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Coronavírus

RJ pega contramão ao abrir bares antes de praias, dizem especialistas

Movimentação na Praia de Ipanema no Rio de Janeiro (RJ), em março deste ano - BRUNO MARTINS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Movimentação na Praia de Ipanema no Rio de Janeiro (RJ), em março deste ano Imagem: BRUNO MARTINS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

06/04/2021 04h00

A cidade do Rio de Janeiro adotou o caminho contrário à indicação científica ao priorizar a abertura de bares frente a praias e parques. Para pesquisadores ouvidos pelo UOL, é melhor abrir locais de banhos ao ar livre do que locais fechados para confraternização.

Na última sexta-feira (2), o prefeito Eduardo Paes (DEM) permitiu o funcionamento de bares a partir da próxima sexta (9), mas praias e parques, só em 19 de abril. Para os especialistas, no momento atual da pandemia, não deveria ser liberado um nem outro. Mas, se for para escolher, atividades ao ar livre oferecem menos risco de transmissão.

Existem dados pacíficos na literatura científica que mostram bares e restaurantes como focos de altíssimo risco. Tem muitos surtos descritos a partir de um único ambiente fechado relacionado à alimentação. São ambientes que favorecem aglomerações, por mais que estejam sinalizados, e onde sempre se tira a máscara.
Evaldo Stanislau, infectologista do HC-SP (Hospital das Clínicas de São Paulo)

De acordo com a determinação da Prefeitura, a partir da próxima sexta, bares, restaurantes e quiosques da orla podem funcionar até as 21h; comércio das 10h às 18h; serviços, como cabeleireiros, e cinemas e teatros das 12h às 21h.

Uma liminar suspendeu a retomada das aulas presenciais, prevista para hoje (6). Praias, parques, rodas de samba e casas noturnas permanecem fechados.

Para Stanislau, a manutenção das praias fechadas, dado momento da pandemia, "até faz sentido", visto que "aglomeração na praia é aglomeração, a transmissão também acontece". "Mas abrir bar nesse momento é uma temeridade", pondera.

Um estudo de junho de 2020 de um órgão ligado ao CDC (Centro de Controle de Doenças) dos Estados Unidos indicou que, depois das unidades de saúde, os bares são os ambientes com mais risco de propagação da covid-19.

Do ponto de vista cientifico, isso [abrir bares e fechar praias] não faz sentido. Sem dúvida nenhuma, os locais abertos devem ser privilegiados. Mesmo que faça aglomeração na praia, existe o risco de transmissão, mas é menor do que se eu tivesse num bar.
Raquel Stucchi, infectologista da Unicamp (Universidade de Campinas)

Movimentação intensa de pessoas nos bares do entorno da Rua Dias Ferreira, no Leblon, em julho de 2020 - VANESSA ATALIBA/ESTADÃO CONTEÚDO - VANESSA ATALIBA/ESTADÃO CONTEÚDO
Movimentação intensa de pessoas nos bares do entorno da Rua Dias Ferreira, no Leblon, em julho de 2020
Imagem: VANESSA ATALIBA/ESTADÃO CONTEÚDO

Ideal não era abrir nenhum

O Rio de Janeiro, como o resto do país, passa por um dos momentos mais críticos da pandemia. No sábado (3), um dia após o anúncio, o estado bateu recorde de mortes desde o início da pandemia, com 411 óbitos em 24 horas.

De acordo com o boletim da Prefeitura, 93% dos leitos operacionais para covid-19 estavam ocupados até ontem (5) e 146 pacientes aguardavam vaga.

Por isso, Stucchi argumenta que a Prefeitura "não deveria flexibilizar nada" no momento. "Os números não permitem. Se for para escolher, o ideal seria priorizar locais abertos, mas, mesmo assim, não deveria", afirma a infectologista.

A covid é de transmissão aérea. Então, se está próximo um do outro sem proteção, está transmitindo. Praias e atividades ao ar livre são abertas, mas, se ficarem lotadas, tem-se o mesmo efeito [de contaminação] de esportes coletivos. As pessoas estão relaxadas, bebendo, sem proteção, próximas umas das outras.
Eduardo Martins Netto, epidemiologista da UFBA (Universidade Federal da Bahia)

"A decisão de retornar, de ter essa abertura, é muito delicada. Nós temos um crescimento muito grande no Brasil como um todo. É uma situação muito difícil do sistema de saúde", avalia Martins.

Liberação de bar pode passar a mensagem errada

Para Stucchi, infectologista da Unicamp, além de "não fazer sentido cientificamente", a decisão de reabrir bares nesse momento pode passar a mensagem errada à população. "Fica muito difícil justificar às pessoas: se você não vai ao bar, fica em casa. Mas como ficar em casa se está tudo aberto? Por que ficar em casa se até o bar está aberto?", questiona Stucchi.

Martins avalia que, para tomar uma decisão deste porte, a Prefeitura precisa ter identificado pelo menos uma queda nos índices de casos. "Queda nas internações é mais demorado, por causa da complexidade, já os casos caem mais rapidamente. Minha hipótese é que eles tenham observado isso. Assim espero", diz.

O UOL procurou a Secretaria Municipal de Saúde do Rio para justificar a decisão e pegar os dados, mas não teve retorno até o fechamento da reportagem. No anúncio na sexta, o prefeito Eduardo Paes (DEM) elogiou as medidas de restrição e justificou que os números de casos estavam "começando a estabilizar".

"Insisto: por mais que donos de bares e restaurantes fiquem chateados com a gente, o bar especificamente configura, de maneira pacífica, uma área de elevado risco para transmissão", conclui Stanislau.

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