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4 meses

CPI da Covid: Queiroga fica isolado e é contrariado até por governistas

Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, na CPI da Covid - Jefferson Rudy/Agência Senado
Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, na CPI da Covid Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado

Daniel Weterman, Pedro Caramuru e Amanda Pupo

Brasília e São Paulo

08/06/2021 15h17Atualizada em 08/06/2021 17h18

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, ficou isolado em parte de seu segundo depoimento na CPI da Covid e foi contrariado até por aliados do presidente Jair Bolsonaro. Queiroga afirmou que a cloroquina não tem eficácia comprovada contra o novo coronavírus e que não há nenhum infectologista trabalhando na pasta.

Durante a sessão da CPI, o ministro fez a declaração mais enfática até o momento sobre o chamado tratamento precoce, defendido por Bolsonaro apesar de não haver nenhuma evidência científica da eficácia de medicamentos como a hidroxicloroquina e a ivermectina contra a covid-19.

"Senador, eu já respondi a Vossa Excelência, essas medicações não têm eficácia comprovada. Não têm eficácia comprovada", disse ao relator, Renan Calheiros (MDB-AL).

O chamado tratamento precoce é defendido por Bolsonaro e pela tropa de choque do Palácio do Planalto na CPI da Covid. O comentário de Queiroga provocou críticas do senador Luiz Carlos Heinze (PP-RS), que assumiu uma vaga de titular na comissão após a viagem do senador Ciro Nogueira (PP-PI) ao exterior nesta semana.

"Nós vamos apoiar a vacina, sim, mas não podemos desqualificar o tratamento precoce", disse Heinze.

O ministro declarou que não questiona a legitimidade de médicos pró-cloroquina, mas que o protocolo sobre o tratamento precisa ser resolvido no ambiente científico e pacificado "de uma vez por todas".

"O protocolo sobre a medicação poderá ser concluído em "curto período de tempo" pela Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do SUS), disse Queiroga. Ele se negou, porém, a retirar do site do ministério uma nota que recomenda a administração da cloroquina desde os primeiros sinais da doença.

Outro defensor do governo, Eduardo Girão (Podemos-CE) também criticou o posicionamento contrário ao tratamento precoce. Girão ressaltou, porém, que não concordava com o comportamento de Bolsonaro ao promover aglomerações.

Outra divergência com a base governista foi sobre o quadro de servidores do Ministério da Saúde.

"O Ministério da Saúde, ao longo do tempo, tem perdido quadros. Nós não temos, no Ministério da Saúde, médicos infectologistas. Temos a doutora Carolina, que é médica infectologista, mas ela é servidora da CGU. Ela não está ali na função de médica infectologista. O que nós temos são médicos consultores, que nos apoiam", disse o chefe da pasta.

Aliados de Bolsonaro, Heinze e Marcos Rogério (DEM-RR) afirmaram que o ministério teria, sim, infectologistas.

"O Ministério da Saúde tem, pelo menos, sete infectologistas", disse Rogério, sendo retrucado pelo relator em seguida. "Então, o ministro está mentindo? Respeita o ministro, rapaz", afirmou Renan a Marcos Rogério.

Para o senador Humberto Costa (PT-PE), a situação de Queiroga mostra que ele pode estar prestes a deixar o ministério da Saúde.

"Eu até vejo que aqui, quando vêm algumas pessoas, vem gente de todo canto para defender, não é verdade? Até o senador Flávio Bolsonaro vem aqui. Hoje, cadê o Ciro Nogueira? Cadê os outros? Vossa Excelência está só aí. Está abandonado aqui", disse o petista.

Apesar de ter a autonomia questionada, Queiroga reforçou que Bolsonaro está "preocupado" com questões sanitárias e "apoia" as ações do ministério, especialmente a vacinação.

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.