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Coronavírus

Isolamento não cai na virada, mas viagens e festas devem gerar novo pico

Banhistas lotam as areias da Praia Grande, no litoral de São Paulo, na véspera de Réveillon - FELIPE RAU/ESTADÃO CONTEÚDO
Banhistas lotam as areias da Praia Grande, no litoral de São Paulo, na véspera de Réveillon Imagem: FELIPE RAU/ESTADÃO CONTEÚDO

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

05/01/2021 04h00

Apesar das praias cheias, os índices de isolamento divulgados pelo governo do estado de São Paulo não apresentaram queda na capital ou no litoral durante o feriado de final de ano. Contudo, mesmo sem alteração nessas taxas, viagens e festas de Réveillon deverão aumentar ainda mais os números de casos e óbitos por covid-19, avaliam especialistas.

De acordo com o governo paulista, o estado teve uma taxa de isolamento de 49% no último sábado (2), uma das mais altas considerando o último mês, de dezembro. Cidades litorâneas como Santos e São Sebastião seguiram a mesma lógica. Mas isso não quer dizer que as aglomerações foram inofensivas. Segundo médicos, deslocamentos e reuniões fazem com que o vírus circule cada vez mais por novos ciclos — e, quanto maior a festa, maior o potencial de dano.

Com 62% de ocupação dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) voltados para covid-19, o estado de São Paulo se prepara para um pico de contaminações e internações nos próximos 15 dias. Assim, Estado e Prefeitura já esquematizam realocações de leitos para conseguir suprir a demanda que deve aumentar consideravelmente a partir do dia 20 de janeiro.

"Esses feriados são caseiros. Mesmo que muita gente viaje, é uma minoria. Ainda assim, essa minoria pode fazer um grande estrago porque ela se aglomera em uma festa ou na praia e depois volta à sua cidade. O potencial de levar e/ou trazer o vírus é grande e é isso que aumenta a transmissão", explica o nefrologista José Osmar Medina, ex-coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo.

Isolamento mostra tendência, mas não é garantia. Entenda

O índice de isolamento, calculado pelo IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo), vinculado ao governo paulista, com dados das principais operadoras de telefonia móvel do Brasil, serve como um instrumento para indicar tendências e mostrar avanços, mas não é garantia do controle da pandemia.

No cálculo, é considerado "sair do isolamento" quando caso o aparelho celular fica a mais de 200 metros do local em que "dormiu" (onde ficou das 00h às 2h do dia em questão). Isso significa que, se uma pessoa viajou e ficou em um único lugar, o deslocamento só conta para o dia do deslocamento.

Há outras variáveis, como ir a lugares (como mercados, praia ou restaurantes) em um raio inferior a 200 m do local estabelecido ou até a ir a esses lugares sem o aparelho — o que pode ajudar a explicar imagens de padarias e restaurantes cheios em cidades com altos índices de isolamento.

A pessoa vai à praia da frente, às vezes não chega a 200 metros, por exemplo. Então ele [o índice] é bom, ajuda, mas não pode ser -- e não é - o único meio [de avaliação da pandemia]."
José Osmar Medina, ex-coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo

Movimentação na praia de Ipanema, na cidade de Rio de Janeiro, RJ, nesta quinta feira, 31 - BRUNO MARTINS/ESTADÃO CONTEÚDO - BRUNO MARTINS/ESTADÃO CONTEÚDO
Movimentação na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, na última quinta (31), véspera de Réveillon
Imagem: BRUNO MARTINS/ESTADÃO CONTEÚDO

Redução de tráfego nas estradas

De acordo com a Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo), 10,19 milhões de veículos trafegaram pelos cinco principais sistemas rodoviários do estado entre 18 de dezembro e 3 de janeiro, uma redução de 14,11% em relação ao mesmo período entre 2019 e 2020. No sistema Anchieta-Imigrantes, que liga a capital à Baixada Santista, foram 2 milhões de veículos, com queda de 24% em relação ao ano retrasado.

As baixas são atribuídas à pandemia. No Guarujá, na Baixada, o índice de isolamento chegou a 49% no sábado e 50% no domingo (3) — o maior já registrado desde o fim de agosto. Ainda assim, foram registradas festas e aglomerações no litoral paulista e em diversos lugares do país.

"Houve uma infinidade de encontros com as festas de final de ano, que funcionam como minicarnavais. Isso significa deslocar um contingente populacional grande para interagir com outros núcleos, muitas vezes sem proteção. É como fazer conta de balcão de padaria: quanto mais gente, mais o vírus circula", afirma a epidemiologista Ana Brito, pesquisadora da Fiocruz Pernambuco e professora da UPE (Universidade de Pernambuco).

Essas pessoas vão voltar aos seus núcleos agora [a partir da última segunda, 4]. Mesmo sendo minoria, são milhões de pessoas. Elas vão integrar seus grupos familiares ou de trabalho, seus cotidianos. Isso significa que, caso infectadas, mesmo assintomáticas, vão transportar para outros locais."
José Osmar Medina, ex-coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo

Casos devem aumentar ainda mais

O Brasil, que nunca chegou a controlar seus casos e óbitos da pandemia, voltou a experimentar novos picos em dezembro, com a chegada do verão e do final de ano. Na última quinta (30), o país registrou 1.224 mortos em um intervalo de 24 horas, o maior índice desde o dia 18 de agosto. Nos últimos dias, por causa do feriado e do sistema de plantão nas secretarias estaduais de saúde, os dados aparentam ter caído. Contudo, além de números represados, para os médicos, a tendência é que as festas impactem numa aceleração da curva de casos.

"Você vai ver isso em todos os lugares. Vai ter em São Paulo, no Brasil, como deve aumentar nos Estados Unidos. Há celebração de ano novo por todos os lugares", afirma Medina.

"Mas, lá, eles já começaram a vacinação, o que é um passo. Até o negacionista [presidente dos EUA, Donald] Trump começou", lembra Brito. "Aqui, estamos tontos, não temos uma liderança federal. O Brasil renunciou a essa posição, um governo que não cumpriu seu papel constitucional de articular ações a nível nacional."

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