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Comércio da dor: as 'farmácias de rua' na fronteira Colômbia-Venezuela

AFP
11.fev.2019 - Posto fronteiriço entre Colômbia e Venezuela Imagem: AFP

11/02/2019 17h33

Giovanni Plaza fugiu para a Colômbia para tentar vencer o HIV que o estava matando na Venezuela. Ele deu sorte e conseguiu os remédios, mas a necessidade o obriga, assim como a seus compatriotas, a comprar a medicação de vendedores informais na ponte que liga os dois países.

Podem estar vencidos, danificados ou ser um placebo. Mas a escassez e a hiperinflação em seu país empurram muitos a adquirir qualquer opção ao alcance de suas possibilidades. Inclusive um fármaco com um preço suspeito, promovido por um desconhecido na ponte internacional Simón Bolívar.

"Estava praticamente morrendo na Venezuela por não ter uma boa alimentação e não ter os medicamentos, os antirretrovirais" com os quais se trata esse vírus, contou Plaza à AFP.

Ele se infectou com o HIV há cinco anos. Em dezembro, cruzou a fronteira para a cidade colombiana de Cúcuta na esperança de encontrar a medicação para manter sob controle sua condição, piorada após contrair uma malária que tampouco pôde ser tratada na Venezuela.

Ele deixou sua família, inclusive um filho de seis anos na Ilha Margarita, o balneário caribenho onde ganhava a vida como comerciante. Uma organização americana que atende em Cúcuta milhares de migrantes que fogem da pior crise da história moderna da Venezuela lhe deu o tratamento gratuitamente.

"Graças a Deus estou aqui de pé", diz este jovem 24 anos, usando um boné desbotado e uma camiseta branca com ombreiras que um dia foram vermelhas.

Mas diz que sente "muita tristeza e raiva" por seus compatriotas que não têm a mesma sorte e precisam procurar seus medicamentos nas "farmácias" de rua. Uma sorte relativa, pois para sobreviver pede dinheiro nas ruas da cidade colombiana.

A escassez de medicamentos na Venezuela beira os 85%. Milhares de doentes com problemas crônicos têm dificuldades para acessar seus tratamentos, segundo ONGs e grupos humanitários críticos ao governo, que resiste a reconhecer uma crise humanitária.

Doença versus negócio

Na antiga ponte Simón Bolívar, uma mulher de boné vermelho vende 30 pílulas do analgésico acetaminofeno por 60 centavos de dólar. Vinte cartelas do mesmo medicamento custam 3,8 dólares em qualquer farmácia de Bogotá.

Perto dali, outro vendedor de remédios tenta atrair a clientela. Trata-se de José Álvarez, radicado há dois meses em Cúcuta, que já fez de tudo um pouco em sua cidade natal de Valencia, no norte da Venezuela.

Mergulhador profissional, designer gráfico, instrutor de defesa pessoal e vigilante, este homem de 39 anos, baixa estatura, comercializa acetaminofeno, ibuprofeno e estimulantes sexuais que diz comprar de vendedores atacadistas.

"É o que se está vendendo agora e com maior facilidade", diz Álvarez, que se dedicou a eta atividade perto da ponte, por onde passam diariamente 35.000 pessoas.

Os principais compradores vêm da Venezuela. "Há muitas pessoas necessitadas que estavam fazendo de tudo para comprar um medicamento", afirma.

Uma delas é Maria Acevedo. Mãe de três filhos, esta dona de casa de 26 anos percorre com frequência os 70 km que separam Táchira de Cúcuta para comprar itens da cesta básica.

"Lá não se consegue nem nas farmácias, e se se consegue, o preço é maior", conta.

Remédios de alto risco

Mas o remédio pode ser mais caro que a doença. Medicamentos falsos ou adulterados podem provocar ataques cardíacos, lesões hepáticas, problemas renais, embolia pulmonar e até mesmo a morte, segundo o Instituto Nacional de Vigilância de Medicamentos e Alimentos da Colômbia.

"Há máfias basicamente que se dedicam a falsificar medicamentos", diz à AFP Alejandro Gaviria, ex-ministro da Saúde (2012-18) da Colômbia.

"Muita gente está vindo e não há controle de qualidade", afirma.

As autoridades fiscais e alfandegárias desarticularam bandos dedicados a este tráfico, declara sob condição de anonimato uma fonte desta instituição em Cúcuta.

Gaviria afirma que pacientes com HIV ou câncer dificilmente vão conseguir nas ruas todos os remédios de que precisam. "Não é o tratamento completo, então não vai fazer efeito".

Enquanto isso, os venezuelanos continuam com poucas opções ante o desabastecimento. Uma delas poderia ser a ajuda humanitária que chegou a Cúcuta na quinta, vinda dos Estados Unidos, em resposta a pedidodo opositor Juan Guaidó, reconhecido como presidente interino por cerca de 50 países.

Mas o presidente Nicolás Maduro avisou que impedirá a passagem de alimentos e remédios, considerando a emergência humanitária inexistente e estimando que seria o primeiro passo de uma intervenção militar dos Estados Unidos.