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Saúde defende cloroquina: 'Pessoas precisam aprender a ler ciência'

Resposta do ministério ocorre após a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) alertar que o país deve retirar "imediatamente e com urgência" a hidroxicloroquina - Getty Images / iStockphoto
Resposta do ministério ocorre após a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) alertar que o país deve retirar "imediatamente e com urgência" a hidroxicloroquina Imagem: Getty Images / iStockphoto

Do UOL, em São Paulo

17/07/2020 18h37

O Ministério da Saúde voltou a defender hoje, em coletiva de imprensa, o uso da cloroquina para o tratamento contra o coronavírus, mesmo sem eficácia comprovada ainda. O governo afirmou que a "polarização" atrapalha o tema e adotou tom crítico em relação aos questionamentos ao dizer que "as pessoas precisam aprender a ler ciência".

Mais cedo, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) alertou que o país deve retirar "imediatamente e com urgência" a hidroxicloroquina de todas as fases do tratamento da doença. A orientação foi escrita com base em estudos recentes sobre a ineficácia da droga.

"Há uma insistência em recorrer a esse tema, infelizmente por conta dessa polarização. O que muda diariamente não é a nota, o que muda diariamente são os informes de evidências. As pessoas precisam aprender a ler ciência se querem debatera nesse nível", afirmou Hélio Angotti Neto, secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos.

Segundo o secretário, a maioria dos artigos científicos que reprovam o uso do medicamento — amplamente defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) — é baseada em estudos com pacientes na fase avançada da doença, quando o vírus praticamente não está mais ali, o que está uma reação inflamatória muito grave.

"Há evidências contrárias a essa e outras drogas, mas como disse são pacientes que podem estar na fase leve, inicial, intermediária ou tardia. Como foi dito inúmeras vezes, e, infelizmente, as pessoas parecem não ter com muito zelo com os artigos publicados", acrescentou.

Angotti Neto afirmou durante a coletiva da pasta que as "inconsistências" e "polarização" têm gerado desconforto aos pacientes e pediu para que a competência dos profissionais de saúde seja respeitada, incluindo o direito de prescrever o tratamento que entende ser o mais correto.

O governo indicou que não há problema em mudar a orientação sobre o uso do medicamento, mas que é preciso "ir aos fatos": olhar evidências científicas e entender que a doença tem várias fases, e cada pesquisa aborda uma fase diferente.

"Só peço um pouco de consciência, responsabilidade no uso da palavra ciência. As pessoas estão usando a ciência como se fosse um tipo de porrete. Mas temos que usar a ciência com consciência", completou o secretário.

Também hoje, a Fiocruz conversou com o Ministério da Saúde, após ter recebido um ofício orientando a divulgar amplamente e recomendar o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento precoce de pacientes.

Dinheiro gasto de forma ineficaz, diz SBI

O tema surgiu na coletiva por conta da nota publicada hoje pela SBI, em que a entidade demanda que Ministério da Saúde, estados e municípios reavaliem suas orientações de tratamento, "não gastando dinheiro público em tratamentos que são comprovadamente ineficazes e que podem causar efeitos colaterais".

A Sociedade Brasileira de Infectologia cobra que estes recursos financeiros, tecnológicos e humanos sejam empregados em tratamentos que são comprovadamente eficazes e seguros para pacientes com coronavírus.

Um estudo publicado pela revista médica da ACP Journals (American College of Physicians), por exemplo, avaliou pacientes com coronavírus em 40 estados americanos e três províncias do Canadá; o grupo que fez uso da hidroxicloroquina não teve qualquer benefício clínico a mais do que os que receberam placebo (preparação neutra sem efeitos farmacológicos).

Outra pesquisa feita na Espanha e publicada pela revista acadêmica de Oxford, no Reino Unido, mostrou que não houve benefício virológico (redução da carga viral na nasofaringe) ou clínico (redução da duração dos sintomas e da hospitalização) em pacientes que tiveram administração de hidroxicloroquina.

"Com essas evidências científicas, a SBI acompanha a orientação que está sendo dada por todas as sociedades médicas científicas dos países desenvolvidos e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de que a hidroxicloroquina deve ser abandonada em qualquer fase do tratamento da covid-19", diz a SBI, que trata a cobrança como "urgente e necessária".

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