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Para enfrentar novo apagão, venezuelanos utilizam práticas da 'Idade Média'

28/03/2019 10h50

Caminhar por quilômetros durante horas, fabricar lamparinas com óleo, salgar a carne, ou recolher água de bicas e fontes: os venezuelanos sobrevivem ao apagão com práticas "da Idade Média".

Quando acreditavam ter superado o apagão que paralisou o país de 7 a 14 de março, o pior de sua história, "o pesadelo" está de volta: várias áreas estão sem luz, sem água, sem metrô e sem conexão de Internet, ou rede telefônica, desde a tarde de segunda-feira.

Conseguir água

Em Caracas, para lidar com a falta de água, muitos vão até El Ávila, uma cadeia montanhosa de quase 2.800 metros de altitude que domina a capital com uma presença imponente.

Lá vão famílias inteiras com baldes, xampu, roupas, pratos e panelas sujas e sabonetes para tentar conseguir água de fontes.

Na Venezuela, em geral, não há sistema de segurança para garantir o bombeamento de água. Sem eletricidade, não há fornecimento.

"Eles nos forçaram a pegar água dessas fontes, que obviamente não são totalmente saudáveis, mas pelo menos serve para o banho, para lavar utensílios. Infelizmente essa é a realidade que estamos vivendo", diz Manuel Almeida.

Às vezes, formam-se filas, e a operação pode levar várias horas.

Outros aproveitam os canos furados pela cidade para pegar água. Mas o procedimento não termina aí. Uma vez em casa, têm que ferver, ou purificar a água.

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"Vamos para a cama sem tomar banho", afirma Pedro José, de 30 anos, que mora em uma área popular no oeste de Caracas.

Alguns comerciantes aumentaram os preços das garrafas de água e sacos de gelo, que chegam a custar entre 3 e 5 dólares, pouco menos que o salário mínimo na Venezuela (18.000 bolívares, 5,45 dólares).

Os que têm acesso a dólares, invadem os hotéis, que contam com geradores elétricos.

Conservar a comida

Conservar os alimentos é um desafio real, embora seja muito mais difícil encontrá-los, já que com o corte de energia a maioria das lojas está fechada.

É preciso "compartilhar a comida" entre família e amigos, assegura Coral Muñoz, de 61 anos, que se sente "sortudo" por ter dólares.

"Você tem que ter a cabeça fria para aguentar isso, tentar estar acompanhado, porque na solidão fica muito mais difícil", acrescenta.

Para Kelvin Donaire, sobreviver à falta de energia é muito mais complicado. Ele mora no bairro de Petare e caminha mais de uma hora para chegar ao trabalho em uma padaria no bairro luxuoso de Los Palos Grandes.

27.mar.2019 - Pessoas fazem fila em uma supermercado para comprar farinha e açúcar durante o apagão em Caracas, na Venezuela - Carlos Garcia Rawlins/Reuters - Carlos Garcia Rawlins/Reuters
27.mar.2019 - Pessoas fazem fila em uma supermercado para comprar farinha e açúcar durante o apagão em Caracas, na Venezuela
Imagem: Carlos Garcia Rawlins/Reuters

Ir trabalhar é vital para ele. "Aqui pelo menos eu levo um pão para a minha casa, se eu não trabalho, não levo nada", explica.

Muitos cobrem a carne, ou o frango, com sal para conservá-los. Outros se desesperam ao ter de jogar comida estragada no lixo, em um país onde os alimentos são escassos, ou impagáveis, devido à hiperinflação.

Comunicar-se

O novo apagão atingiu em cheio as comunicações, a ponto de sequer os telefones fixos funcionarem.

Os dados atuais da rede Netblocks são ainda mais alarmantes do que os do apagão do início de março: 85% do país está sem comunicação e, segundo essa ONG de monitoramento, com pouca probabilidade de recuperação.

O governo de Nicolás Maduro assegura que se trata de um "atentado terrorista" contra a usina hidrelétrica de Guri, que gera 80% da energia consumida no país, de 30 milhões de habitantes.

Para a oposição, o fracasso se deve a anos de ineficiência, falta de investimento e corrupção no governo.

A falta de comunicação significa que as empresas não têm como cobrar, já que os caixas eletrônicos pararam de funcionar, e as transações eletrônicas foram suspensas.

Devido à escassez de dinheiro que atinge o país há meses, a única maneira de pagar é com dólares para aqueles que recebem remessas ou, em último caso, comprar fiado, apelando para a confiança.

"Obviamente, as pessoas têm que continuar comendo todos os dias, estamos dando a elas a oportunidade de pegar mercadorias e pagar por transferência bancária quando a luz chegar", explica Carlos Folache, proprietário de um depósito.

Dezenas de pessoas lotam a praça La Castellana, no leste de Caracas, onde se encontra a Torre Digitel, uma das principais empresas de telefonia móvel, para conseguir sinal.

"A Internet obviamente não funciona, o sinal não chega, então essa é uma das áreas em que tento obter um sinal para procurar alguma informação (...) desse episódio caótico que estamos vivenciando", afirma Douglas Pérez.

Locomoção

Caminhar quilômetros, ou enfrentar filas de várias horas para pegar um ônibus, ou conseguir gasolina: se locomover pode ser desesperador.

Os poucos ônibus disponíveis circulam lotados, apesar do preço elevado da passagem. Estima-se que 90% da frota esteja parada.

"As poucas vans que circulam cobram preços abusivos. A passagem custava 100 bolívares, agora eles cobram 1.500", conta Pedro José.

E, quando cai a noite, muitas famílias recorrem a lamparinas caseiras.

"Fabricamos lamparinas com gasolina, óleo, ou querosene, tudo o que puder servir de combustível. Voltamos à Idade Média", lamenta Lizbeth Morin, de 30 anos.

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