Londres de novo ante o desejo de independência da Escócia e Irlanda do Norte

Edimburgo, 24 Jun 2016 (AFP) - Logo após ter votado pelo Brexit, o Reino Unido é confrontado com as aspirações de independência da Escócia, mas também da Irlanda do Norte, nações europeístas prestes a serem arrancadas contra a sua vontade da União Europeia.

A Escócia votou esmagadoramente (62%) pela permanência na UE, contra 48,1% para o restante dos britânicos, e a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, imediatamente levantou a possibilidade de um segundo referendo sobre a independência, depois daquele perdido em 2014.

"A possibilidade de um segundo referendo deve estar sobre a mesa e está sobre a mesa", disse Sturgeon, chefe do partido SNP da sua residência oficial em Edimburgo, onde quase três quartos dos eleitores votaram no "remain".

Poucas horas antes, ela já havia avisado que a Escócia enxergava "seu futuro dentro da UE", abrindo as portas para uma possível nova consulta.

Sturgeon vem dizendo há meses que um Brexit poderia ser o gatilho para um novo referendo.

"Quase dois terços dos escoceses votaram para permanecer na UE, e nenhum círculo eleitoral escocês votou pelo Brexit. O resultado é muito frustrante para os escoceses", afirmou à AFP Luis Moreno, um cientista político.

No Twitter, após o anúncio dos resultados preliminares, a hashtag #indyref2 ("referendo de independência 2") se espalhou como fogo em palha.

E no trem Glasgow-Edimburgo de 05h47, a maioria dos passageiros eram a favor de uma nova consulta popular.

"Haverá um novo referendo", acredita Tom, de 59 anos, "surpreso e decepcionado" com o resultado da votação.

A alguns metros de distância, Hugh Brown, de 64 anos, comemorava o Brexit. Mas ele afirmou estar ainda mais contente com uma possível nova consulta sobre a independência da Escócia.

"Se Westminster quiser segurar a Escócia, eles vão ter que nos dar mais poderes", sorriu.

Como muitos escoceses, ele teme que o parlamento britânico, emancipado de Bruxelas, tenha ainda mais cartas na mão.

Quando poderia acontecer um novo referendo? Os líderes que defendem a independência da Escócia "não vão organizar nada até terem a certeza que poderão vencer", acredita Michael Keating, que leciona política na Universidade de Aberdeen.

Irlanda do Norte segue o mesmo caminhoTambém será preciso esperar para saber se (o próximo) primeiro-ministro cederá às demandas dos escoceses - que poderia levar à dissolução do Reino Unido -, completa Malcolm Harvey, professor de ciência política na mesma universidade de Aberdeen.

No entanto, segundo analistas, um novo referendo sobre a autodeterminação não irá necessariamente resultar em uma vitória para a independência.

"Se uma Escócia independente aderir à UE, enquanto a Inglaterra está fora, haveria uma fronteira entre as duas nações, com as implicações que isso poderia ter em termos de livre circulação", analisa Malcolm Harvey, para quem isso poderia dissuadir os eleitores a votar pela independência.

Recentes pesquisas de opinião previram uma nova derrota para a independência em caso de nova consulta, segundo Michael Keating.

Na Irlanda do Norte, que, como a Escócia, votou pela permanência na UE (55,7%), o Partido Republicano da Irlanda do Norte, o Sinn Fein, pró-Europa, que exige um referendo sobre a unificação da Irlanda.

"Somos obrigados a aceitar a decisão da Inglaterra... O Sinn Fein vai agora pressionar por um referendo sobre a fronteira", disse o presidente do partido, Declan Kearney.

Os defensores da permanência na UE manifestaram preocupação quanto à restauração dos controles nas fronteiras com a vizinha República da Irlanda, o que significaria burocracia para as empresas e famílias.

Sua frágil recuperação econômica depois de décadas de conflito armado, apoiada pelos bilhões de euros injetados por Bruxelas para apoiar os acordos de paz de 1998, também é passível de sofrer.

O primeiro-ministro irlandês Enda Kenny, ciente do potencial impacto sobre estes acordos, assegurou que a questão "será uma prioridade especial" para seu governo.

"O governo irlandês vai fazer o seu melhor nas discussões futuras para manter a área comum de trânsito" criada em 1920 entre a Irlanda e o Reino Unido, acrescentou. Este acordo permite pouco ou nenhum controle nas suas fronteiras comuns.

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