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Coronavírus

Famílias seguem em saga por oxigênio no pior dia da pandemia em Manaus

Do UOL, em São Paulo

21/01/2021 03h00

"Dois amigos me procuraram quando faltou oxigênio nos hospitais de Manaus. Eu me sinto muito mal, minha cabeça dói, a culpa é grande, estou destruído mentalmente. Não pude ajudar. O pai de um morreu, não aguentou 30 minutos sem oxigênio."

O professor de educação física Daniel Lima tem feito malabarismos para garantir que um único cilindro de oxigênio possa ser utilizado por seu pai e seu padrasto em casas diferentes. O desespero é compartilhado por incontáveis amazonenses desde que o sistema de saúde de Manaus entrou em colapso. O oxigênio se esgotou há exatamente uma semana.

Pacientes foram transferidos a outros estados e cilindros foram importados da Venezuela. Pela cidade, as empresas que comercializam o insumo viraram local de peregrinação de familiares atrás do insumo que falta na rede pública.

Na última semana, mais de 18 pessoas morreram asfixiadas em três cidades amazonenses, conforme governos locais e o Ministério Público. O número sobe para cerca de 35 de acordo com balanços extraoficiais.

As outras mortes por asfixia no interior foram em Manacapuru (7), segundo o MP, e Itacoatiara (4), onde o governo do estado sugeriu na semana passada abrir valas diante da impossibilidade de suprir rapidamente os estoques de oxigênio. Em Manaus, não há dados oficiais.

Procurei oxigênio para doação, mas a maioria é para venda e os preços estão lá em cima."
Wendy Milla Brito faz campanha virtual para conseguir dinheiro para o oxigênio

Uma fila gigante sem qualquer controle de distanciamento está formada na porta da única empresa em Manaus que está vendendo oxigênio a pessoas que têm familiares acamados por conta da covid-19. - Carlos Madeiro/UOL - Carlos Madeiro/UOL
Fila sem distanciamento está formada na porta da única empresa em Manaus que vendendo oxigênio a pessoas que têm familiares acamados
Imagem: Carlos Madeiro/UOL

De cidades na região metropolitana de Manaus, partem diariamente e em intervalos regulares carros com cilindros vazios.

Com destino a Manaus, tentam na capital conseguir o insumo para manter vivos os pacientes dos municípios, boa parte sem UTIs (Unidades de Terapia Intensiva).

Em Coari, a 362 quilômetros de Manaus, foram confirmados sete óbitos de domingo para segunda por falta de oxigênio no hospital regional. A prefeitura da cidade acusou o estado de reter 200 cilindros.

A gente está tentando entender o que aconteceu. Isso é objeto de uma investigação específica.

Usinas

Ontem, o Ministério da Saúde requisitou a instalação de sete usinas geradoras de oxigênio, que vão começar a operar assim que instaladas. Do total, duas darão suporte às enfermarias de campanha que estão sendo instaladas na área externa do Hospital e Pronto-Socorro Delphina Aziz. O oxigênio produzido por elas atenderá os 50 leitos clínicos do hospital de campanha.

Outras três usinas vão atender os hospitais Platão Araújo, Francisca Mendes e Instituto de Saúde da Criança do Amazonas (Icam). As duas usinas restantes serão destinadas a outros hospitais a serem definidos.

Além das sete usinas doadas pelo Ministério da Saúde, chegaram a Manaus também outras cinco usinas doadas pelo Sírio Libanês. O carregamento deverá ser encaminhado a cidades do Interior. Juntas, terão capacidade de abastecer aproximadamente 200 leitos de UTI.

A rede de oxigênio do sistema de saúde estadual não estava preparada para o aumento de demanda registrado."
Ministério da Saúde

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Homem carrega cilindro de oxigênio a hospital de Manaus
Imagem: Carlos Madeiro/UOL

Família morre asfixiada

Ao menos seis pessoas da mesma família morreram por asfixia na cidade de Faro, no vizinho Pará, entre segunda e terça desta semana. A cidade, na divisa com o Amazonas, já vive seu próprio colapso na rede pública.

"Ambas as cidades estão em crise. A demanda é maior que a quantidade, porque a produção está comprometida", diz o prefeito de Faro, Paulo Carvalho, referindo-se à crise na empresa White Martins, fornecedora de oxigênio hospitalar no oeste do Pará.

Já o governador garante que o Pará não viverá a mesma trágica situação vista no estado vizinho.

