazes, São Mateus e Iguatemi; na Sudeste, Pari, Brás, Belém, Água Rasa e Artur Alvim", diz o estudo.

Coronavírus escancara realidade antiga

Na capital paulista, um dos indicadores mais gritantes do Mapa da Desigualdade realizado pela Rede Nossa São Paulo é o que aponta a idade média ao morrer em cada um dos 96 distritos da cidade.

Em 2019, a diferença entre o melhor e o pior chegou a 23 anos —80,6 anos em Moema e 57,3 anos em Cidade Tiradentes, na mesma cidade e a 27 km de distância.

"Ainda não temos esses dados relacionados à pandemia porque estamos em um momento de expansão da crise, mas os mapas estão aí. Na Europa, o fator maior de risco era a idade. Lá, ficou muito claro que a comorbidade, o fato de as pessoas terem outras doenças, era o que pesava. No Brasil, o fator de risco é o CEP, o endereço".

Segundo Abrahão, a nova pesquisa realizada pela ONG mostra que as consequências da desigualdade não são surpresa para os paulistanos: 81% deles concordam que os moradores da periferia vão sofrer mais por causa da pandemia do que moradores das outras regiões. Além disso, 69% dos paulistanos acreditam que, se não fosse o SUS, as consequências do coronavírus seriam muito piores.

92 milhões de brasileiros ainda estão em cidades sem covid-19, diz estudo

Seis semanas após a primeira morte provocada pelo novo coronavírus no Brasil, um estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas constata que as consequências da doença são muito piores em municípios de grande porte —com mais de 200 mil habitantes—, principalmente na região Sudeste, seguida do Nordeste do país.

Por outro lado, em cidades menos populosas —com menos de 100 mil moradores—, a doença tem chegado de forma mais lenta e em menores proporções. Isso porque, diz o estudo, "além da baixa densidade populacional, o sistema de transporte é mais pulverizado (carro, moto, bicicleta, a pé) e muitos desses municípios têm acesso difícil. Juntos, esses municípios que ainda não acusaram morte, reúnem 92 milhões de brasileiros —superando a população de países como Alemanha (81 milhões), França (65 milhões) e Itália (60 milhões)".

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