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Afinal, o Estado Islâmico foi mesmo derrotado na Síria?

A cidade de Raqqa, na Síria, após ataque de coalizão internacional contra forças do Estado Islâmico - Ivor Prickett/ The New York Times
A cidade de Raqqa, na Síria, após ataque de coalizão internacional contra forças do Estado Islâmico Imagem: Ivor Prickett/ The New York Times

21/12/2018 15h58

O presidente Donald Trump justificou sua decisão de retirar as tropas americanas da Síria com a "derrota" do grupo jihadista Estado Islâmico (EI).

Mas o EI foi realmente derrotado militarmente no país?

Ainda há combates

Após ter conquistado em 2014 importantes territórios na Síria, o EI sofreu sérios reveses nos últimos anos ante o exército sírio e seu aliado russo, assim como ante as Forças Democráticas Sírias (FDS), uma aliança curdo-árabe apoiada pela coalizão internacional antijihadista liderada pelos Estados Unidos.

O EI está agora confinado a alguns bolsões no leste do país e no 'badiya', um deserto que se estende do centro do país até a fronteira com o Iraque.

Apesar de ter perdido quase todos os territórios conquistados, o EI continua mantendo sua capacidade de golpear, como demonstram os múltiplos atentados violentos que cometeu na Síria nos últimos meses, e de resistir às ofensivas militares que têm o objetivo de desalojar os jihadistas de seus últimos redutos.

Na quarta-feira, o EI realizou um novo contra-ataque, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), contra posições das FDS perto de Hayin, feudo dos jihadistas no leste sírio que foi conquistado na semana passada por estas forças curdo-árabes.

"Ambos os grupos continuam travando intensos combates ao leste de Hayin" indicou na quinta-feira à AFP o diretor do OSDH, Rami Abdel Rahman.

O EI, que controla outras localidades perto de Hayin, defende ferozmente sua presença nesta zona da província de Deir Ezzor, onde estão encurralados cerca de 2.000 jihadistas, segundo a coalizão anti-EI.

Estes jihadistas - que conhecem o terreno melhor que seus adversários - teriam em suas fileiras vários estrangeiros, assim como dirigentes de "primeiro escalão", segundo as FDS.

"O EI formou um miniexército de centenas de combatentes", afirma Nicolas Heras, pesquisador do centro de estudos Center for a New American Security.

Paralelamente, o EI realiza ataques regulares contra as forças do regime e seus aliados no badiya.

Células adormecidas

O EI dispõe, além disso, de um grande número de "células adormecidas" a partir das quais os combatentes realizam atentados suicidas em cidades e outras regiões reconquistadas por seus adversários na Síria.

Em Raqqa, ex-capital do "califado" autoproclamado pelo EI em 2014, de onde o grupo foi desalojado no ano passado, persiste o medo de uma infiltração dos jihadistas.

"Não têm nada a perder. Após os ataques contra seus feudos, milhares de combatentes do EI se transformaram em células adormecidas infiltradas em todas as regiões reconquistadas", afirma Abdel Rahman.

"Estas células constituem um exército alternativo (...) que busca semear o caos e a insegurança nas zonas controladas pelas FDS", acrescenta.

Centenas de combatentes do EI estão detidos em campos pelas FDS, que se negam a julgá-los 'in situ' e querem mandá-los de volta a seus países.

Nesta sexta-feira em Paris, um responsável político curdo alertou que as FDS poderiam perder o controle dos muitos jihadistas estrangeiros que têm detidos atualmente, se a Turquia - que qualifica as milícias curdas da Síria como "terroristas"- lançasse uma ofensiva contra eles.

Atentados no exterior

Os golpes desferidos contra o EI não impediram os atentados perpetrados pelo grupo no exterior, em especial em países-membros da coalizão internacional que intervém na Síria desde 2014.

Esse foi o caso do atentado em 11 de dezembro contra uma feira de Natal em Estrasburgo (leste da França), que deixou cinco mortos e foi reivindicado pelo grupo jihadista. Este foi o último dos ataques do EI contra várias capitais europeias nos últimos meses.

O EI reivindicou também um atentado cometido em novembro em Cabul, que deixou seis mortos.

Neste contexto, os analistas temem que uma retirada das tropas americanas da Síria - há 2.000 efetivos, em sua maioria forças especiais - represente um alívio para os jihadistas.

Segundo Heras, o presidente Trump parte de uma premissa falsa "porque o EI não foi derrotado na Síria".

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