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Defensora pública expõe drama no interior do AM: sem UTI e gente definhando

Gabriela Gonçalves, defensora pública do Amazonas - Reprodução/GloboNews
Gabriela Gonçalves, defensora pública do Amazonas Imagem: Reprodução/GloboNews

Do UOL, em São Paulo

21/01/2021 14h46

Em meio a uma batalha diária para garantir atendimento médico adequado a pacientes com covid-19 do interior do Amazonas, a defensora pública Gabriela Gonçalves expôs hoje o drama que vivem as pessoas afetadas diretamente pela crise de saúde pública no estado, mas que ganham menos atenção por estarem afastadas da capital Manaus. Segundo Gabriela, há mais de 700 pessoas internadas na região e gente "definhando" sem um leito de UTI.

A defensora pública de Parintins, segunda cidade mais populosa do Amazonas, relatou em entrevista à GloboNews que pessoas serão "condenadas à morte" se não forem transferidas imediatamente para outros estados, assim como já foi feito com mais de 160 pacientes, a maioria de Manaus.

"Hoje aqui na minha cidade o paciente que é intubado não tem condição de fazer uma hemodiálise, de ter sequer uma nutrição específica para terapia intensiva. Se esses pacientes não forem evacuados, só vai restar a condenação à morte".
Gabriela Gonçalves, defensora pública do Amazonas

Ela explicou que os pacientes que precisam de UTI do interior do Amazonas vivem atualmente um "paradoxo". Em condições normais, eles seriam transferidos para a capital, única cidade com leitos de terapia intensiva no estado, e, se necessário, removidos para outros estados. No entanto, como Manaus já vive um colapso na saúde pública, esse fluxo não é possível.

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Forças Armadas levam cilindros de oxigêncio para Manaus. Desabastecimento já faz vítimas também no interior do Amazonas
Imagem: Divulgação/Forças Armadas

"Hoje temos 732 pacientes internados no interior do estado, sendo que 56 em estado grave. Esses pacientes não têm uma assistência em terapia intensiva", relatou a defensora, que tem atuado para garantir a transferências desses pacientes e disse ter conseguido a remoção de oito pessoas recentemente, todas para Belém.

"Já estamos com cinco pessoas intubadas novamente e definhando [em Parintins]. Para uma cidade de 140 mil pessoas, esse número é enorme. No pico da pandemia do ano passado, nossa taxa de ocupação hospitalar chegou a 60 pacientes, hoje estamos com mais de 100. Tivemos 130 pacientes no final de semana, algo precisa ser feito".
Gabriela Gonçalves, defensora pública do Amazonas

"Caos projetado"

A defensora não poupou os governos estadual e federal das críticas, principalmente pela crise de falta de oxigênio que vem afetando Manaus nas últimas semanas e chocou o Brasil com relatos de pessoas morrendo por asfixia. O desabastecimento já chega também ao interior do estado, e sete pessoas morreram por falta do insumo na cidade de Coari.

"É impensável que um município no interior do Amazonas tenha o seu oxigênio confiscado por um estado e que sete pessoas morram sufocadas porque o oxigênio não chegou a tempo. Isso tudo parece um caos projetado, é preciso uma atitude coordenada, é preciso organização, quando isso vai acontecer?", questionou Gabriela, cobrando também o governo federal.

"Já existe ação civil pública ajuizada perante a justiça federal. O plano não foi apresentado ainda [para ações contra o desabastecimento de oxigênio]. Ainda ontem a juíza federal despachou dizendo que o plano precisa ser apresentado. Ainda não sabemos qual é a capacidade de oferta real e a demanda efetiva", explicou a defensora.

Gabriela ainda disse que o interior do Amazonas está "esquecido", e fez um desabafo sobre sua atuação como defensora no estado nas últimas semanas.

"As pessoas estão cansadas de incompetência, e as pessoas estão cansadas de ineficiência, e acima de tudo as famílias estão cansadas de enterrar seus entes queridos. A Defensoria Pública tem atuado diretamente na tutela dessas pessoas e eu também estou cansada de ouvir choro de mãe, de filha, de esposa. Quero saber quando é que essa atitude vai chegar."
Gabriela Gonçalves, defensora pública do Amazonas