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Covid-19: mortes diárias do país em maio superam soma de todos os cânceres

Ala de UTI para pacientes internados com coronavírus no hospital Gilberto Novaes, em Manaus (AM) - Michael Dantas/AFP
Ala de UTI para pacientes internados com coronavírus no hospital Gilberto Novaes, em Manaus (AM) Imagem: Michael Dantas/AFP

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

06/06/2020 22h52

Pelo menos 21.367 pessoas morreram vítimas da covid-19 no mês de maio, segundo dados das declarações de óbito registradas nos cartórios do país até a última sexta-feira (5). Com isso, a doença causada pelo novo coronavírus já alcança uma média 689 óbitos por dia.

O UOL comparou os dados do portal da Transparência, feito pela Arpen Brasil (Asssociação dos Registradores de Pessoas Naturais), com os de causa-morte inseridas no SIM (Sistema de Informação sobre Mortalidade), do Ministério da Saúde, com base nos meses de maio de 2011 a maio de 2018. Não há dados ainda informados para o ano de 2019, que estão em fase final de tabulação.

Nesse período, a média de morte por todos os cânceres chegou a 564 por dia para os meses de maio —é o conjunto de doença que mais mata no país.

Os dados do portal da Transparência são parciais, visto que ainda há uma atualização por parte dos cartórios —eles têm 12 dias para incluírem os números e as informações no sistema.

Historicamente, o mês de maio é o segundo com maior número de mortes no país, atrás apenas de julho. As mortes nesse período mais frio do ano ocorrem devido à maior circulação de vírus respiratórios.

Mesmo assim, maio de 2020 deve marcar uma liderança com folga da covid-19 em relação a outras causas. Por exemplo: a média histórica de mortes por doenças cardiovasculares ou cerebrovasculares, acidentes e agressões nos meses de maio não chegam sequer à metade do que já foi registrada pela covid-19 no mês passado.

"Esse número de óbitos demonstra claramente que vivemos a maior tragédia da história do Brasil", diz o neurocientista Miguel Nicolelis, coordenador da comissão científica para a covid-19 do Consórcio Nordeste.

O avanço da doença também pode ser percebido no aumento percentual da covid-19 entre as mortes que tiveram motivos respiratórios. Em maio deste ano, pelo menos uma em cada cinco mortes causadas por problemas respiratórios foi provocada pela covid-19. Em abril, esse percentual era de apenas 8%, atrás de pneumonia e insuficiência respiratória.

Subnotificação

O pneumologista, pesquisador e professor da UnB (Universidade de Brasília) Ricardo Martins lembra ainda que a covid-19 tem uma grande subnotificação no Brasil, seja nas declarações de óbito, ou mesmo nos números divulgados pelo Ministério da Saúde. "É um momento de aceleração da doença, mas não chegamos ao pico ainda. Além disso, esses dados são muito imprecisos", diz.

Segundo ele, sem os números precisos, por uma testagem reduzida da população, o país está atuando contra a covid-19 de forma desorientada.

"A gente precisa de informações para trabalhar, e não tem esses dados de forma consistente. Tão ruim como essa crise é a falta de dados. Estamos trabalhando no escuro. A gente está precisando de informações de universidades, de epidemiologistas, que vão atrás", explica.

Segundo ele, desde a saída do ministro Nelson Teich, houve uma "piora desses dados" no que se refere aos números do Ministério da Saúde. Ele ainda acredita que existem secretarias estaduais "escamoteando dados".

"Esses dados de SRAG [síndrome respiratória aguda grave], pneumonias, septicemias podem ser decorrentes da covid-19 e, assim, devemos ter um percentual expressivo de mais óbitos. Pode ter casos também de infarto, e o gatilho ter sido a infecção pelo covid-19. Sem contar que muitos estados têm uma causa enorme de mortes indeterminada. São dados que a gente precisaria ver caso a caso", finaliza.

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