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Coronavírus

Ministério da Saúde registra 139 mortes a menos do que mostram secretarias

4.junho.2020 - Homem trabalha em meio às sepulturas do Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus - EDMAR BARROS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
4.junho.2020 - Homem trabalha em meio às sepulturas do Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus Imagem: EDMAR BARROS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Arthur Sandes

Do UOL, em São Paulo

04/06/2020 23h01Atualizada em 04/06/2020 23h02

O Ministério da Saúde divulgou nesta noite que o Brasil contabiliza 614.941 casos oficiais e 34.021 mortes por covid-19, mas os números recém-anunciados já estão, na verdade, desatualizados. A conta não bate com a somatória dos boletins das Secretarias Estaduais de Saúde, que apontam mais de 620 mil diagnósticos e 34.160 óbitos. O mesmo descompasso já havia acontecido ontem e tem sido algo comum nesta pandemia.

A atualização de ontem do ministério também saiu apenas às 22h e, segundo o governo, devido a problemas técnicos. Mesmo divulgados com atraso de três horas, os dados federais estavam defasados em relação aos estados: eram 32.548 mortes por covid-19 no Brasil, enquanto as Secretarias de Saúde no mesmo dia apontavam 106 óbitos a mais.

A diferença se dá em parte por uma questão de tempo. O ministério cobra que os estados repassem seus dados até uma determinada hora do dia, mas as secretarias estaduais seguem contabilizando casos e mortes por covid-19. A pasta afirmou em março que consolidava os números às 16h, mas, questionada, não esclareceu ao UOL se este horário mudou desde então.

A entrevista coletiva de hoje do Ministério da Saúde analisou os dados de ontem, por exemplo, com cerca de 20 horas de atraso.

Especialistas consideram este descompasso entre governo federal e estados como um problema de comunicação com a população e também um entrave no combate à própria pandemia.

"Teríamos uma dinâmica muito melhor se o ministério atualizasse os dados mais rapidamente e de forma mais transparente. Isso pode passar uma falsa sensação do estado atual das coisas", afirma o infectologista Natanael Adiwardana, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo.

"A transparência destes números causa apreensão nas pessoas e também nos técnicos, profissionais de saúde. Nós já não temos uma interlocução fácil [com o Ministério da Saúde], e isso complica ainda mais", diz Helio Bacha, infectologista do Hospital Albert Einstein.

"Há um impacto na assistência, porque muda o planejamento e a tomada de decisão de gestores que estão monitorando estes dados. Então também causa um tipo de efeito cascata", concorda Evaldo Stanislau, infectologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

O UOL questionou o Ministério da Saúde sobre a diferença nos dados divulgados e o que tem sido feito para sanar este problema, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. Se a pasta responder, o posicionamento será incluído na reportagem.

Questionado na coletiva de hoje sobre a desatualização dos dados, um porta-voz do Ministério da Saúde admitiu que as diferenças "são significativas e importantes", mas que as análises técnicas são feitas com base em semanas epidemiológicas, não dias.

"Se eu estipulasse fechar [o boletim] ao meio-dia, em três horas sairia mais um número e vocês diriam 'ah, o Ministério falou de um número desatualizado'. As variações de um dia para outro acontecem, mas o mais importante é perceber a dinâmica de transmissão nas semanas", argumentou Eduardo Macário, diretor do Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças não Transmissíveis.

"Felizmente há caminhos alternativos", diz especialista

Frente aos problemas em torno dos dados oficiais, surgiram iniciativas próprias para o monitoramento diário da pandemia no Brasil. Sites como o "covid19br", da Universidade Federal de Viçosa (UFV), e o "brasil.io", mantido por voluntários, usam a somatória dos boletins estaduais. Já o "Covid-19 Brasil", projeto colaborativo com cientistas de várias universidades, vai além e elabora projeções sobre a evolução da pandemia.

"Felizmente há estes caminhos alternativos: sanitaristas e epidemiologistas fazem o serviço por conta própria. Eles buscam [os dados] na fonte, com estados e municípios, e nos alimentam. Isso minimiza o impacto", afirma o infectologista Evaldo Stanislau.

"A transparência de dados é uma conquista da população em todos os campos, e na Saúde não é diferente. Ultimamente temos perdido cada vez mais a transparência, e não ter estes dados durante uma pandemia em que o Brasil já é o epicentro? É muito negativo", completa Stanislau.

Ainda há subnotificação e atraso

A diferença para os dados das Secretarias Estaduais é apenas um dos fatores que tornam a atualização do Ministério da Saúde defasada. A subnotificação de casos nas grandes cidades está na casa dos 800%, segundo estudo divulgado nesta semana pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel); e o atraso na divulgação de óbitos pode passar dos 50 dias.

Na prática, os dados oficiais funcionam não como parâmetro, mas como piso: contabilizam apenas os casos e mortes dos quais se têm provas já verificadas. O Brasil tem no mínimo 614.941 casos de covid-19 e 34.021 mortes pela doença. Na realidade, porém, os casos e mortes são muito mais numerosos.

"Nós já estamos atrás da grande maioria do mundo na taxa da testagem, e por isso nossos dados de certa forma já ficam subdimensionados", aponta o infectologista Natanael Adiwardana, que vê o cenário como prejudicial ao próprio combate à pandemia.

"Ter um sistema ágil e atualizado em tempo real é crucial para poder fazer um bom planejamento a médio e longo prazo", aponta.

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