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Quatro cubanos falam sobre a revolução castrista, que completa 60 anos

31/12/2018 10h42

Havana, 31 dez 2018 (AFP) - Em 1º de janeiro de 2019, completam-se 60 anos da revolução que levou Fidel Castro ao poder. A AFP entrevistou quatro cubanos, que mostram, cada um à sua maneira, uma faceta da ilha socialista: um ex-combatente, uma atleta, um dissidente e uma médica.

- Alejandro, o ex-combatente -Ele acaba de celebrar seus 97 anos: Alejandro Ferras Pellicer era o mais velho da centena de rebeldes (incluindo dois de seus irmãos), que participaram, junto com Fidel, do assalto ao quartel de Moncada, em Santiago, no sudeste do território. A operação, um fracasso, foi o prólogo da Revolução.

Em 1º de janeiro de 1959, Alejandro estava no exílio, nos Estados Unidos, quando o ditador Fulgencio Batista fugiu de Cuba. Ele então toma "o primeiro avião" para Havana: "cheguei antes de Fidel", ainda em Santiago.

"Eu tinha de vir para me unir à Revolução aqui", contou ele à AFP, no pequeno mausoléu dedicado a Moncada que ele construiu na capital. Desde então, "nunca saí do país".

Frente à ditadura, "era uma necessidade fazer uma revolução" para "lutar pelo futuro". Mas, acima de tudo, "a Revolução era Fidel".

E após seu falecimento, em 2016?

"Para nós, Fidel não morreu. Nós o mantemos vivo", porque "continuamos a fazer a revolução", afirma Alejandro, convencido de que ela "pode durar mais 50 anos".

"Enquanto a revolução tiver o povo (com ela), ela está garantida", completou.

- Ana Fidelia, a esportista -Para além dos troféus, a atleta Ana Fidelia Quiros, duas vezes medalhista olímpica e duas vezes campeã mundial nos 800 metros, orgulha-se de ter sobrevivido a um terrível acidente doméstico em 1993: a explosão de um fogão, que a fez perder o filho que esperava.

"Para mim, a Revolução (...) representa tudo, porque foi graças à Revolução que eu pude me tornar atleta, ser uma pessoa melhor e, sobretudo, pude me salvar desse acidente que poderia ter sido fatal", disse ela à AFP.

Com mais de 40% de seu corpo queimado, ela surpreendeu dois anos depois ao conquistar o título mundial em Gotemburgo - vitória que ela repetiria em Atenas, em 1997.

Esse retorno ao topo "não teria sido possível, se eu não tivesse vivido em um país como esse, onde a Medicina é gratuita".

Ela lembra que "a chegada da Revolução permitiu disseminar o esporte para todos", fazendo desse pequeno país uma grande nação olímpica.

Se, aos 55 anos, Ana Fidelia reconhece que "faltam muitas coisas", ela espera que, com as reformas, "a economia melhore" para que "Cuba reencontre seu lugar" na cena esportiva mundial.

- Vladimiro, o dissidente - Filho de um dirigente comunista, Vladimiro Roca é, há muito tempo, porém, um dos mais ferrenhos opositores do governo de Fidel, e depois de Raúl Castro, substituído em abril por Miguel Díaz-Canel.

"A Revolução morreu há muito tempo. Agora, o que tem é um regime ditatorial", disse à AFP esse ex-piloto de combate, de 76 anos, formado em Relações Econômicas Internacionais.

Primeiramente, Vladimiro seguiu os passos de seu pai, Blas Roca (1908-1987), mas se decepcionou com a Revolução.

"Eu lutei por uma revolução democrática, e não por uma ditadura familiar, que foi o que se estabeleceu em Cuba", reclamou Vladimiro, expulso do trabalho em 1992 por militantismo e, então, condenado a cinco anos de prisão em 1997.

"As pessoas têm medo" da repressão, afirma ele, mas a Revolução "vai se apagar sob seu próprio peso".

"Primeiro, a juventude já se cansou dela. Não acredita em nada disso. E depois, (a Revolução) não tem mais nenhum apoio de fora", completou.

"É possível que, quando Raul Castro morrer [hoje com 87 anos], tudo se acabe, porque os que vêm depois não estão dispostos a arriscar tudo por qualquer coisa que não tem futuro", insistiu.

- Lourdes, a médica -Lourdes Garcés estava no segundo de três anos de missão na comunidade de Santa Cruz das Palmeiras, no Brasil, pelo "Mais Médicos", quando Cuba foi bruscamente retirada desse programa, após as críticas do presidente eleito, Jair Bolsonaro.

"Foram dias difíceis e tristes", conta esta médica de 54 anos, que já havia sido enviada para a Venezuela (2003-2008) e para a Guatemala (2012-2014) e que defende uma revolução "em desenvolvimento, que ainda pode doar muito".

"Se eu tivesse de escolher uma palavra para qualificar a Revolução Cubana, eu diria 'solidariedade' (...). Desde seu início (...), ela foi solidária em todos os setores da sociedade, seja a cultura, a educação, o esporte, ou a saúde".

Essas missões a fizeram perder "muitos acontecimentos importantes" na vida de seus dois filhos, mas Lourdes aprecia o fato de ter ganhado experiência profissional, "ajudando as pessoas mais pobre".

E "nós não misturamos política, nem qualquer outro campo de fora da saúde", garantiu ela.

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