Há 40 anos do golpe na Argentina,'Avós' ainda veem repressão

Por Sarah Germano SAO PAULO, 24 MAR (ANSA) - Em 24 de março de 1976 foi instaurado o último regime militar na Argentina que, até seu fim, em 1983, deixou ao menos 30 mil pessoas desaparecidas, sendo considerado o mais sanguinário da região.   

Durante o período, cerca de 500 filhos de mulheres que estavam grávidas quando foram presas e deram à luz na prisão foram entregues, pelos militares, a outras famílias, sem saber suas verdadeiras identidades. Em 1977 foi criada a Associação Avós da Praça de Maio, que desde então luta incansavelmente para encontrar esses bebês, hoje adultos na faixa dos 40 anos. Até o momento, 119 netos foram identificados. Em entrevista exclusiva para a ANSA Brasil, a líder do grupo, Estela de Carlotto, contou sobre seu neto, achado em 2014, sobre a luta do grupo, os avanços desde do fim da ditadura na Argentina, a eleição do papa Francisco, o fim do kirchnerismo e o início do macrismo.   

Confira:ANSA: Como você se sente quando mais um neto é encontrado?Estela: O encontro de cada neto é uma alegria enorme não somente para as Avós da Praça de Maio, mas também para toda a sociedade nacional e internacional. Faz 38 anos que estamos os buscando e os encontrando. É um ato de reparação, não somente para eles, como pessoas, como seres humanos, mas para toda a sociedade. Roubaram [os militares] uma pessoa, para quem mentiram, ocultaram seus direitos, sua identidade, lhe privaram de viver com seus pais, para ser criados por pessoas que não são da família, que, na maioria dos casos são os assassinos de seus verdadeiros pais. De forma que, este ato reparador, é um êxito muito importante porque os assassinos e torturadores fizeram tudo de forma clandestina. Parecia impossível que um dia encontrássemos nossos netos. E diante de nosso trabalho, tudo que fizemos, como um banco de dados genéticos, e todas as leis que convergem para a justiça e a verdade, temos conseguido colocar isso em ordem, pelo menos essa tarefa, e podemos continuar encontrando os netos que faltam. ANSA Como a senhora se sentiu quando seu neto foi encontrado?Estela: Eu senti uma enorme alegria, que não era somente minha, mas também das demais avós e da sociedade argentina. Aqui em Buenos Aires foi uma festa de rua. Minha casa, que fica no centro da cidade, teve a rua fechada para o trânsito, por conta da multidão que se reuniu. Parecia uma manifestação de alegria, de parceria.   

Essa busca envolveu muito a sociedade, que acompanhou nossa busca ano após ano. Dessa forma, minha alegria foi compartilhada com a população. Foi uma alegria enorme poder tê-lo abraçado, ter o conhecido e agora poder ver ele crescer. Ele vai ser pai, está esperando uma filha. Isso, para mim, é um presente dos céus, pois, mesmo sempre sendo otimista, quando completei 80 anos (em 2010) pedi a Deus que fosse encontrado meu neto, pois não queria morrer sem abraça-lo. Ignacio Hurban, batizado pela família Carlotto como Guido, nasceu em junho de 1978, em um centro clandestino de detenção em La Plata, onde sua mãe, Laura, militante da juventude peronista, estava presa. A jovem estava grávida de três meses. Ele foi encontrado em 2014, após entrar em contato com a associação. Dúvidas sobre sua identidade surgiram quando descobriu que havia sido adotado. ANSA: A Argentina ainda sofre resquícios da Ditadura? Que avanços ainda faltam? Stella: Ainda não se sabe onde estão as 30 mil pessoas assassinadas durante este período. Nós, as Avós, procuramos ainda centenas de netos que não sabemos onde estão. E, além disso, as Forças Armadas precisam ser muito bem administradas e educadas para evitar a repressão, pois ainda carregam costumes repressivos da ditadura que colocam em prática quando existem mobilizações populares. Isso vai contra a Constituição. Falta ainda muita educação e informação.ANSA: Como surgiu a Associação? Stella: Na verdade não surgiu como uma ideia, aconteceu em decorrência da natureza própria do ato de buscar, cada uma começou a buscar aos filhos que não voltaram, ao neto que ainda não tinha nascido. E fomos nos encontrando e estreitando nossas mãos e dessa unidade nasceu o primeiro grupo das Avós em outubro de 1977. Foi por decisão e circunstâncias que formamos o grupo. Por isso sempre digo que não somos um grupo de senhoras amigas que fundam um clube para jogar cartas.   

Não, nós não nos conhecíamos, nem sabíamos onde cada uma ia ou o que fazia, mas as circunstancias terríveis do desaparecimento de nossos parentes nos juntou. ANSA: Qual é a relação das Avós da Praça de Maio com o papa Francisco? Stella: Nossa relação é muito boa. Preciso confessar, no entanto, que a primeira impressão, não foi boa, porque existiam boatos sobre sua atuação durante a ditadura, mas tudo isso foi desmentido. Ele ajudou e colaborou para que vidas fossem salvas. Por isso nos encontramos com ele no Vaticano, também fui recebida com minha família e meu neto recuperado, e acompanhamos, através da imprensa, sua atuação. Que profundidade ele tem, que acertos, como pensa na paz mundial! É realmente um pastor da Igreja muito humilde e muito simples e muito afetivo. Os fieis gostam muito dele, assim como nós.ANSA: Do que vocês conversaram no Vaticano? Stella: A principio, na primeira visita que fiz, com um neto e duas avós, durante a audiência geral de quarta-feira, na Praça São Pedro, estávamos na frente quando terminou seus deveres e veio nos cumprimentar com os braços abertos, pois saudava aos argentinos. Ele tinha um sorriso muito afetuoso, pegou nossas mãos, nos beijou, nos abençoou e escutou nossos pedidos. Pedimos que o Vaticano, por favor, intervenha nas desclassificação dos arquivos que tem sobre a ditadura argentina, para podermos encontrar respostas e também pedimos a solidariedade da Igreja Católica, pois, durante a ditadura, muitos bispos e outros sacerdotes foram cúmplices. Ele sabe de tudo isso e prometeu ajudar.(ANSA)
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