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Da mais transmissível à mais perigosa: como são as variantes do coronavírus

Vista aérea de cemiterio em São Paulo com covas abertas para vítimas de covid-19 - Jose Antonio/Anadolu Agency via Getty Images
Vista aérea de cemiterio em São Paulo com covas abertas para vítimas de covid-19 Imagem: Jose Antonio/Anadolu Agency via Getty Images

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

05/06/2021 04h00

Embora o Brasil tenha dificuldade para descobrir novas variantes do coronavírus, o mundo lida desde o final do ano passado com o surgimento de novas cepas, apontadas como corresponsáveis pelo aumento das infecções em diversas partes do mundo.

Mas, afinal, como as novas variantes aparecem, o que é mutação do vírus e como os pacientes reagem às quatro novas cepas mais perigosas em circulação?

Qual a diferença entre mutação e nova variante?

A cada multiplicação do vírus, uma nova geração aparece. No momento da duplicação de seu material genético, erros aleatórios podem ocorrer, conferindo vantagens ou desvantagens ao vírus. Esse fenômeno é chamado de mutação viral.

Algumas vezes essa mutação impede a sobrevivência dessa geração, mas em outros casos a mutação dá à determinada geração algumas vantagens em relação à anterior.

"Se o vírus passa a infectar mais ou é mais virulento [perigoso], consideramos o aparecimento de uma nova variante", afirma Ana Marinho, imunologista do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Todas as variantes preocupam?

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), quando as mutações ocasionam alterações relevantes na proteína S (parte do vírus que se conecta à célula), com maior gravidade e potencial de infecção, essa variante é classificada como VOC, que em inglês significa variante de atenção ou preocupação.

Quais são as principais variantes de preocupação?

  1. VOC B.1.1.7 ou Alpha: Identificada no Reino Unido em amostras de 20 de setembro, já foi notificada em 149 países.
  2. VOC B.1.351 ou Beta: Surgida na África do Sul, foi encontrada no começo de agosto e já foi identificada em 102 países.
  3. VOC B.1.1.28.1, P.1 ou Gamma: Identificada em dezembro no Japão, teve origem no Amazonas. Prevalente no Brasil, já foi notificada em 59 nações.
  4. VOC B.1.617 ou Delta: Surgida na Índia em outubro, suas três linhagens foram encontradas em 108 países.

Variantes do novo Coronavirus -  -

Quão perigosas são essas 4 VOCs?

Infectologista da Fundação de Medicina Tropical de Manaus, Noaldo Lucena diz que, para saber como cada variante atua sobre suas vítimas, é necessário um estudo "de análise genética dos infectados para identificação da variante".

"A partir daí, grupos de pesquisas estudariam esses pacientes para comparar a evolução clínica de acordo com cada cepa", afirma.

A OMS cita algumas pesquisas preliminares para avaliar se determinada cepa é mais contagiosa, mais perigosa ou mesmo mais resistente à vacina. Veja o que dizem algumas delas:

material genético - Reprodução - Reprodução
Cientistas usam sequenciamento genético para rastrear a origem de uma epidemia
Imagem: Reprodução

Alpha (Reino Unido)

Um estudo na Dinamarca comparou uma série de testes positivos para covid-19 no país entre 1º de janeiro e 9 de fevereiro. A intenção era descobrir se a variante inglesa aumentava o risco de hospitalização.

Para isso foi usado um modelo matemático que considerou variáveis como sexo, idade, região e comorbidades. A primeira descoberta é que a proporção de indivíduos com a variante B.1.1.7 aumentou de 4% no início de janeiro para 45% no início de fevereiro, indicando alta transmissibilidade.

Em seguida, observou-se risco maior de internação:

"A taxa de internação hospitalar foi aumentando em todos os estratos de idade e tempo de calendário", diz a pesquisa. "A infecção por linhagem B.1.1.7 esteve associada ao aumento do risco de hospitalização em comparação com outras linhagens."

Beta (África do Sul)

Outro estudo matemático, agora da London School of Hygiene and Tropical Medicine, encontrou "algumas evidências de mudança na gravidade" de pacientes contaminados pela cepa sul-africana em uma província britânica. A pesquisa, porém, admite a necessidade de "investigação detalhada" em mais grupos demográficos.

Os principais resultados do estudo também foram sobre hospitalizações.

"Comparamos as características dos casos de covid-19 hospitalizados na onda 1 e na onda 2 e fatores de risco para a mortalidade hospitalar", diz a pesquisa. O resultado é que "a segunda onda foi associada à maior incidência e aumento mais rápido das hospitalizações e aumento da mortalidade hospitalar".

Embora parte disso seja explicado pelo aumento da pressão sobre o sistema de saúde, um aumento residual da mortalidade de pacientes hospitalizados pode estar relacionado à nova linhagem
London School of Hygiene and Tropical Medicine

Estudo publicado no The New England Journal of Medicine chegou à conclusão de que a variante sul-africana também é mais resistente à vacina da Pfizer/BioNTech.

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Especialistas analisam cepa do novo coronavírus
Imagem: FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM

Enquanto a eficácia estimada da vacina contra a variante inglesa foi de 89,5% aos 14 ou mais dias após a segunda dose, "a eficácia contra qualquer infecção documentada com a variante B.1.351 [sul-africana] foi de 75%", ainda considerada alta.

"A eficácia da vacina contra a variante B.1.351 foi aproximadamente 20 pontos percentuais menor do que a eficácia relatada no ensaio clínico", diz o estudo.

Gamma (Brasil)

Segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, na Suécia, "os casos P.1 apresentaram chances significativamente maiores de hospitalização".

O estudo indica que a possibilidade de uma pessoa infectada com a variante brasileira acabar em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) é 2,2 vezes maior do que um paciente contaminado com o vírus original.

"Fomos os primeiros a perceber a mudança no comportamento dos pacientes no final do ano", diz Lucena. "Estudos posteriores confirmaram a nova cepa [a P.1]. Clinicamente, notamos que ela era mais contagiosa e os pacientes apresentavam quadros mais graves da doença, com evolução muito rápida."

Segundo Bruno Ishigami, médico infectologista no Hospital Universitário Oswaldo Cruz, "a piora do quadro que levava cerca de três dias, agora ocorre muito rapidamente, dentre 24 e 36 horas". Hoje, nove em cada dez casos de infecção no Brasil são pela cepa Gamma.

Laboratório faz sequenciamento genético do novo coronavírus                              - LUSTRATIVA/CHANDAN KHANNA/AFP                             - LUSTRATIVA/CHANDAN KHANNA/AFP
Laboratório faz sequenciamento genético do novo coronavírus
Imagem: LUSTRATIVA/CHANDAN KHANNA/AFP
Delta (Índia):

Ishigami também afirma que a cepa indiana parece mais transmissível. Estudo da Public Health England, de maio, afirma que "estimativas de crescimento modelado sugerem que a variante é pelo menos tão transmissível como B.1.1.7 [inglesa]", mas que "outras análises são necessárias com grupos de comparação para refinar a posição sobre a transmissibilidade".

"O que a gente observa clinicamente é que a infecção pela variante indiana é maior, mas ainda não se sabe se determina quadros mais graves", diz Lucena, segundo quem todas as novas cepas têm algo em comum:

A partir do surgimento delas, alguma coisa mudou: há cada mais jovens sem comorbidade com quadros mais agressivos de covid-19.
Noaldo Lucena, infectologista

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