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Coronavírus

Variante delta: Pesquisa aponta disparada de casos em São Paulo em setembro

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

18/08/2021 04h00

Apesar da decisão do governo João Doria (PSDB) de autorizar a reabertura total do comércio e setor de serviços em São Paulo, uma pesquisa projeta o avanço da covid-19 na capital paulista nas próximas semanas.

Levantamento da Info Tracker, sistema de monitoramento da pandemia das universidades paulistas USP e Unesp, confirma que a variante delta já responde pelo aumento dos casos no Rio e prevê que o mesmo aconteça a São Paulo a partir do mês que vem.

De acordo com a Gisaid —plataforma internacional de dados genômicos indicada pela Opas (Organização Pan-Americana de Saúde)—, o número de casos mapeados da delta no Brasil aumentou 74% nas últimas quatro semanas.

"Embora a vacina vá ajudar na contenção, as pessoas precisam se preparar mentalmente para essa mudança de tendência da pandemia, porque vai acontecer", diz um dos coordenadores da Info Tracker, o professor da Unesp Wallace Casaca.

Para chegar a uma projeção sobre quando a variante delta ganhará força em São Paulo, a pesquisa levou em consideração a data de chegada da cepa em Israel, Nova York e Londres e quanto tempo ela precisou para aumentar as infecções nessas regiões, escolhidas por terem população semelhante à de São Paulo.

Os aumentos começaram a acontecer 80 dias, em média, após o surgimento da delta, calcula a plataforma. Enquanto o primeiro caso da cepa foi identificado em abril em Londres (dia 2), Nova York (10) e Israel (16), no Rio de janeiro o primeiro infectado com essa variante foi registrado em 26 de maio e, em São Paulo, no dia 21 de junho.

Avanço da covid-19 após os primeiros casos  da variante delta - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Chamado pelo prefeito Eduardo Paes (PSD) de "epicentro da covid" na última sexta-feira (13), o Rio de Janeiro decidiu reabrir leitos exclusivos para a doença depois que a ocupação na terapia intensiva chegou a 95% na capital. No estado, ao menos sete municípios estavam ontem com ocupação máxima nos leitos de UTI para covid-19. A ocupação na rede pública estadual é de 70%, o maior índice desde 13 de junho, quando 71% dos leitos de UTI para a doença causada pelo coronavírus estavam ocupados.

Os laboratórios utilizados pela prefeitura informam prevalência em 56,6% da nova cepa nas amostras recolhidas em agosto na capital fluminense. Por lá, os casos por 100 mil habitantes caíram a 9,91 em 29 de maio, menor patamar desde que a nova variante foi identificada. Desde então, essa proporção cresceu e hoje está a 17,62.

No Rio, a situação é mais grave, porque já atingiu a tendência de alta sustentada, embora ainda não esteja no mesmo patamar de pico de Nova York, Londres e Israel.
Wallace Casaca, coordenador da Info Tracker

Em São Paulo, o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, diz que os próximos dias serão cruciais para saber se a vacinação em massa conseguirá frear as novas variantes.

Cerca de 20,3% dos casos na região metropolitana de São Paulo são da variante delta até 14 de agosto, segundo o Instituto Adolfo Lutz. Mas os 231 casos delta rastreados pelo laboratório podem se somar a outras 169 suspeitas "em investigação". Na capital paulista, os casos ainda são estáveis em 11,93 por 100 mil habitantes, mas a tendência é seguir o padrão das regiões analisadas.

"O aumento ainda é pequeno em São Paulo, mas será perceptível e com elevação acentuada a partir da segunda quinzena de setembro", diz o especialista.

Delta no mundo

vacinação nos estados unidos - Ben Hasty/MediaNews Group/Reading Eagle - Ben Hasty/MediaNews Group/Reading Eagle
Vacinação nos Estados Unidos
Imagem: Ben Hasty/MediaNews Group/Reading Eagle

De acordo com a Opas, a delta já representa 90% das amostras do vírus sequenciadas no mundo. Identificada primeiro na Índia, a cepa se tornou dominante na Europa no fim do mês passado, segundo comunicado da OMS (Organização Mundial da Saúde) em 23 de julho. Nos Estados Unidos, ela corresponde a 83% das infecções, diz o CDC (Centro para Controle e Prevenção de Doenças).

Apesar da possibilidade de aumento de casos, o governo de São Paulo derrubou as restrições de circulação baixadas em 24 de março do ano passado ao comércio e setor de serviços, decisão precipitada, diz a infectologista Joana D'arc Gonçalves da Silva, médica do Hospital Regional da Asa Norte, em Brasília.

"O ideal é que o Brasil aumente as restrições de circulação. O problema agora é a população seguir as orientações", diz a médica. "Falta fiscalização e o brasileiro tem dificuldade em seguir essas normas, basta ver as aglomerações nos aeroportos apesar da demarcação de distância entre as pessoas no chão."

Ela critica principalmente a abertura de bares e restaurantes porque "as pessoas bebem e abandonam o cuidado". "A boa notícia", diz, é que "até o momento a delta não está associada à maior gravidade e mortalidade", apesar de muito mais transmissível.

Dados publicados pelo governo britânico indicam que a cepa é até 60% mais contagiosa do que a variante alfa (detectada na Inglaterra) e quase duas vezes mais transmissível do que a cepa original.

Vacinação lenta

vacinação - RENATO S. CERQUEIRA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO - RENATO S. CERQUEIRA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Vacinação contra a covid-19 em UBS na zona sul de São Paulo
Imagem: RENATO S. CERQUEIRA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

"O problema no Brasil é o número muito baixo de vacinados", diz a infectologista. Cerca de 31% dos brasileiros com mais de 18 anos estão totalmente imunizados, muito abaixo dos 70% de imunização total necessária para que a transmissão seja controlada de fato.

Estudo publicado no "New England Journal of Medicine" indica que a efetividade da primeira dose cai de 50% para 35% contra variante delta, reforçando a importância da segunda dose. Já a aplicação das duas doses da vacina da Pfizer ou da AstraZeneca resultou em eficácia superior a 90% contra hospitalizações causadas pela delta, segundo o NHS, o órgão britânico de saúde pública.

"Além da vacina, é preciso investir na mudança de comportamento do indivíduo: usar máscara corretamente e ficar em quarentena", afirma a médica.

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