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Coronavírus

Falta comando no país, diz Sociedade Brasileira de Imunização sobre seringa

SIPHIWE SIBEKO
Imagem: SIPHIWE SIBEKO

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

06/01/2021 13h12

A fala do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de que vai suspender a compra de seringas para a vacinação contra a covid-19 foi criticada pela SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações). Para a entidade, a posição do presidente demonstra problemas na condução da pandemia no governo.

Bolsonaro disse que o governo federal só voltará a comprar seringas quando os preços "voltarem à normalidade", o que não deve acontecer tão cedo em um momento de alta demanda por insumos médicos em razão da pandemia, que já matou quase 200 mil pessoas apenas no Brasil. No país, o número de infectados já se aproxima de 8 milhões de pessoas.

Mostra uma falta de planejamento, uma falta de comando no Ministério da Saúde, no governo federal"
Juarez Cunha, presidente da SBIm

Surpresa após reunião

Na última segunda-feira (4), o ministério teve uma reunião com a Abimo (Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos e Odontológicos) para tratar de um novo edital para a compra de seringas. Por esse motivo, a fala de Bolsonaro gerou surpresa na entidade.

O primeiro edital não foi bem-sucedido porque apresentava preços defasados, praticados antes da pandemia, segundo a associação. A previsão, dada pelo Ministério da Saúde à Abimo há dois dias, era que um novo edital fosse apresentado em até duas semanas, já com preços reajustados. Agora, com a posição do presidente da República, há dúvidas se isso vai acontecer.

"Tivemos uma reunião na segunda-feira com o Ministério da Saúde onde esse tema não tinha sido comentado nesse caminho", diz ao UOL Paulo Henrique Fraccaro, superintendente da Abimo. "Mas, sim, que o próximo pregão estaria no ar entre uma e duas semanas e com o preço de referência atualizado."

Tanto a Abimo quanto a SBIm acreditam que a vacinação não deve ser afetada neste primeiro momento. O problema é para as futuras fases dos planos de vacinação. "Não precisa ser tudo para receber agora", diz Cunha, lembrando que o plano federal prevê que a imunização chegará ao primeiro semestre de 2022.

Mas, assim como outros colegas da SBIm, ele acredita que o melhor é já providenciar os acertos para garantir o abastecimento. "Nós não podemos esperar mais", diz Mônica Levi, presidente da Comissão de Revisão de Calendários Vacinais da SBIm.

Geralmente, a compra de seringas e agulhas é feita pelos estados, lembra a SBIm, mas, na pandemia, o governo federal decidiu centralizar o processo para adquirir e distribuir estoques. "Para iniciar a vacinação, tem [seringas]. Agora, do segundo semestre em diante, se não comprar agora, acho que vai faltar", diz Levi.

Segundo a Abimo, seringas podem ser entregues entre 30 e 45 dias após os pedidos. Mas rearranjo em estoques podem diminuir esse prazo.

Preço não deve cair

Assim como a associação, a SBIm também avalia que não há indícios de que os preços das seringas vão cair. "Há uma inflação natural quando a demanda aumenta", diz Fraccaro.

"A demanda mundial só vai aumentar. Não tem nenhuma previsão de que é algo momentâneo. A saúde e a vida dos brasileiros é o mais importante
Mônica Levi, presidente da Comissão de Revisão de Calendários Vacinais da SBIm

Mas o problema mais preocupante, na visão da SBIm, são as mensagens dúbias que o governo passa. O presidente da entidade cita, como exemplo, a posição da equipe econômica de que com a vacinação será possível a recuperação do país, enquanto Bolsonaro incentiva o discurso contra os imunizantes.

"Os recados nunca são na mesma linha", diz Cunha, lembrando que o presidente não incentiva medidas de cuidado básicas, como uso de máscara e distanciamento social. "É o principal recado enquanto não tiver vacina. E estimula exatamente o oposto [não praticar as medidas]". Para ele, essas ações levam à "polarização, ao descrédito da ciência".

"É uma guerra, é uma luta [contra a pandemia]. Tem que ter muito planejamento e, ao mesmo tempo, passar os recados adequados", diz Cunha.

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