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Na base atacada pelo Irã, comandante dos EUA relata "medo" que sentiu

Bandeira do Iraque - Sam McNeil/AP Photo
Bandeira do Iraque Imagem: Sam McNeil/AP Photo

Da agência AFP, direto da base Al-Asad (Iraque)

14/01/2020 18h06

Refugiados em abrigos fortificados durante horas enquanto as paredes tremiam sob o impacto dos mísseis lançados pelo Irã: para um alto comandante americano, testemunha do ataque contra a base aérea de Ain al-Asad (oeste do Iraque) em 8 de janeiro, a ação não "tem precedentes".

Em entrevista exclusiva à AFP na base aérea localizada no território iraquiano, o tenente-coronel Tim Garland confirma que seus superiores hierárquicos o alertaram sobre o ataque "com poucas horas de antecedência".

"Minha primeira reação foi choque, descrença", disse, acrescentando que era cético quanto à possibilidade de o Irã poder e querer realizar o ataque.

O ataque iraniano à base de Ain Al-Asad, usado pelas forças armadas dos Estados Unidos, foi uma resposta ao assassinato do poderoso general iraniano Qassim Suleimani, numa ação americana perto do aeroporto de Bagdá em 3 de janeiro.

A base atacada, localizada na província de Anbar, é uma das maiores do país, com milhares de soldados iraquianos, e com algumas áreas usadas pelos 1.500 soldados americanos que fazem parte da coalizão que combate extremistas liderada pelos Estados Unidos.

A prioridade era proteger os soldados, disse o tenente-coronel. Às 23H00 (17h00 de Brasília), as forças americanas e da coalizão deixaram seus dormitórios e foram para os bunkers (abrigos fortificados), enquanto outros estavam dispersos em diferentes partes da base.

A espera foi longa, sob tensão, por mais de duas horas.

Mesmo para a experiente Garland, nada previa a violência do futuro ataque, que começou à 01h35 local (19h35 de Brasília).

"Quando a primeira carga (de mísseis) caiu, foi o ruído mais estrondoso já ouvido", lembra. "Havia algo estranho no ar, a maneira como se movia e superaquecia. A porta se dobrava a cada onda de ataque", acrescenta.

Durante três horas, cinco séries de ataques de mísseis balísticos atingiram a base, em intervalos regulares.

"Não havia tanto medo há muito tempo", disse o tenente-coronel, que esteve várias vezes em serviço no Iraque. "Não sabíamos como isso iria terminar, se isso iria se transformar numa chuva de bombas", relata.

"Um milagre divino"

Por volta das 4h (22h de Brasília do dia 8 de janeiro), os militares deixaram os bunkers para encontrar vários incêndios na base e mais de dez locais atingidos. Mas, por milagre, nenhum soldado morreu. Apenas dois que estavam de serviço em torres de vigilância que caíram no chão, mas só tiverem ferimentos leves.

"Terem sobrevivido é um milagre divino", diz o militar.

Segundo Garland, o intervalo observado entre cada lançamento de mísseis foi calculado para fazer os soldados acreditarem que o ataque havia terminado. "Foi um intervalo muito longo para pensarmos que estávamos seguros. Acho que foi proposital para ter vítimas", garante.

Quando a AFP visitou a base na segunda-feira a convite da coalizão, a maior parte dos escombros havia sido removida e um trator carregava hastes de metal retorcidas e outros restos na pista da unidade militar.

Um dos dormitórios dos soldados foi pulverizado e, na segunda-feira, um cheiro de metal derretido ainda pairava no ar.

Os soldados informaram à AFP que perderam todos os seus pertences pessoais: roupas, livros, fotos de suas famílias e lembranças que guardavam cuidadosamente de cada destino militar, algumas com mais de dez anos.

Mas, dada a intensidade dos ataques iranianos, todos tiveram muita sorte, afirma Garland.

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