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Extremistas derrotados do EI clamam vingança: 'vai correr sangue'

Reuters
Membro do Estado Islâmico em Raqqa, na Síria Imagem: Reuters

2019-03-08T17:06:00

08/03/2019 17h06

"Nós nos vingaremos, vai correr sangue", o grupo Estado Islâmico (EI) "permanecerá e se espalhará". Alguns extremistas saem derrotados de seu último reduto na Síria, mas prometem vingança contra seus inimigos.

Milhares de pessoas continuam deixando o terreno onde se entrincheira o EI, no povoado de Baghuz, situado no leste do país. Entre elas, muitos homens e mulheres se negam a reconhecer a derrota.

Várias mulheres fazem menção a jogar os sapatos nos jornalistas e atiram pedras nas câmeras.

"Saímos, mas haverá mais conquistas", "o Estado Islâmico permanecerá e se espalhará", "nos vingaremos e vai correr sangue até a altura dos joelhos", gritam.

Elas passaram a noite ao relento perto de Baghuz, em uma posição das Forças Democráticas Sírias (FDS), que realizam a ofensiva contra os jihadistas. Serão levadas a um campo de deslocados.

"Você não lê o Corão? Não tem vergonha?", lança uma delas, agarrando a trança de uma jornalista que não usa o véu. "Que deus amaldiçoe as mulheres que parecem com um homem", berra outra.

Outras mulheres, sentadas no chão em pequenos grupos, são mais discretas, mas quando uma jornalista da AFP pergunta algo, repetem o mesmo discurso. "Esperamos a vitória, se deus quiser", clama Um Mohamed, de 47 anos, originária da província de Al Anbar, no Iraque.

"Radicalizadas"

"Os canalhas e os medrosos foram embora, e nós [as mulheres] partimos porque éramos um peso para os homens", explica.

Quando se pergunta por seu marido, membro do EI, Um Mohamed hesita antes de responder: "se estiver vivo ou morto, dou graças a deus".

Perto dali, algumas mulheres recitam as orações diárias. Um menino, coberto de poeira e com uma mochila, entoa um cântico religioso à glória do EI.

"O Estado do califado não desaparecerá, está gravado nos cérebros e nos corações dos recém-nascidos e das crianças pequenas" que saíram de Baghuz com suas mães, assegura uma sexagenária que não quis dar seu nome.

Os jihadistas conquistaram em 2014 regiões sírias e iraquianas nas quais proclamaram um "califado" que atraiu milhares de estrangeiros.

O EI impôs um regime de terror a milhões de pessoas e estabeleceu sua própria administração, com cunhagem de moedas, arrecadação de impostos, polícia da moral e programas pedagógicos nos colégios. Um protoestado que perdeu tudo, salvo visivelmente a lealdade de seus adeptos.

"A população do EI evacuada dos últimos vestígios do califado é amplamente impenitente, determinada e radicalizada", confirmou nesta quinta-feira o chefe das forças americanas no Oriente Médio, general Joseph Votel.

Na posição das FDS, os homens suspeitos de pertencer ao EI são revistados e interrogados. Depois, são isolados.

Bagdadi, "nosso modelo"

Ao ver a chegada dos jornalistas, um homem ferido no pé se levanta. Ele grita para denunciar o terrorismo da coalizão internacional e seus bombardeios.

"Me rendi por causa do meu ferimento. Mas acompanhei o Estado Islâmico desde o começo", afirma à AFP.

Ao seu lado, Abdel Moneim Najia tampouco esconde o apoio ao EI, apesar do desencanto.

"A lei de Deus era aplicada", alega. "Mas havia injustiças, alguns dirigentes roubaram o dinheiro e abandonaram o povo".

Segundo ele, muitos desertaram, deixaram tudo para trás para ir embora, sobretudo ao Iraque ou à Turquia.

"A cada tanto, ouvíamos que o emir fulano ou beltrano tinha abandonado o grupo", acrescenta. "E nós ficamos, até que as balas passaram zunindo sobre nossas cabeças".

Ele não esconde sua decepção com o "califa" Abu Bakr al Bagdadi, cujo paradeiro é desconhecido. "As pessoas contaram que nos abandonou. O encarregado é ele, para nós é nosso modelo", afirma. Tem 30 anos, mas aparenta muitos mais com a barba e os cabelos grisalhos.

Se demorou tanto para sair - diz - é porque seus primos são combatentes do EI e temia ser detido pelas FDS. A frustração não o impede de desejar mais "conquistas" ao "califado islâmico" e seu líder, Bagdadi.