PUBLICIDADE
Topo

Jamil Chade

OMS critica governos que iniciam distribuição de 3ª dose de vacina

Niltes Lopes organizando a vila de vacinação na quadra da Vai-Vai - Reinaldo Canato/UOL
Niltes Lopes organizando a vila de vacinação na quadra da Vai-Vai Imagem: Reinaldo Canato/UOL
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

18/08/2021 11h18

Resumo da notícia

  • Agência insiste que ciência ainda não comprovou a necessidade de dose extra para quem já está vacinado
  • OMS teme que campanhas de 3a dose consumam 1 bilhão de vacinas, ampliando a desigualdade na distribuição dos produtos pelo mundo
  • Para a agência, a atual concentração de doses nas mãos de apenas dez países é "vergonha para a humanidade"
  • Biden anunciou nesta quarta-feira o início da nova fase de vacinação, com uma 3a dose para quem já foi imunizado há mais de 8 meses

Preocupada com a incapacidade de o mundo garantir a distribuição de vacinas aos países mais pobres, a OMS sobe o tom e alerta que a ciência ainda não concluiu que exista a necessidade de uma terceira dose dos imunizantes para a população já protegida. O temor da entidade é de que, se países ricos e emergentes começarem a dar doses extras contra covid-19 para sua população, a escassez no resto do mundo vai ser ampliada e a operação envolverá 1 bilhão de doses extras.

"A terceira dose de uma vacina é o equivalente a dar um salva-vidas para quem já tem salva-vidas e não estamos dando (salva-vidas) para quem está afogando", alertou Mike Ryan, diretor de operações da OMS.

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da agência, foi claro em suas críticas aos governos de países ricos que embarcam em planos de dar uma terceira dose para seus cidadãos. "A falta de distribuição é uma vergonha de toda a humanidade", atacou. "Vamos prolongar por anos a pandemia, enquanto pode acabar com ela em questão de meses", disse.

"Os dados mostram que a dose extra não é necessária", insiste Soumya Swaminathan, cientista-chefe da OMS. Para ela, governos de países ricos deveriam "aguardar a ciência" antes de se lançar em mais uma camada de proteção para suas populações.

"Além da questão de ciência, uma terceira dose também levanta, neste momento, uma questão ética e moral", insistiu.

Bruce Aylward, representante da OMS para vacinas, defendeu que a terceira dose apenas seja considerada depois que a comunidade internacional consiga proteger populações vulneráveis. "Quem está morrendo hoje é quem não foi vacinado e existem bilhões e bilhões de pessoas sem vacinas", disse.

Oficialmente, a OMS insiste que a ciência ainda não demonstrou a eficácia de uma dose extra para quem já está protegido e, portanto, a prioridade neste momento deveria ser garantir que o abastecimento seja justo também para as economias em desenvolvimento.

Tedros voltou a alertar que a concentração de doses é ainda elevada. Apenas dez países foram responsáveis pelo uso de 75% de toda a produção global de imunizantes. Já nos países mais pobres, a taxa é de apenas 2%. "A prioridade deve ser a de dar doses para mais gente", insistiu.

Tedros voltou a apelar para que uma moratória seja imposta sobre uma terceira dose, até que os mais pobres sejam atendidos. Mas alemães, franceses e outros governos já indiciaram que vão lançar o próximo passo da imunização para seus próprios cidadãos.

Biden ignora OMS e anuncia 3ª dose

Nesta quarta-feira, o governo americano também anunciou o uso de uma terceira dose para sua população que já tenha sido imunizada há mais de oito meses, enquanto o debate também ganha força em São Paulo a partir de estudos que revelam o aumento da eficácia da proteção. No caso americano, a administração de Joe Biden aponta que existem evidências de perda de eficácia da vacina ao longo dos meses.

Para a OMS, existem de fato dados que revelam uma queda da imunidade de uma pessoa ao longo dos meses. Mas apenas em casos de doenças leves. Não haveria, segundo a entidade, evidências de redução de proteção contra casos mais graves da covid-19 e nem mortes.

De acordo com Aylward, o mundo de fato já administrou 4,7 bilhões de doses de vacinas. Mas não para quem precisa. "Existe um problema de abastecimento", admitiu. O mecanismo criado pela OMS para distribuir doses, a Covax, previa fornecer 2 bilhões de doses até o final do ano. Por enquanto, porém, esse número está estagnado em 200 milhões.

"A divisão entre quem tem e quem não tem vacinas apenas vai crescer se houver uma terceira dose e empresas precisam dar prioridade ao fornecimento aos países que necessitam", apelou Tedros, uma vez mais criticando o "nacionalismo de vacinas".

Para ele, ser um "líder forte" neste momento é garantir a distribuição de doses pelo mundo, e não apenas cuidar de seu povo. Uma maior imunização pelo planeta, segunda OMS, pode desacelerar o surgimento de variantes.

Delta supera resposta global à pandemia da covid-19, alerta OMS

A OMS, de fato, alertou que a expansão da variante delta "continua a superar a resposta coletiva" à pandemia da covid-19 e deixa claro que as medidas sociais terão de ser mantidas.

De acordo com a agência, a variante tem conseguido circular principalmente onde existe baixa cobertura de vacinação e em locais com medidas sociais inconsistentes ou inexistentes, como o uso de máscaras e distanciamento social. "As máscaras continuar a ser importantes. Onde ela é usada, a transmissão cai", defendeu a entidade, apelando para que a proteção não seja abandonada.

Soumya admite que existem casos de pessoas contaminadas pela variante delta, mesmo depois de vacinadas. Mas as doses garantem uma proteção elevada e a maioria dos novos casos está justamente na população sem a imunização.

Na última semana, o mundo completou o segundo mês consecutivo de expansão da pandemia. Foram 4,4 milhões de novos casos na semana que terminou no domingo, um aumento de 2% em comparação à semana anterior. As mortes somaram 66 mil em sete dias, num patamar estável.