Tem leito e há oferta de oxigênio. Não podemos confundir falta de gestão e busca ao produto com escassez. Isso está longe de acontecer."
Helder Barbalho, governador do Pará

Pacientes reinfectados

Juraci Pereira Dourado já teve covid-19 no ano passado e suspeita ter sido novamente infectada - Carlos Madeiro/UOL - Carlos Madeiro/UOL
Juraci Pereira Dourado já teve covid-19 no ano passado e suspeita ter sido novamente infectada
Imagem: Carlos Madeiro/UOL

Além de lidar com uma doença que se mostra este ano mais rápida, grave e letal entre jovens, os médicos do Amazonas se preocupam também com uma nova variante descoberta por pesquisadores e que teve origem no Amazonas após mutações que a tornaram mais contagiosa.

No estado, a nova cepa reinfectou ao menos uma mulher que tinha anticorpos ativos dias antes de ser diagnosticada novamente com a doença.

A isso, somam-se os relatos de médicos e de profissionais de Saúde de Manaus que têm visto casos de pessoas que já se recuperaram de uma primeira infecção e foram infectados pela segunda vez.

Oficialmente, o Amazonas tem apenas um caso de reinfecção confirmado por meio de exames detalhados e sequenciamento genético. Sobre isso, o UOL apurou que, como os critérios de confirmação são rigorosos, a maioria dos casos não tem como ser confirmada por testes, seja por falta de exame RT-PCR na primeira ocasião, ou por não ter exames que provem que o paciente ficou livre do vírus no intervalo entre as infecções.

Não fui internada na primeira vez, mas fiz o exame depois de me curar e deu que tinha anticorpos. Desta vez é muito mais forte, deu muita diarreia, vômito, dor de garganta e cansaço. Tossi demais, aí decidi procurar o médico. Ele pediu um raio-x e exame e disse que era covid."
Juraci Pereira Dourado, 71

A pandemia não para

Coveiro durante o trabalho pesado em Manaus; nem toda a proteção é suficiente - Carlos Madeiro/UOL - Carlos Madeiro/UOL
Coveiro durante o trabalho pesado em Manaus; nem toda a proteção é suficiente
Imagem: Carlos Madeiro/UOL

Apenas ontem, 177 pessoas foram enterradas em Manaus, 90 delas por complicações ligadas à covid-19. Em abril do ano passado, no auge da primeira onda da pandemia, o maior número registrado foi de 140 sepultamentos em abril do ano passado.

De acordo com o consórcio de imprensa de que o UOL faz parte, mais de 5 mil pessoas foram oficialmente diagnosticadas com a doença, um recorde para o estado, que ficou atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais — com 14.411 e 7.429, respectivamente — em número de casos.

Em Manaus, a lotação das UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) está em 94,3%. Os leitos clínicos estão com ocupação de 98,2% na capital.

Evolução das hospitalizações no Amazonas segundo o governo do estado - Divulgação - Divulgação
Evolução das hospitalizações no Amazonas segundo o governo do estado
Imagem: Divulgação
Evolução dos óbitos no amazonas segundo o governo do estado - Divulgação - Divulgação
Evolução dos óbitos no amazonas segundo o governo do estado
Imagem: Divulgação

Diante desse cenário, o vice-presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Jorge Mussi, determinou que o governo do Amazonas e prefeitos do Estado prestem informações, em até 48 horas, sobre o recebimento e uso de recursos federais para o combate à pandemia. O prazo vence hoje.

O ministro ainda determinou que sejam prestadas informações detalhadas sobre o fornecimento de oxigênio para Amazonas, dados sobre as empresas fornecedoras, cópias dos procedimentos de contratação, critérios técnicos utilizados para a aferição da necessidade de oxigênio para as unidades de saúde do Estado e dados sobre a periodicidade das entregas e os setores responsáveis pela demanda.

Segundo a Folha de S.Paulo, integrantes do Ministério da Defesa estão alarmados com a situação no Amazonas e no Pará, e passaram a cobrar o Ministério da Saúde para garantir insumos e vacinas a todo o país.

Vacinação no Amazonas

Enquanto isso, diversas autoridades do Amazonas se reuniram para tratar da vacinação no estado, especialmente após denúncias de fraude e desvios de doses.

"Nós não podemos deixar que grupos prioritários e pessoas com comorbidades que estão à frente de todo esse trabalho com Covid sejam substituídos por outros grupos que tem condições de enfrentar esse trabalho contra a Covid com menos riscos", informou a Procuradora de Justiça Silvana Nobre Cabral, coordenadora do Grupo de Covid-19 montado pelo MPAM.

Já o prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), reagiu à denúncia proibindo profissionais de saúde de publicarem registros da vacinação em suas redes sociais.

A vacinação em Manaus começou na terça-feira, 19, destinada prioritariamente a profissionais de saúde que atuam no atendimento de pacientes com covid-19. A gestão municipal diz que a cidade recebeu 40.072 doses.

*Colaborou Carlos Madeiro. Com Agências de Notícias

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