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Coronavírus

Mais da metade dos estados devem ficar sem CoronaVac antes de nova remessa

04.mai.2021 - Enfermeira aplica vacina contra covid-19 CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan em São Paulo - Adriano Ishibashi/Estadão Conteúdo
04.mai.2021 - Enfermeira aplica vacina contra covid-19 CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan em São Paulo Imagem: Adriano Ishibashi/Estadão Conteúdo

Leonardo Martins

Do UOL, em São Paulo

19/05/2021 04h00

Com a falta de insumos e a suspensão da produção da CoronaVac, ao menos 14 estados e o Distrito Federal devem ficar sem estoque da vacina produzida pelo Instituto Butantan antes que o Ministério da Saúde faça novas remessas da vacina contra a covid-19.

Os dados foram calculados pelo instituto Infotracker, da Universidade de São Paulo, a pedido do UOL. Eles levam em conta a quantidade de doses de CoronaVac presentes em cada estado no último domingo (16) e a projeção de, ao menos, 24 dias até a chegada de novas doses enviadas pelo governo federal.

Isso porque a previsão, anunciada pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), era que 4.000 litros de IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) —suficiente para produzir 18 milhões de doses— chegassem no próximo dia 26 ao Butantan. Mas, ontem, a China reviu o envio e informou que apenas uma parte foi liberada. Isso deve impactar na produção.

Com o insumo em mãos, o instituto ainda leva 15 dias —ou mais— para envasar, revisar e deixar à disposição do ministério da Saúde para envio das novas doses de CoronaVac. Na maioria dos estados, o estoque de ampolas já deverá estar zerado nesse prazo.

São eles: o Distrito Federal e os estados de Alagoas, Amapá, Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraíba, Piauí, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins.

O Instituto Butantan, laboratório do governo de São Paulo que produz a vacina no país, está com as máquinas desligadas há duas semanas desde que os insumos para envasar as doses de vacina acabaram e, até hoje, não chegaram da China.

A CoronaVac é o imunizante mais usado no Brasil contra o novo coronavírus. Além do fármaco, o Brasil aplica na população apenas as vacinas da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e da Pfizer.

O cálculo utilizado pelo Infotracker para levantar a quantidade de doses de CoronaVac disponíveis nos estados e em quanto tempo os refrigeradores ficariam vazios foi seguinte:

  • Dados de vacinas aplicadas contra a covid-19 no Brasil, levantados via consórcio de veículos de imprensa -- do qual o UOL faz parte;
  • Porcentagem de doses aplicadas de CoronaVac, disponível no site do Ministério da Saúde;
  • Velocidade de vacinas aplicadas por dia, calculada a partir da média de vacinação registrada na primeira semana de maio de 2021 em cada estado, com dados do Ministério da Saúde.

É comum que prazos de entrega de insumos da vacina sejam antecipados ou adiados. Por isso, os números estimados podem sofrer alterações.

De quem é a culpa?

O governador de São Paulo tem colocado a culpa do atraso nos insumos nas críticas feitas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) à China. Na semana passada, o presidente sugeriu que o país asiático teria se beneficiado economicamente da pandemia e que a covid pode ter sido criada em laboratório — tese não respaldada por investigação conduzida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre as possíveis origens do vírus.

O ministério das Relações Exteriores, no entanto, dá outra justificativa e diz que os atrasos são causados pela alta demanda mundial de insumos e vacinas da China, e que não há retaliação diplomática com o Brasil. Segundo apuração do UOL, os chineses que negociam a liberação dos insumos não chegam a dar explicações ao Butantan sobre as razões do atraso, apenas notificam os diretores.

"Ruim para a adesão à vacinação"

O diretor da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), Renato Kfouri, explica que essa interrupção da vacinação desincentiva as pessoas a buscar a vacinação.

"Causa uma distribuição de vacinas errática. Começa, interrompe, chega, avança um pouco mais, mas atrasa eventualmente intervalos entre as duas doses. É ruim sob qualquer aspecto. Ruim para o programa, para as pessoas imunizadas, para a confiança da população, para adesão ao calendário", disse.

Ele afirma que o atraso deve fazer com que as pessoas imunizadas com uma dose da CoronaVac levem mais de 28 dias para tomar segunda dose.

"Nós não temos dados sobre qual a eficácia da vacina em indivíduos que foram vacinados com mais de 28 dias. Se por ventura alguém não conseguiu se vacinar dentro dos 28 dias porque não encontrou vacina ou porque esqueceu, por qualquer motivo, esse esquema deve ser completado o quanto antes", afirmou

O que dizem os estados

Bahia: a secretaria de Saúde disse que, ontem, chegaram mais 51 mil doses de CoronaVac. "A distribuição para os municípios inicia daqui a pouco e todas as vacinas serão destinadas para a segunda aplicação, completando o esquema vacinal de quem já recebeu a primeira dose."

Rio Grande do Sul: a secretaria de Saúde informou que, "nos próximos dias", o Ministério da Saúde enviará 188,8 mil doses da Coronavac, que serão usadas para completar a segunda dose. "Cálculos atualizados pela Secretaria da Saúde (SES) mostram que 179.330 pessoas já poderiam ter tomado a segunda dose da Coronavac no Estado."

Distrito Federal: o governo disse que "tem usado corretamente as doses e não fez uso da segunda dose da CoronaVac como primeira, o que possibilitou manter o esquema vacinal adequado da população, como intervalo preconizado para esta vacina de 28 dias". "Caso o fornecimento de CoronaVac seja interrompido pelo Ministério da Saúde, [o DF] dará continuidade no processo de vacinação com as outras vacinas disponíveis."

São Paulo: a secretaria de Saúde afirma ter doses suficientes para imunizar os públicos já anunciados na atual campanha, sem que seja necessário parar a vacinação. "As doses de vacina do Butantan existentes na rede hoje estão direcionadas para a aplicação de segunda dose, conforme orientação do Programa Nacional de Imunização. O envio de mais vacinas pelo Ministério da Saúde é essencial para que seja possível ampliar a campanha e que novos públicos sejam inseridos."

Maranhão: o governo informou que as pessoas que receberam uma dose da CoronaVac receberão a segunda após o ministério ter enviado, na última semana, uma remessa de 56 mil doses. "A Secretaria reforça que a imunização no estado continuará com as vacinas disponíveis enviadas pelo Ministério da Saúde."

Mato Grosso: o governo disse que todas as solicitações por doses faltantes da CoronaVac, feitas oficialmente pelos municípios, foram repassadas ao governo federal e "atendidas na última sexta-feira (14), data em que o estado recebeu 47.200 doses do imunizante produzido pelo Instituto Butantan".

Santa Catarina: a secretaria de Saúde não respondeu ao questionamento da reportagem, apenas disse que "SC não terá problemas com CoronaVac".

Os governos dos estados de Alagoas, Amapá, Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Piauí e Paraná não se manifestaram até a publicação da reportagem. O UOL não localizou representantes da secretaria de Saúde do Tocantins.

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