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Conteúdo publicado há
3 meses

Incomodávamos o governador, diz ex-membro de comitê desmembrado por Doria

Do UOL, em São Paulo*

20/08/2021 11h33Atualizada em 20/08/2021 14h32

O médico infectologista Marcos Boulos disse hoje, em entrevista ao UOL News, que o governo de São Paulo estava "ignorando" a opinião médica dos membros do Centro de Contingência do Coronavírus, comitê desmembrado esta semana pelo governador João Dória (PSDB).

Ex-membro do comitê, Boulos declarou que o centro estava "incomodando o governador" por indicar ações contrárias às flexibilizações anunciadas pelo político para o estado.

Criado em março de 2020, o comitê era formado por 21 médicos e agora deverá ficar com nove membros. O grupo de médicos auxilia na gestão das decisões sobre o combate à pandemia.

Nós estamos em um momento em que com a liberação acontecendo, com as práticas, inclusive, dos lobbies de tentar fazer a parte econômica retornar em um momento ainda muito ruim fez com que o governo visse menos o Centro de Contingência. Isso estava causando uma relação desconfortável."
Marcos Boulos no UOL News

Boulos explicou que com a reabertura das atividades econômicas na cidade anunciada pelo governador recentemente, muitas decisões estavam sendo tomadas sem passar pela análise do comitê, do qual o infectologista fazia parte.

"Os especialistas do Centro de Contingência [estavam] se sentindo meio, não sendo ouvidos, e mais. Ainda mais recentemente, as decisões eram tomadas, relacionadas à saúde, mesmo sem passar pelo Centro de Contingência. As decisões do governo eram feitas, de certa maneira, ignorando a presença do Centro de Contingência."

O ex-membro do comitê declarou que o centro estava "incomodando o governador" por indicar ações contrárias às flexibilizações anunciadas pelo político. O médico disse acreditar que Doria deve estar cercado, neste momento, por pessoas que vão ao encontro de suas últimas decisões de reabertura no estado.

"[Isso] acabou indo para uma situação que nós mesmos do Centro de Contingência acharíamos mais adequada. Ele [Doria] está cercado de pessoas que o ouvem, e que ele tem mais confiança e que possam nesse momento dar o suporte que ele precisa, mas as flexibilizações que ele tem insistido há muito tempo nunca foram uma prática que o Centro de Contingência aceitava", começou.

E continuou: "Então, nós estávamos, de certa maneira, incomodando o governador porque ele não queria continuar não flexibilizando e nós chamamos a atenção não só no Centro de Contingência, mas nas entrevistas que nós dávamos dizendo que não era o momento para isso".

Questionado pela apresentadora Fabíola Cidral, o médico afirmou que o setor econômico pode pensar que está "ganhando" com a reabertura do comércio, mas não é o que ocorrerá porque "já, já terá que retroagir" nas decisões tomadas hoje pelo governo.

"A previsão é que nós tenhamos um aumento de casos agora com a variante delta. Então, essa abertura é inoportuna. Para qualquer economia que abra e tenha que fechar outra vez depois que ele arruma todo o seu organismo para começar a trabalhar e tem que retroagir é muito ruim. (...) A parte econômica é um reflexo de uma guerra [sanitária] não resolvida. Não adianta se você investir na economia se você não resolver o problema de saúde", declarou o infectologista.

Doria confirma influência

O governador confirmou esta semana que ajudou a montar a nova configuração do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo. Inicialmente, na segunda-feira (16), a Secretaria de Saúde havia afirmado que a escolha dos membros cabia aos participantes, mas ex-integrantes já vinham sinalizando ao UOL que havia influência do governo.

Em coletiva, Doria confirmou ter dado sugestões, por falta de consenso no comitê.

"Dei a opção a eles de escolherem, até pra que ficasse bem claro que não houvesse preferência do estado de SP por este ou por aquele, por esta ou por aquela. Eles preferiram delegar de volta ao governo de SP para que se tomasse a decisão", justificou Doria, que sempre destacou o tom independente do grupo.

Obviamente, no vácuo a gente não fica; em cima do muro, também não. Sendo assim, fizemos a indicação dos nomes com a ajuda do Paulo Menezes e do João Gabbardo."
João Doria, governador de São Paulo

Agora, o grupo deverá ser chamado de Comitê Científico e será formado por João Gabbardo, Paulo Menezes, David Uip, José Medina, Geraldo Reple, Carlos Carvalho e Luiz Carlos Pereira, Eloísa Bonfá e Esper Kallás, que já compunham o Centro de Contingência. Menezes e Gabbardo seguem na coordenação.

*Com informações de Henrique Sales Barros, Lucas Borges Teixeira e Rayanne Albuquerque, do UOL, em São Paulo

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