Intervenção turca, última tentativa de Ancara para evitar 'Curdistão sírio'

Beirute, 25 Ago 2016 (AFP) - A intervenção da Turquia na Síria, com a ajuda dos rebeldes afins a Ancara, busca evitar que o pesadelo do surgimento de um "Curdistão sírio" vire realidade, avaliam especialistas.

No entanto, Ancara terá dificuldades em deter as ambições territoriais curdas, a menos que os enfrente militarmente de forma direta, em especial se quiserem tomar a cidade de Al Bab, atualmente nas mãos dos extremistas do grupo Estado Islâmico (EI).

"A questão curda é agora a principal das prioridades de (o presidente Recep Tayyip) Erdogan na Síria", explicou Aron Lund, do Centro de estudos Carnegie Endowment para a Paz Internacional.

"As facções vinculadas ao PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão, considerado 'terrorista' por Ancara) se situaram em amplas extensões no norte", explicou.

"E a perspectiva de um mini-Estado do PKK, financiado pelo petróleo e apoiado pelos Estados Unidos em sua fronteira sul, é um pesadelo para Ancara", acrescentou.

Aproveitando o caos da guerra civil síria, que começou em 2011, os curdos, que representam 15% da população, autoproclamaram em março "uma região federal", composta por três "cantões". Até agora, controlam 18% do país, onde vivem dois milhões de pessoas, das quais 60% são curdos.

Para Aron Lund, a tomada de Manbij, em junho, que estava nas mãos do EI, e sobretudo a vontade explícita dos curdos em avançar para o oeste, foram as razões que precipitaram a intervenção turca.

Os Estados Unidos prometeram a Ancara impedir que as Forças Democráticas Sírias (FDS), milícia de maioria curda, atravessem o Eufrates rumo à província de Aleppo.

Na quinta-feira, o ministro turco da Defesa, Fikri Isik, insistiu em que "a Turquia tem todo o direito a intervir" se as forças curdas não se retirarem rapidamente a leste do rio.

Neutralidade de Assad"Está claro que a tomada de Manbij pelas FDS irritou profundamente Ancara e, desde então, a Turquia tem agido para contrabalançar este avanço", avaliou Mutlu Civiroglu, especialista em temas curdos, radicado em Washington.

"As forças do FDS se preparam para tomar Al Bab, localidade que é crucial para juntar os cantões de Kobane e Afrin. Ancara pensa que impedir que as FDS cheguem a Afrin é muito importante para seus interesses. É neste contexto que é preciso situar a ofensiva em Jarablos", cidade fronteiriça entre a Síria e a Turquia, rapidamente arrebatada dos extremistas na quinta-feira, avaliou.

Kobane fica 200 km distante de Afrin. Quando, em 23 de junho, os milicianos curdos entraram em Manbij, deram um passo importante para a criação de uma grande região autônoma curda no norte da Síria, que teria que incluir Al Bab, salvo que a Turquia o impeça.

"Segundo acredito, os curdos vão perseverar em seu sonho e não vão se deixar acovardar", afirmou Civiroglu.

Um porta-voz das Unidades Curdas de Proteção do Povo Curdo (YPG), Redur Xelil, afirmou à AFP que "a YPG é formada por sírios, sendo assim, os turcos não podem impor restrições de movimento aos sírios em seu território".

Nesta operação, os turcos sabem que podem contar com uma neutralidade do regime de Bashar al Assad, apesar de seus outros desacordos no conflito.

"O governo turco lançou-se na operação de Jarablos sabendo que Assad ia se contentar com uma condenação simbólica, já que os dois países consideram os curdos uma ameaça", indicou Civiroglu. "É por este motivo que consideram necessária uma ação urgente para bloquear os avanços dos curdos e impedir que criem uma federação".

Fabrice Balanche, geógrafo francês especialista em Síria, afirmou, por sua vez, que "bloquear o avanço dos curdos não vai ser fácil. Por enquanto, a tomada de Jarablos não impede que se unam os cantões curdos, exceto se a Turquia enviar seus tanques mais ao sul, rumo a Al Bab".

Mas o especialista disse duvidar que a Rússia se mantenha impassível.

"Provavelmente, houve um acordo na Rússia e na Turquia para uma intervenção de no máximo 15 quilômetros em território da Síria, mas não mais", afirmou. E Al Bab fica a 30 km da fronteira.

"Os curdos sempre vão poder conectar Afrin e Manbij por um pequeno corredor, que poderá ser cortado quando considerarem conveniente (os presidentes sírio e russo) Assad-Putin, se os curdos não se comportarem bem", advertiu Balanche.

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