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Exemplo de vacinação, Israel sofre com a delta e vê alta de casos e mortes

Israelense recebe dose de reforço de vacina contra a covid em Tel Aviv, Israel - Amir Cohen/Reuters
Israelense recebe dose de reforço de vacina contra a covid em Tel Aviv, Israel Imagem: Amir Cohen/Reuters

Guilherme Castellar

Colarobaração para o UOL. no Rio

31/08/2021 04h00

Os israelenses tiverem pouco tempo para celebrar o que aparentava ser o sucesso da sua vacinação contra covid-19, considerada uma das mais avançadas do mundo. Após começar a imunizar cedo e rápido — em fevereiro, 50% da população estava vacinada —, Israel viu uma queda abrupta dos casos de infecção e de mortes. Porém, está diante de uma nova onda da pandemia, que os especialistas ainda tentam entender.

Após uma forte segunda onda em janeiro e um rigoroso lockdown, por três meses, entre abril e junho, os israelenses vivenciaram uma vida sem pandemia. O governo baixou as medidas de restrição de mobilidade e tirou a obrigatoriedade no uso de máscaras. As ruas, restaurantes e festas de família voltaram a ficar cheias.

Mas, no início de julho, os hospitais viram lentamente crescer a entrada de pacientes com sintomas de covid-19, incluindo pessoas totalmente vacinadas. O país, que em um dia de junho registrou apenas três casos da doença, na terça-feira (22), teve mais de 12 mil testes positivos para a doença, superando o recorde anterior (11,9 mil), em janeiro. As mortes também subiram, mas ainda estão num patamar inferior ao da última onda.

novos casos em Israel - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Em julho, as máscaras voltaram a ser obrigatórias dez dias após serem liberadas. Outras medidas restritivas foram restabelecidas, no entanto, o governo do novo primeiro-ministro, Naftali Bennett, vem se recusando a adotar um novo lockdown.

Para especialistas, uma conjunção de fatores pode explicar o agravamento da pandemia no país do Oriente Médio. Entre eles a chegada da variante delta, muito mais infecciosa e que está presente em 99% das amostras de testes positivos no país.

Terceira dose

O governo israelense, todavia, parece focar em uma possível queda na resposta imune gerada pelas vacinas com o passar do tempo e frente à delta, algo sugerido por dados do próprio governo e por um estudo recente da Universidade de Oxford. A maioria dos idosos de Israel está vacinada há mais de seis meses.

Bennett decidiu apelar para uma terceira dose da vacina, a chamada D3. A medida é controversa e foi criticada pela Organização Mundial da Saúde, já que faltam estudos sobre a eficácia do reforço e que muitos países ainda nem contam com a primeira dose.

O apelo à D3 veio após à constatação de que, em agosto, pessoas com mais de 60 anos vacinadas eram maioria entre os internados com covid-19. Na sexta-feira (27), eles eram metade (53%) de todos gravemente doentes no país.

Casos graves em pessoas com mais de 60 anos em Israel - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Porém, isso não quer dizer que as hospitalizações em vacinados e não vacinados estão "meio a meio". A comparação não deve ser em números absolutos, afinal, existem muito mais idosos imunizados em Israel: mais de 90% deles tomaram as duas doses.

No cálculo proporcional entre os grupos de vacinados e não vacinados, no mesmo dia 27, a taxa de hospitalização entre os idosos que recusaram a vacina era de 233 internados para cada 100 mil habitantes. Contra 19 para cada 100 mil imunizados. Ou seja, quem disse não para a vacina tinha dez vezes mais chance de adoecer gravemente.

Fatores não tão secundários

A discussão sobre a terceira dose acabou jogando para segundo plano outros fatores que podem justificar o recrudescimento da pandemia no país. Como a constatação de que foi parcial o sucesso na campanha de vacinação em Israel.

A vacinação no país está estagnada em 60% da população. Hoje, os epidemiologistas calculam que, perante ao poder infeccioso da delta, a tal imunidade coletiva só virá com 95% da população imunizada. E, assim como nos Estados Unidos e na Europa, Israel sofre com uma forte resistência antivacina.

Israel tem algumas particularidades. É um país pequeno, mas muito heterogêneo, e a aceitação de vacinas não é igual em todos os grupos. É um país que recebe muitos imigrantes, tem uma população de judeus ortodoxos e de árabes que vivem no deserto, os beduínos"
Eitan Berezin, presidente do departamento de infectologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo

Segundo relatório do governo, a maior parte dos não vacinados vivem em áreas periféricas, são menos escolarizados e com menos acesso a serviço público. Cerca de 16% moram em cidades ultraortodoxas, 32% em cidades árabes e 53% em cidades mistas (que incluem ultraortodoxos ou árabes).

A covid-19 vem perigosamente se espalhando nos setores haredi (ultraortodoxos), que já respondem por 10% dos casos no país. "É um grupo delicado. Vivem mais aglomerados e tendem a obedecer menos a algumas normatizações sociais", afirma o infectologista.

A nova variante do vírus encontrou no país uma grande parcela da população ainda vulnerável. Para piorar, 85% dos não vacinados tem menos de 50 anos, uma camada da população mais exposta em razão de trabalho ou vida social.

porcentagem da população de Israel vacinada - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Outros fatores

A delta também encontrou um terreno livre para circular, pois entrou no país quando os israelenses voltaram a se aglomerar. "Israel ficou meio eufórica rápido demais após vacinar metade da população", afirma Berezin.

O infectologista, que mantém contato regular com colegas israelenses, elenca ainda outras possibilidades para explicar a nova onda. Uma é a testagem. Na última semana, Israel testou 30% mais que no pico da segunda onda.

Com mais pesquisa, é natural que mais casos positivos apareçam, mesmo entre vacinados assintomáticos — que é o efeito esperado dos imunizantes. "Alguns desses positivos são para cargas virais muito baixas, ou seja, de pessoas que podem nem estar transmitindo", diz Berezin.

Outra suspeita levantada por pesquisadores é o quanto o regime de imunização adotado por Israel pode ter colaborado para uma possível redução da eficiência da vacina.

O país optou por seguir a bula e aplicar a segunda dose da Pfizer/BioNTech em 28 dias. Só que depois estudos mostraram que um espaçamento maior entre as doses, como o adotado inicialmente no Brasil, pode gerar uma melhor resposta imune.

O Reino Unido, que seguiu a estratégia de distanciar mais as doses, também vivencia uma terceira onda em razão da delta. Lá, porém, até o momento as mortes subiram menos que em Israel. "Mas isso ainda é só conjectura. Como muita coisa nessa pandemia", afirma Berezin.

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