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Coronavírus

Sem critérios, prefeituras vacinam de esteticistas a instrutores de pilates

Leonardo Martins

Colaboração para o UOL, em São Paulo

17/02/2021 04h00

A ausência de uma coordenação federal que elenque os critérios de prioridade para a vacinação contra a covid-19 no Brasil fez com que a responsabilidade de definir os grupos a serem vacinados prioritariamente caísse no colo dos estados e municípios. O resultado disso é que cada cidade elabora um plano diferente e vacina pessoas jovens fora de qualquer grupo de risco, desde esteticistas até professores de pilates.

Todos os estados estão seguindo o Plano Nacional de Imunização, que estabeleceu entre as prioridades "profissionais da saúde", sem definir quais setores integram o grupo ou a prioridade de cada setor — levando em conta que ainda não há doses de vacina para todos.

Isso abriu margem para que, na ponta da linha, cada cidade estabelecesse quem pode ser considerado um profissional da saúde, mesmo que eles trabalhem bem longe de um hospital.

Essa discussão, inclusive, foi parar no STF. Diante da falta de critérios, o ministro Ricardo Lewandowski decidiu que o governo federal deveria apresentar a ordem dos grupos prioritários a serem vacinados em suas respectivas fases.

O UOL recebeu fotos e relatos de diferentes casos de pessoas fora do grupo de risco e de diferentes profissões sendo vacinadas em municípios do interior e do litoral de São Paulo.

Em Itapuí, cidade do interior paulista de 14 mil habitantes, uma esteticista de 40 anos se vacinou e mandou um e-mail para os clientes com a foto da carteirinha de vacinação. No status do WhatsApp, também avisou a clientela de que estava "protegendo" seus clientes e a família.

Moradores de Monte Mor, também no interior, relataram que instrutores de academia e estudantes de veterinária foram vacinados. Uma mulher que, nas suas redes sociais, se identifica como funcionária da Ambev, maior produtora de bebidas do país, foi vacinada e publicou uma foto em seu perfil no Instagram comemorando a primeira dose da CoronaVac.

Já em Lins, fisioterapeutas que trabalham em um estúdio de pilates já foram imunizados.

Em Peruíbe, no litoral paulista, a reportagem recebeu imagens de outras esteticistas que foram vacinadas em uma clínica. A prefeitura, neste caso, definiu que está vacinando profissionais de saúde da rede privada nas empresas cadastradas junto ao executivo municipal. Diversos profissionais que trabalham em farmácias, inclusive, já estão sendo vacinados.

A prefeitura emitiu uma nota na última semana dizendo que "até o momento foram aplicadas 314 doses nos grupos prioritários, seguindo estritamente as recomendações do Plano Nacional de Vacinação" e disse ter vacinado 100% do público-alvo da primeira fase.

A reportagem procurou a prefeitura de Itapuí por telefone, mas não obteve retorno. Não há contatos da assessoria de imprensa disponíveis em nenhuma rede social do município. Se enviado um posicionamento, ele será publicado.

Já a secretaria de saúde de Monte Mor afirmou que a vacinação segue orientações passadas pelo governo de São Paulo. "A secretaria salienta que são solicitados os documentos que comprovem que a pessoa se enquadram no público-alvo da campanha e que atendam as normativas que regulamentam o Plano Estadual de Vacinação", diz a nota.

A culpa não é dos municípios, diz epidemiologista da Fiocruz

Na avaliação de Ana Maria Britto, médica epidemiologista da Fiocruz Pernambuco (Fundação Oswaldo Cruz), a culpa da falta de critério para definição de grupos prioritários é do governo federal, não das prefeituras.

"Houve uma renúncia na condução — ou 'descondução' — do enfrentamento da pandemia. Não tendo uma liderança nacional coordenada e responsável, o que tem acontecido é uma distribuição de vacina proporcional à população de cada estado e município, simplesmente uma distribuição matemática, sem levar os fatores epidemiológicos de cada local", diz a pesquisadora.

O grande problema não é o município, mas, sim, o Brasil não ter coordenação articulada nos três níveis do governo. É uma consequência."
Ana Maria Britto, pesquisadora da Fiocruz Pernambuco

Ela explica que o Plano Nacional de Imunização é um "copia e cola" de outros planos de outros países em que a vacinação contra a covid-19 está à pleno vapor, sem considerar que o cenário da pandemia no Brasil é atípico.

"Foi simplesmente um 'control c + control v', sem levar em conta a realidade epidemiológica brasileira. Nós temos vários problemas. Sem coordenação nacional articulada em três níveis de gestão — federal, estadual e municipal — estamos enfrentando uma pandemia de forma atabalhoada, em que as ações de obrigação do Estado estão sendo assumidas pelos estados e municípios".

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