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Covid: afastamento poderia ter salvo a vida de 43 enfermeiros, diz conselho

12.mai.2020 - Profissional de saúde usa uma máscara protetora com a inscrição "Chega de mortes de enfermagem por covid-19" durante homenagem na Alerj a colegas que morreram da doença no Dia da Enfermagem - PILAR OLIVARES/REUTERS
12.mai.2020 - Profissional de saúde usa uma máscara protetora com a inscrição "Chega de mortes de enfermagem por covid-19" durante homenagem na Alerj a colegas que morreram da doença no Dia da Enfermagem Imagem: PILAR OLIVARES/REUTERS

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

21/05/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Uma em cada três mortes foi de profissional de saúde no grupo de risco
  • Conselho de Enfermagem contabiliza 137 óbitos da categoria no país
  • Com 23 mortes, Rio e São Paulo concentram 53,5% dos casos

Teresa Cristina Miranda tinha 65 anos e trabalhava na linha de frente no combate ao novo coronavírus em Nova Friburgo, na região serrana do Rio. Mesmo com problemas cardíacos, Diélida Cardoso Ferreira tratava de pacientes com covid-19, doença causada pelo vírus, no Hospital Getúlio Vargas, na Penha, zona norte carioca. Com diabetes, hipertensão e obesidade, Jorge Alexandre Andrade atuava na área para pacientes com sintomas da doença no Hospital Lourenço Jorge, na zona oeste do Rio.

Teresa, Diélida e Jorge, que morreram em decorrência da pandemia, fazem parte de uma estatística que poderia ter sido evitada, se os hospitais do país afastassem profissionais de enfermagem que integram grupo de risco. Levantamento feito pelo UOL com base em dados do Cofen (Conselho Federal de Enfermagem) constatou que ao menos 43 óbitos foram de pessoas acima de 60 anos ou com doenças como diabetes, hipertensão, asma ou problemas no coração.

De acordo com os dados do Cofen, um em cada três profissionais de enfermagem mortos no país por covid-19 ou com sintomas da doença fazia parte do grupo de risco e seguia trabalhando normalmente. O conselho já contabiliza 137 óbitos de enfermeiros e técnicos de enfermagem entre casos confirmados e com sintomas compatíveis com a doença que já matou 18.859 pessoas no país —888 nas últimas 24 horas.

Esses profissionais deveriam ter sido afastados. Poderiam até fazer serviços administrativos, mas seguiram na linha de frente no combate ao coronavírus. São mortes que poderiam ter sido evitadas

Manoel Neri, presidente do Cofen

19.mai.2020 - Manoel Neri, presidente do Cofen, fala sobre riscos enfrentados por profissionais de enfermagem no combate à covid-19, doença causada pelo novo coronavírus - Divulgação - Divulgação
19.mai.2020 - Manoel Neri, presidente do Cofen, fala sobre riscos enfrentados por profissionais de enfermagem no combate à covid-19, doença causada pelo novo coronavírus
Imagem: Divulgação

Mais da metade dos óbitos de profissionais de enfermagem no grupo de risco ocorreu no Rio e em São Paulo. Foram 23 mortes nesses estados (12 no Rio e 11 em São Paulo), o equivalente a 53,5% dos casos do tipo envolvendo profissionais de enfermagem com mais de 60 anos ou com doença crônica, segundo dados do conselho.

MPT pede remanejamento de pessoas do grupo de risco

Na semana passada, o TRT-RJ (Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro) determinou a liberação do trabalho presencial de profissionais de saúde em grupos de risco. A ação foi movida pelo Sindicato dos Enfermeiros do Rio.

O MPT-RJ (Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro) já moveu ação civil pública pedindo adequações no ambiente de trabalho de quatro emergências da capital fluminense. O órgão também já solicitou a complementação da mão de obra, que facilitaria o remanejamento de profissionais do grupo de risco para funções administrativas.

Nessas ações, pedimos a complementação na mão de obra, para que os profissionais do grupo de risco possam ser afastados ou remanejados para outras atividades, sem contato com o enfrentamento à covid. Mas, infelizmente, esses profissionais continuam na linha de frente, porque ainda não há decisão da Justiça favorável a isso

Juliane Mombelli, procuradora do MPT-RJ

A Justiça obrigou a prefeitura a adotar uma série de medidas nos hospitais Souza Aguiar, Lourenço Jorge e Salgado Filho —nesta última unidade, foram verificados acúmulo de corpos e superlotação na ala para covid-19.

Coronavírus: 15/04/2020 - Profissionais de saúde carregam maca em frente a ambulância no Hospital Municipal Salgado Filho no Rio de Janeiro - Marcos Vidal/Futura Press/Estadão Conteúdo - Marcos Vidal/Futura Press/Estadão Conteúdo
15.abr.2020 - Profissionais de saúde carregam maca em frente a ambulância no Hospital Municipal Salgado Filho no Rio de Janeiro
Imagem: Marcos Vidal/Futura Press/Estadão Conteúdo

Entre elas, o MPT exige que o poder público forneça EPIs (equipamentos de proteção individual) adequados, capacitação de funcionários e fornecimento de testagem para covid-19. Uma ação pedindo adequações no hospital Miguel Couto ainda está em análise.

Em nota, a Prefeitura do Rio informou que irá adotar as medidas exigidas pela Justiça.

Criado nas redes sociais para receber e encaminhar denúncias de más condições de trabalho nos hospitais, o grupo Protesto Enfermagem, que tem mais de 20 mil seguidores, costuma receber relatos de profissionais de saúde com mais de 60 anos ou com doenças crônicas que seguem na linha de frente dos hospitais.

"É muito importante que as denúncias cheguem, para que possamos encaminhar os casos. E recebemos esse tipo de denúncia com frequência. Infelizmente, profissionais no grupo de risco fazem parte da realidade de qualquer hospital em meio à pandemia", revela a técnica de enfermagem Joice Martins, uma das administradoras do movimento.

Corrupção é cultural na saúde, diz presidente do Cofen

Até a noite de terça (19), o Cofen contabilizou 13.577 afastamentos de profissionais de saúde por causa da covid-19. Manoel Neri, presidente da entidade, diz que a falta de treinamento e de EPIs agravam um cenário de contaminação nos hospitais do país. Mas também cita os casos de corrupção como um dos principais fatores para o colapso no sistema de saúde.

"O recurso público para financiamento da área de saúde no Brasil já é um problema. E parte desses recursos ainda são desviados, agravando uma situação de caos. Infelizmente, parece que a corrupção com recursos da saúde é cultural no Brasil", lamenta.

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