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Saída de Teich e fraude sob Witzel: crises prejudicam combate à covid no RJ

Faltam respiradores e oxímetros nas unidades de saúde do Rio para tratamento do coronavírus - Reprodução
Faltam respiradores e oxímetros nas unidades de saúde do Rio para tratamento do coronavírus Imagem: Reprodução

Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

20/05/2020 04h00

Com 900 pessoas à espera de um leito para tratamento da covid-19, o estado do Rio aguarda a inauguração de seis hospitais de campanha, que não abriram as portas por falta de equipamentos, mão de obra e atraso nas obras, e possui 1.800 leitos da rede federal de saúde sem capacidade de operar.

A prisão de figuras do alto escalão da Secretaria Estadual de Saúde e a demissão do responsável pela pasta, Edmar Santos, além da saída de Nelson Teich do Ministério da Saúde, têm potencial para agravar ainda mais a crise dos leitos e o atraso na entrega de materiais para o combate ao coronavírus no Rio. O estado registrou ontem 3.079 mortes e 27.805 infecções pelo coronavírus.

O desmonte de suposto esquema de superfaturamento em compras de insumos acarretou a suspensão de contratos de aquisição de mil ventiladores mecânicos com três empresas —o processo dispensou licitação porque o Rio se encontra em estado de emergência.

Com isso, novas compras precisarão ser realizadas e os prazos para a chegada dos materiais ainda não foram definidos, de acordo com a SES (Secretaria Estadual de Saúde).

Segundo a pasta, 40 dos 66 contratos emergenciais firmados por Gabriell Neves, subsecretário preso em operação do Ministério Público do Rio, foram cancelados imediatamente e outros quatro foram rompidos após auditoria. Os 22 vínculos restantes estão sob análise dos órgãos de controle do estado.

O atraso na chegada dos equipamentos acontece em um momento em que o governador Wilson Witzel (PSC) pede para a população intensificar o isolamento social tendo em vista o avanço de casos da covid-19.

Saída de Teich interrompe diálogo com governo Witzel

A demissão de Teich, na última quinta-feira (15), é mais um baque no planejamento estadual.

No último dia 8, em visita à capital fluminense, o então ministro se reuniu com Witzel e prometeu ajudar o estado com a aquisição de materiais e a liberação de verba para possibilitar a abertura de novos leitos na rede federal de saúde.

Uma semana depois, porém, o ministro deixou o cargo por divergências com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), interrompendo o diálogo com o governo estadual. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o também ex-ministro Luiz Henrique Mandetta apontou a falta de planejamento e de articulação com os estados em razão das crises no governo federal.

"O tempo de permanência dele [Teich] ali dentro foi um tempo perdido, para o enfrentamento da epidemia, para o Ministério da Saúde e para os estados. Não sei para ele [...] É muito difícil acertar em um ministério complexo como aquele mesmo em situações normais. Com esse perfil, ainda mais uma situação dessa gravidade, teria sido uma surpresa se ele tivesse conseguido transitar em uma política tão complexa", analisou Mandetta.

Outra baixa no combate à doença, Edmar Santos, que estava à frente da Secretaria Estadual de Saúde, foi exonerado por Witzel após denúncias de irregularidades em contratos e ineficiência na construção de hospitais de campanha.

A demissão acontece após o ex-subsecretário executivo de Saúde Gabriell Neves ter sido preso no âmbito da Operação Mercadores do Caos. Gustavo Borges da Silva, substituto de Neves no segundo cargo mais importante da saúde pública fluminense, também foi preso na mesma ação, deflagrada no dia 7 de maio.

Apesar de afastado, Santos vai integrar uma "comissão de notáveis no enfrentamento à pandemia do coronavírus" e trabalhar em parceria com o seu substituto, o médico Fernando Ferry.

Atraso na abertura e falhas em hospitais de campanha

Os hospitais de campanha de São Gonçalo, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Nova Friburgo e Campos dos Goytacazes ainda não foram concluídos. A unidade de Casimiro de Abreu deve ficar pronta até o dia 26.

Até o momento, três hospitais de campanha do estado foram inaugurados —Lagoa-Barra, com 200 leitos; Maracanã, com capacidade de 400 leitos; e Parque dos Atletas, com capacidade de 200 leitos.

Inaugurado há 11 dias, o hospital do Maracanã ainda opera com capacidade parcial.

O governo não informa se os hospitais não inaugurados começarão a operar com capacidade de atendimento parcial. A previsão é de que, somados, sejam 900 leitos disponíveis à população, sendo 180 de UTI.

A secretaria informa que antes da pandemia contava com 972 respiradores em sua rede. E que recebeu, nos últimos dez dias, 154 respiradores do Ministério da Saúde e do Banco Itaú, que já foram distribuídos para unidades da capital, região metropolitana e interior.

Como UOL mostrou no último dia 9, o hospital de campanha do Maracanã foi aberto com operação parcial e atraso das obras. Um vídeo registrado no dia 13 mostra sete pessoas deitadas em colchões em um corredor da unidade.

As imagens, gravadas pelos próprios profissionais de enfermagem, revelam a precariedade das instalações oferecidas para quem está na linha de frente do combate ao coronavírus.

A Secretaria de Estado de Saúde informou que foi feita uma vistoria no local e que agora o espaço de descanso está à disposição das equipes com 110 leitos. "A SES também exige que, desse total de 110, sejam instalados ar-condicionado para 60 leitos, que ainda não contam com os equipamentos", disse a pasta, por meio de nota.

Após a denúncia feita pelo UOL, o governo do RJ informou que notificaria a Iabas, organização social contratada para construir e administrar a unidade.

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