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Apagões são novo golpe à caótica economia venezuelana

27/03/2019 15h07

Caracas, 27 Mar 2019 (AFP) - Os apagões estão dando um golpe vital à já abalada economia da Venezuela, paralisando sua vital indústria petroleira e provocando prejuízos de cerca de 200 milhões de dólares diários.

Nenhum setor escapou dos prejuízos provocados pelos enormes cortes de luz desde 7 de março passado. Neste dia, um apagão parou o país por uma semana, e a escuridão voltou 18 dias depois, com uma interrupção que ainda não tinha acabado nesta quarta-feira.

"Para cada dia de apagão geral (...) temos um prejuízo de cerca de 200 milhões de dólares", disse à AFP Carlos Larrazábal, presidente da Federação de Câmaras de Comércio e Produção (Fedecâmaras).

O impacto é devastador para uma economia que encadeou cinco anos em recessão, atingida por uma hiperinflação que o Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta em 10.000.000% até 2019 e uma desvalorização de mais de 98% do bolívar, a moeda local, desde agosto.

A crise energética atinge principalmente a cadeia produtiva de alimentos que necessitam de refrigeração.

"Os maiores prejuízos são sofridos por setores que dependem da cadeia de refrigeração, de lojas de varejo a atacadistas e distribuidores, passando por fabricantes e produtores", disse Larrazabal.

Desde segunda-feira, os cortes de luz atingem quase todo o território e as atividades de trabalho e educação estão suspensas.

Segundo o Parlamento de maioria opositora, o prejuízo do primeiro apagão chegou a 1 bilhão de dólares - mais de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Mais de 2 milhões de quilos de carne e 5 milhões de litros de leite foram perdidos, de acordo com o sindicato pecuarista, uma perda significativa em meio à escassez de alimentos.

"É preocupante que essa situação seja vivida com tanta regularidade", alertou María Carolina Uzcátegui, presidente do Conselho Privado de Comércio e Serviços (Consecomércio).

Sem energia, os meios de pagamento eletrônico deixam de funcionar em um país onde essas operações são essenciais até para comprar pão, devido à escassez de dinheiro físico gerada pela espiral inflacionária e pela desvalorização da moeda.

- Produção de petróleo em risco -A indústria petroleira - fonte de 96% das receitas da Venezuela - não é imune aos apagões.

O especialista Luis Oliveros afirmou à AFP que a produção venezuelana chega a cair a zero nos dias mais cruciais do apagão, o que pode representar "o início de um ciclo maior de deterioração".

A estatal petroleira PDVSA não ofereceu um balanço das consequências, mas Oliveros alerta que os apagões, em alguns casos, provocam danos "irreversíveis" nas instalações.

A produção venezuelana vem diminuindo constantemente. Ela caiu em fevereiro a pouco mais de 1 milhão de barris por dia, segundo fontes secundárias da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

Há uma década, atingia 3,2 milhões de barris por dia.

O volume pode cair para 500 mil barris por dia este ano por causa dos apagões, de acordo com um relatório da Barclays, uma empresa de serviços financeiros sediada em Londres.

E a partir de 28 de abril, os Estados Unidos aplicarão um embargo às exportações venezuelanas de petróleo que, segundo estimativas privadas, representam 50% do total e 75% do fluxo de caixa.

A medida é enquadrada pelas sanções de Washington para sufocar o presidente socialista Nicolás Maduro, que impedem que o país e a PDVSA renegociem os títulos da dívida. Ambos estão em moratória desde 2017.

- Medo de saques -A falta de luz alimenta o medo de saques, como os que ocorreram em Maracaibo (noroeste) durante o primeiro apagão. Na cidade conhecida por sua produção significativa de petróleo, havia 500, segundo a Consecomércio.

Devido a isso e aos problemas para manter a cadeia de refrigerados, as encomendas de produtos agrícolas são reduzidas. Apenas na comercialização de carne, leite ou legumes a queda ultrapassou 50% em março, segundo Fedecâmaras.

A situação é crítica no estado de Zulia, cuja capital é Maracaibo, onde os apagões ocorrem diariamente há uma década.

Diante dos novos cortes de energia, a Câmara de Comércio de Maracaibo pediu de "maneira urgente para as autoridades" evitarem "uma nova onda de saques", que afetam igualmente produtores e consumidores.

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