Tiros, desespero e prateleiras vazias nos mercados: brasileiros relatam pânico na Turquia

  • Yagiz Karahan/ Reuters

Horas após uma tentativa de golpe na Turquia, brasileiros que vivem no país contaram à BBC Brasil sobre o clima de pânico nos bairros onde moram ou estão hospedados, como todos estão apreensivos em relação ao que vai acontecer nas próximas horas e o corre-corre para comprar mantimentos e sacar dinheiro.

"Estou em choque. Estou ouvindo o chamado das mesquitas. Mas não é um chamado para as orações, e sim para ir às ruas defender o país", conta a brasileira Elissa de Moraes Sá, "Estou ouvindo muitos tiros, carros de polícia, estou muito assustada."

Nesta sexta-feira, um grupo de militares armados anunciou ter tomado o poder na Turquia. O premiê Binali Yildirim não admitiu que houve um "golpe" no país e classificou a operação como uma "ação ilegal". Houve confrontos entre militares rebelados e leais ao governo ao menos em Ankara e Istambul.

A brasileira contou ainda que por volta das 0h30 foi ao supermercado comprar mantimentos, mas que encontrou muita confusão e prateleiras vazias.

Estava completamente lotado. Já tinha muita coisa faltando, produtos básicos como pão e água. Fora que os preços estavam exorbitantes. Comprei leite, macarrão, linguiça e molho e a conta ficou quase dez vezes maior do que costuma dar."

Elissa, que é professora de espanhol e mora no país há quase três anos, contou que todos os seus amigos - turcos ou não - estão muito assustados. "Todo muito está em pânico, sem saber o que fazer. Os brasileiros e outros estrangeiros que conheço querem ir embora, mas não têm como com o aeroporto fechado.."

Arquivo pessoal/ BBC
Karina Bertonlino, 24
A professora conta que adora morar em Istambul e que até então não tinha pensando em deixar o país. "Mas estou realmente apavorada. Agora a situação é muito crítica. Se abrir o aeroporto, eu pego o primeiro avião, nem que seja para algum país vizinho."

Para ela, a situação é bem mais amedrontadora do que quando houve o ataque ao aeroporto da Istambul, em 29 de junho. "Ataques acontecem em outras cidades, na Bélgica, França... Mas essa é uma situação diferente. Porque é algo que aconteceu de repente, não se esperava, e ninguém sabe o que vai acontecer a partir de agora."

Trancada em casa

A representante de vendas Karina Bertonlino, de 24 anos, também conta que está mais assustada agora do que no atentado ao aeroporto Ataturk.

"Bomba é um risco que você está sujeito. Mas moro aqui há cinco anos e nunca vivi algo assim, nunca me senti assim. Porque aqui normalmente é muito seguro. Mas agora não sei o que esperar."

A brasileira contou que sua empresa já avisou que não vai abrir amanhã. "Estou com muito medo. Não vou sair de casa amanhã por nada."

Ela contou ainda que o namorado saiu para comprar água e já não tinha nada no mercado e que havia muita confusão nas ruas.

Tiros

O brasileiro Daniel Pereira, que é representante comercial e mora em Istambul há cinco anos, também falou do pânico nas ruas.

Arquivo pessoal/ BBC
Daniel Pereira

Vimos um clima incomum nas ruas: as pessoas estavam andando apressadas, brigando por táxis e sacando dinheiro nos caixas eletrônicos. Os mercados já estavam todos fechados. Poucas horas depois, já dentro de casa, ouvimos tiros. Estou com medo."

Ele conta que quando soube que a ponte que liga a parte europeia à asiática da cidade havia sido fechada pelo Exército, pensou se tratar de um mecanismo de segurança temporário, porque o país todo está em alerta depois do atentado em Nice, na França.

"Outro fato incomum foi que as mesquitas aqui perto de casa estão convocando à população a sair às ruas contra o chamado "golpe". Mas tudo ainda é muito esquisito. Não sabemos se está havendo um golpe ou não. Meu namorado, que é turco, acha que tudo não passa de um grande teatro do Erdogan (Recep Erdogan, presidente turco) para ganhar mais poder. O meu maior medo é que isso resulte numa guerra civil".

Atletas brasileiros

Também há brasileiros em outras partes da Turquia temendo o que vai acontecer no país. Na cidade de Trabzon, no litoral norte, um cerca de 100 brasileiros estão refugiados em seus em hotéis e alojamentos à espera de orientações do consulado brasileiro no país.

A maioria deles viajou à Turquia para participar ou assistir um evento esportivo estudantil conhecido como Gymnasiade - organizado pela Federação internacional de Esporte Escolar e previsto para acabar no próximo dia 18. Há representantes de diversos países.

Segundo Wesley Alves Machado, pai de um dos atletas, o consulado brasileiro orientou pais, atletas, árbitros e dirigentes brasileiros a permanecer em seus hotéis e não sair às ruas.

Podemos ouvir os alto-falantes de uma mesquita anunciando algo em turco. Não se parece nada como o chamado para a oração, que é regular por aqui".

Muitas mesquitas do país estão conclamando o povo a sair às ruas contra a ação militar.

Machado disse que apesar de não ser possível ver tumultos em Trabzon, o clima é de tensão.

"(Estou) apreensivo pela falta de informações sobre nosso retorno. Soubemos que os aeroportos estão fechados e tomados por forças militares".
A embaixada brasileira disse à BBC Brasil que acompanha o desenrolar dos fatos e tenta listar e localizar brasileiros que precisam de ajuda no país.

Com reportagem de Luís Barrucho, Mariana Della Barba e Luis Kawaguti.

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