Violência continua a assombrar colombianos após um ano de acordo de paz

Em Chocó (Colômbia)

O acordo para o desarmamento e transformação em partido da guerrilha das Farc, anunciado há um ano, não levou à paz automática na Colômbia. Novos e antigos focos de violência, provocados por um boom do narcotráfico, adiam o fim do último conflito armado nas Américas.

ELN 
Luis Robayo/AFP
 

Dezenas de homens e mulheres armados estão reunidos no remoto departamento de Chocó, na fronteira com o Panamá. Na área, o ELN (Exército de Libertação Nacional) é a lei.

Luis Robayo/AFP
Policiais prestam socorro à mulher ferida na cabeça durante briga em Cali, Colômbia, em 5 de outubro de 2017
"Seguimos considerando a via armada como a única, porque as vias legais estão fechadas na Colômbia", afirmou à AFP "Uriel", comandante da Frente de Guerra Ocidental Ómar Gómez, que atua no departamento, onde 80% dos moradores vivem na pobreza extrema.

Com o rosto coberto, ele desconfia da "vontade" do governo, com o qual os rebeldes negociam a paz em Quito desde fevereiro.

Com 1.500 combatentes e menor capacidade de fogo que as Farc, que desmobilizaram 7.000 combatentes, o ELN está em trégua desde 1 de outubro. O primeiro cessar-fogo bilateral que o qual a guerrilha se comprometeu em 53 anos de luta terminará em 9 de janeiro.

O ELN opera em 99 dos 1.122 municípios colombianos, segundo a Fundação Paz e Reconciliação (Pares). Após a saída das Farc, o grupo se consolidou como "ator dominante" em 46 localidades e ampliou sua presença para áreas que não ocupava.

Narcocultivos 
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Apenas um município na Colômbia, maior produtor mundial de cocaína, concentra 16% dos narcocultivos. Fica na fronteira com o Equador, uma rota das drogas para os Estados Unidos, principal consumidor.

Tumaco não sentiu a paz. Até 15 grupos armados disputam atualmente o território que era controlado pelas Farc. O cenário é de mortes, pessoas deslocadas e medo.

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Forense carrega o corpo de uma das duas mulheres assassinas em Cali, Colômbia
"A cocaína é o detonador", afirma Arnulfo Mina, da Diocese de Tumaco.

Enquanto a paz era negociada, os plantios de coca saltaram de 96.000 a 146.000 hectares entre 2015 e 2016. A demanda insaciável e a valorização do dólar explicam o crescimento.

Pressionada por Washington, Bogotá estabeleceu o objetivo de acabar este ano com 100.000 hectares à força ou por meio de acordos de substituição.

"A Colômbia é um dos poucos países no mundo que criam uma economia de guerra que mantém viva a violência", inclusive se mudam os atores, disse Ariel Ávila, da Pares. 

Dissidências 
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Cinco meses antes da assinatura do acordo de paz, quase 300 guerrilheiros renunciaram ao acordo que posteriormente representou o fim das Farc como organização armada. Surgiu então a dissidência ou o que alguns chamam de desertores.

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Familiares choram ao serem comunicados do assassinato de um casal em Cali, na Colômbia, em 1º de agosto de 2017
Mais de um ano depois da única fratura visível dentro da guerrilha em seu caminho para o desarmamento, os dissidentes já somam entre 700 e 1.000, envolvidos no narcotráfico e mineração ilegal, segundo o governo.

No sul do país estão ganhando "de maneira significativa", adverte a Pares. Em parte a situação é atribuída ao retorno às armas de um número indeterminado de ex-combatentes ante as "fragilidades" nos planos de reincorporação social e econômica.

Os dissidentes operam em até 43 municípios (4% do território) e estão sob ameaça de bombardeios militares.

Em cinco anos "voltaremos a ser um exército", afirmou Aldemar, um de seus líderes, quando a AFP o encontrou com um fuzil às margens do rio Inírida, nas selvas do sul do país. As dissidências representam até 9% da ex-guerrilha.

"Não são grupos guerrilheiros, são grupos de narcotráfico", afirma Jorge Restrepo, diretor do Centro de Recursos para a Análise de Conflito (CERAC).

Crime 
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Alexis Viera poderia estar na lista de mortos de Cali, a cidade do Pacífico com mais homicídios da Colômbia e uma das mais perigosas do mundo. Em 2015 o goleiro uruguaio foi vítima de um assalto, os criminosos atiraram e atingiram sua medula. Os médicos informaram que ele nunca voltaria a andar.

Apesar de ter sido obrigado a abandonar o futebol, ele agradece a "nova oportunidade para viver". Pouco mias de 11.000 pessoas não tiveram esta oportunidade no ano passado. Cali tem média de homicídios quase duas vezes maior que a taxa nacional: 55,74 para cada 100.000 habitantes. No fim dos anos 90, a taxa era de 110.

Com 2,4 milhões de habitantes, está na posição 21 das 50 cidades mais perigosas do mundo, segundo a ONG mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e a Justiça Penal.

Cali é "um epicentro tanto para os negócios lícitos como para os ilícitos", explica Juan Pablo Paredes, conselheiro de Segurança da prefeitura. Os narcotraficantes trabalham ao longo do Pacífico e investe, lavam dinheiro e pagam dívidas na cidade.

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