Entre Brexit e Catalunha, nacionalismo testa resistência da UE

Londres, 26 dez 2017 (AFP) - O desafio separatista na Catalunha e a vitória do Brexit no Reino Unido surgiram como novas expressões dos nacionalismos europeus que, segundo analistas do continente, têm posto à prova nos últimos meses a pertinência e a solidez da União Europeia.

O desejo de independência da região do nordeste da Espanha por enquanto se estagnou, mas fez lembrar que na Europa existem comunidades ou países inteiros que reivindicam sua especifidade e querem ser independentes de um poder central ao qual acusam de lhes cortar as asas.

No Reino Unido, a decisão de romper com Bruxelas se baseou em uma questão de soberania e na recusa em financiar uma organização de burocratas que, segundo os partidários do Brexit, impõe suas regras e impede à ilha se abrir globalmente.

Na Catalunha, somaram-se argumentos emocionais e econômicos para justificar a independência de um Estado espanhol, considerado um freio para a prosperidade e a expressão de uma identidade.

- Simplicidade enganosa -"Os nacionalistas entenderam que nas regiões desenvolvidas e prósperas não é suficiente apelar para a ideia de uma nação, cuja cultura está oprimida desde o princípio dos tempos", destaca Bruno Yammine, historiador especialista em Bélgica.

"O nacionalismo cultural e étnico está agora 'legitimado' por motivos econômicos, sobretudo ao evocar o repúdio à solidariedade fiscal com regiões mais pobres", explica.

Assim, os partidários do Brexit defenderam um argumento de simplicidade enganosa: melhor conceder ao nosso serviço público de saúde o dinheiro que entregamos a fundo perdido à UE.

Em Barcelona, a "ideia de uma Catalunha que poderia ser uma plataforma internacional no marco da UE [...] é o que animou a hipótese secessionista", avalia Andrés de Blas Guerrero, cientista político da Universidade de Educação à Distância espanhola.

Juntamente com fatores econômicos, surgiram como temas dominantes em vários países o discurso sobre uma identidade nacional ameaçada pela imigração e o repúdio às elites, que alimentam a versão populista do nacionalismo.

Para Renaud Thillaye, analista de temas europeus da Flint Global, em Londres, o êxito do nacionalismo está vinculado, "por um lado, à corrupção e ao descrédito dos partidos tradicionais e à sede de uma democracia mais próxima. Por outro, à necessidade de um apego cultural em torno de uma língua e um patrimônio comum".

Como pano de fundo está a globalização, que reforça as diferenças de riqueza entre vencedores e perdedores, pondo à prova a solidariedade nacional.

- 'Combate de retaguarda' -A UE quer evitar a todo custo a multiplicação de Estados e faz o possível para desestimular as aspirações independentistas, mesmo que os escoceses, os catalães e os corsos "vejam a priori na UE um potencial aliado contra os Estados centrais", destaca Thillaye.

Assim, não toma partido na crise catalã e evita garantir aos escoceses um estatuto especial depois do Brexit, como eles esperavam.

Isto é o que faz Yammine dizer que "o perigo representado pelo nacionalismo catalão e, por extensão, por todos os nacionalismos no seio dos Estados-membros, só é teórico. Nenhum Estado deseja uma proliferação dos separatismos, já que quase cada país europeu conta com suas próprias minorias, das quais alguns líderes têm aspirações nacionalistas".

Por enquanto, a UE tem sobrevivido ao teste de resistência. É certo que a decisão de saída do Reino Unido foi um golpe, mas como o país não está na zona do euro, evitou-se a instabilidade financeira. E as dolorosas negociações sobre o divórcio poderiam desmotivar outros membros do clube a imitá-lo.

Mas o risco não está de todo descartado, nem em nível regional, nem em nível nacional.

"A determinação regional não está perto de desaparecer, nem tampouco o papel das grandes cidades em torno das quais se organizam ecossistemas com vocação mundial", aponta Renaud Thillaye.

"Os países que não souberem encontrar uma saída para estas demandas se arriscam a sofrer problemas importantes, como se vê na Catalunha", destaca.

Para Matthew Goodwin, cientista político da Universidade de Kent, "os sistemas políticos na Europa nunca foram tão instáveis, com mudanças no voto e perda de apoio aos partidos estabelecidos, enquanto a divisão entre nacionalistas e cosmopolitas se torna tão importante quanto a tradicional divisão entre direita e esquerda".

As eleições do ano que vem em Itália, Hungria e Suécia serão uma oportunidade para examinar o apelo dos partidos anti-elite, eurocéticos e populistas que se apresentarem.

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