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Coronavírus

Eficácia das vacinas cria opção de imunizar mais gente com 1ª dose

Brian Pinker, de 82 anos, é imunizado com vacina desenvolvida pela Oxford - Steve Parsons/Pool via REUTERS
Brian Pinker, de 82 anos, é imunizado com vacina desenvolvida pela Oxford Imagem: Steve Parsons/Pool via REUTERS

Nathan Lopes, Jamil Chade e Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

04/01/2021 16h31

A cada dez pessoas vacinadas, sete ficaram protegidas contra o novo coronavírus 21 dias após receberem a primeira dose do imunizante desenvolvido pela Universidade de Oxford e AstraZeneca. A eficácia de 70% da vacina, que começou a ser aplicada hoje no Reino Unido, gerou uma nova questão: não é melhor imunizar o maior número possível de pessoas com todas as doses disponíveis (aumentando o tempo para aplicar a segunda dose) em vez de reservar as duas doses apenas aos grupos prioritários?

Essa é a discussão do dia na Europa. Entre os britânicos, a estratégia de imunizar uma parcela maior da população com uma única dose vem ganhando adeptos, embora a aplicação da segunda dose no prazo inicialmente planejado não tenha sido descartada pelo governo.

Na Alemanha, o ministro da Saúde, Jens Spahn, pediu hoje aos cientistas locais que aplicassem apenas uma e não as duas doses do imunizante aprovado no país, o da Pfizer-Biontech. Amanhã, uma reunião extraordinária na OMS (Organização Mundial de Saúde) decidirá quantas doses por vacina serão recomendadas aos países membros.

No Brasil, especialistas se dividem sobre qual estratégia é mais adequada para a proteção dos brasileiros, já que a imunização pela vacina de Oxford — a principal aposta brasileira — sobe para 80% quando a segunda dose é aplicada 12 semanas após a primeira.

"A eficácia da vacina no 22º dia após a primeira dose, antes da aplicação da segunda, está perto de 70%", afirmou à Reuters Wei Shen Lim, presidente de comitê de Vacinação e Imunização contra a covid-19 do Reino Unido.

"Excelente estratégia"

Para a SBIm (Sociedade Brasileira de Imunização), a estratégia de ampliar o intervalo entre as duas doses é interessante e poderia ser estendida a todas as vacinas que demandem duas doses, como a CoronaVac, desenvolvida pela China em parceria com o Instituto Butantan, em São Paulo.

"Você controla mais rápido a pandemia se conseguir vacinar muita gente junto, rápido, numa primeira fase", diz a médica Mônica Levi, presidente da Comissão de Revisão de Calendários Vacinais da SBIm.

Um intervalo maior me parece uma excelente estratégia. Dessa maneira, você tem mais três meses de produção de vacina. Não é trocar de duas [doses] para uma, mas iniciar com uma dose para mais grupos, mais gente."
Mônica Levi, da SBIm

Interlocutores do governo paulista afirmam que essa estratégia não deve ser adotada por enquanto no plano de vacinação com a CoronaVac, prevista para começar em 25 de janeiro no estado de São Paulo. Segundo representantes do governo, é preciso seguir os ritos que o protocolo científico indicou.

Imunologista da SBI (Sociedade Brasileira de Imunologia) e professora da Ufcspa (Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre), Cristina Bonorino defende a utilização das duas doses. Ela explica que a proteção de 70% ocorre 21 dias depois da primeira dose, "mas não se sabe qual o nível de proteção depois de 22 ou 60 dias".

"Minha sugestão é começar a vacinação com as duas doses enquanto inicia-se um estudo clínico para saber por quanto tempo uma pessoa está imune com a única dose", afirma. "A segunda dose é muito importante para expandir as células de memória imunológica estimuladas pela primeira."

E os idosos e doentes?

Especialista da Asbai (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia), Ana Karolina Barreto Marinho diz que, "diante da necessidade de vacinar muita gente", aumentar o tempo "entre as doses é uma estratégia a se pensar".

Considero melhor aplicar as duas doses nos grupos mais vulneráveis para garantir a melhor imunização possível de idosos e pacientes com comorbidade. A resposta imunológica do idoso já é menor. A quem tem comorbidade, essa resposta pode ser ainda mais baixa."
Ana Karolina Barreto Marinho, da Asbai

Levi confirma que, na vacina da gripe, "que é todo ano e ninguém contesta nada", a eficácia, principalmente em idosos, "não é tão grande". "A gente fala aos idosos que eles podem ter a gripe, mas [a vacina] evita as complicações, internação, ea morte. Não é uma vacina que impede totalmente de ter a gripe", diz.

Se mesmo assim a decisão no Brasil for espaçar a aplicação das doses, o Brasil precisará se planejar, diz Levi.

"O que a gente não pode é dar a primeira dose e não ter a garantia de que vai ter a segunda daqui a três meses", diz. "Precisa disso [as duas doses] para a gente ter a eficácia máxima."

É o que recomendou o comitê de vacinação britânico, ao aprovar o uso emergencial da vacina de Oxford. No documento divulgado em 30 de dezembro, a JCVI (Joint Committee on Vaccination and Immunisation) diz que "não é aconselhável pular a segunda dose pois ela pode ser importante para uma proteção mais duradoura; as durações exatas da proteção são atualmente desconhecidas".

Levi diz que o Brasil também tem outros assuntos para se preocupar, já que faltam insumos básicos para a vacinação em massa, como seringas e agulhas.

"Não temos nada ainda. Não temos vacina, não temos aprovação da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], mas é uma estratégia [espaçar as duas doses] a ser pensada", diz.

A demora em iniciar a vacinação, lembra Bonorino, pode gerar mutações no novo coronavírus. Ele poderia se tornar resistente à vacina ou mesmo resultar em diversas variantes, como ocorre ao vírus da gripe comum.

"Quanto mais o vírus circula, mais fácil ele sofre mutação. Apenas futuramente saberemos se precisaremos nos vacinar contra a covid-19 todos os anos", disse.

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