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Com mil mortes diárias, ainda não é possível falar que atingimos o pico

Carolina Marins e Gabriela Sá Pessoa

Do UOL, em São Paulo

30/05/2020 04h00

O Brasil registrou nesta sexta-feira (29), pelo quarto dia consecutivo, mais de mil novas mortes em decorrência do novo coronavírus: foram 1.124 óbitos nas últimas 24 horas. Ainda assim, não é possível estimar que estejamos no pico. Sem o controle da epidemia em estados críticos, como Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco e São Paulo, os números de mortes por coronavírus não vão se estabilizar.

A epidemia está em estágios diferentes em cada estado. Enquanto em Minas Gerais e Mato Grosso do Sul o número de óbitos por milhão de habitantes ainda é baixo; no Rio de Janeiro a letalidade é alta e os óbitos dobraram em duas semanas. São Paulo, por sua vez, registra muitas mortes, mas os números têm desacelerado nas últimas semanas — embora tenha batido recorde de casos na última quinta-feira (28).

Observar as mortes por milhão de habitantes em um período de duas semanas indica se a doença ainda está em fase de crescimento. Além disso, coloca os números da covid-19 na escala da população de cada estado, afirma o economista Guilherme Lichand, professor da Universidade de Zurique e integrante do grupo de vigilância epidemiológica Brasil sem Corona.

"Diferentes estados reagiram de forma diferente e isso gera padrões diferentes, gera 27 curvas. Combinar esses dois critérios — morte por milhão e variação em duas semanas — dá um retrato mais preciso dos diferentes momentos que a gente está vivendo", diz Lichand.

O economista propõe a divisão dos estados em quatro grupos. No primeiro, estão os que têm números baixos de mortes por milhão e de crescimento; no segundo, os que inspiram atenção porque, apesar de poucos óbitos, estão em fase de aceleração.

A terceira categoria inclui estados com muitas mortes e baixa variação — isso significa que a epidemia é preocupante, mas a tendência é de diminuição. Por fim, aqueles onde a epidemia é preocupante em razão do crescimento alto e do número significativo de mortes por milhão de habitantes.

"A gente não tem que procurar por platô em nenhum desses grupos. O que a gente precisa é que os casos caiam", afirma Lichand, referindo-se ao estágio da epidemia em que o número de casos é alto, porém estável.

Estão em situação crítica os estados que concentram os maiores números de morte por milhão de habitantes, como São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Pernambuco. Para o economista, o desempenho desses estados é fundamental para estabilizar a curva do número de mortes no Brasil.

"O caso de São Paulo, por exemplo, que ainda tem que manter muita atenção, mas já vai começar a programar uma reabertura, que foi justamente o que aconteceu. Uma reabertura cuidadosa olhando para os números. E tem os casos que estão totalmente descontrolados, como é o caso do Rio de Janeiro, Ceará e Pernambuco. Aí a gente tem um cenário bastante preocupante, porque, além de muito populosas, tem mortes por milhão muito elevadas e continuam crescendo rápido", argumenta Lichand.

Porém, a subnotificação dos dados, já admitido pelas secretarias estaduais e Ministério da Saúde, impactam nesses dados de óbitos. É possível observar uma maior subnotificação em estados como Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul.

No primeiro, enquanto há uma explosão de casos confirmados, dobrando em menos de 30 dias, o número de mortes se mantém constante entre 3 mil e 5 mil no mês de maio. No segundo, os dados de mortos permaneceram dias seguidos sem atualização, com 17 mortos e somente na última quarta-feira houve uma atualização para 18 óbitos.

Mesmo com esta divisão e uma visualização mais clara do momento em que cada estado se encontra, o infectologista especializado pelo Hospital Emílio Ribas, Natanael Adiwardana, explica que só é possível dizer se o país já viveu seu pico quando os números se estabilizarem até entrarem em queda.

"A gente só pode dizer que está no pico após ver uma queda ou ver que os casos realmente começaram a estabilizar", disse ao UOL. "Então, não é porque a gente já tem mais de mil mortes, que esse é um limite e que a gente não cresce mais além disso. A situação pode piorar. Ainda mais nas situações onde há subnotificação e a falta de vigilância são maiores."

Segundo ele, é preciso também observar outros números além do dado diário de mortes. É importante também visualizar o número de pessoas que já contraíram a doença e quem ainda é suscetível à contaminação.

"Mil é um número emblemático porque já soava bastante nas centenas, agora nos milhares soa bem mais. Mas ele pode aumentar, é claro. A gente tem que ver a proporção de pessoas que foram afetadas e, para além disso, o número de casos diariamente, se eles continuam a subir ou não."

Para o médico epidemiologista do Hospital das Clínicas da USP, Evaldo Stanislau, há muita expectativa em cima do momento do pico da curva brasileira, quando há mais variáveis a serem consideradas.

"Por exemplo, temos visto nos estudos de base populacional que a presença de anticorpos é muito pequena na população em geral. Ou seja, ao menor descuido a epidemia pode crescer muito de novo após o 'pico' - veja os países que relaxaram como temem a segunda onda -", disse.

"Eu não corro e vigio o pico. Acho que ele é um dos componentes. Qualificar os clínicos da ponta, ter políticas sociais que permitam às pessoas ficar em casa e investir em diagnóstico e vigilância epidemiológica/isolamento dos casos suspeitos é a chave", finaliza.

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