Como o YouTube fez polícia investigar 1.200 suspeitos de tráfico de maconha

Felipe Souza

Da BBC Brasil, em São Paulo

  • Reprodução/Facebook

    19.jul.2016 - THC Procê confirmou à polícia que a plantação de maconha era dele e que ele fuma a erva desde os 16 anos de idade

    19.jul.2016 - THC Procê confirmou à polícia que a plantação de maconha era dele e que ele fuma a erva desde os 16 anos de idade

Como germinar sementes, saber se uma planta é macho ou fêmea e dicas para cultivar maconha no quintal de casa. O professor de tecnologia da informação e segurança eletrônica Sérgio Delvair da Costa, o THC Procê, 52, passava o dia respondendo a perguntas e publicando vídeos sobre cultivo de cannabis em seu canal no YouTube.

Isso ocorreu durante ao menos dois anos até a polícia invadir a casa dele, em Brasília, e prendê-lo em junho deste ano com 120 pés de maconha. Ele foi indiciado sob suspeita de tráfico de drogas e pode ser condenado a até 20 anos de prisão em regime fechado --incluindo agravantes. Até então, ele tinha apenas uma passagem por uso de entorpecente.

Mas além de incentivar o plantio de maconha, THC Procê usava seu canal no YouTube para atrair pessoas para a cooperativa que ele mesmo criou para distribuir sementes da erva. A intenção dele, segundo dizia nos vídeos, era a de que mais pessoas plantassem para evitar comprar "maconha com cocô" e combater o tráfico de drogas. Mas a sua prisão também fez com que parte de seus seguidores entrassem na mira da polícia.

Segundo o delegado Francisco Antonio da Silva, titular da 20ª DP (Gama), as 1.200 pessoas que faziam parte da rede de distribuição de sementes criada por THC Procê serão investigadas. "A Cooperativa de Cultivadores do Brasil (CCB) repassava sementes para interessados em todo o país por meio dos Correios. Nesse esquema, cada um dos envolvidos pagava um valor mensal para receber a mercadoria em casa. Nosso objetivo agora é identificar essas pessoas e saber qual o envolvimento de cada uma com esse tráfico", disse o delegado em entrevista à BBC Brasil.

A polícia encontrou documentos no computador de Sérgio Costa com endereço e telefone de cada um dos integrantes da cooperativa. Mas a maioria ainda não foi identificada porque a maior parte das informações estão codificadas. "O computador do THC [Procê] tinha toda a relação de seus clientes, mas ele escreveu em códigos para dificultar a investigação", disse o delegado responsável pelas investigações.

O delegado que investiga o caso afirmou que o inquérito principal já foi enviado para a Justiça. Agora, ele aguarda o posicionamento do Ministério Público para avaliar se será necessário acionar a Polícia Federal para auxiliar a investigação em outras regiões do país. Caso seja comprovado o envolvimento direto dessas pessoas com o youtuber, elas poderão responder por associação ao tráfico e até mesmo por tráfico de drogas.

O advogado Emílio Figueiredo, que ajuda na defesa de Sérgio Costa e faz parte da Rede Jurídica pela Reforma da Política de Drogas, disse que a investigação contra os seguidores de THC Procê é uma perda de tempo. "Não há prova sobre esse relacionamento que configure crime. Além disso, a polícia vai perder um tempo enorme para tentar saber se essas pessoas estão cultivando canabis, quando o foco dela deveria ser em crimes graves. É se preocupar com muito pouco", afirmou.

Mensalidade

THC Procê confirmou à polícia que a plantação de maconha era dele e que ele fuma a erva desde os 16 anos de idade. Ele também afirmou que distribuía sementes para seus seguidores, mas não cobrava. Apenas pedia, segundo ele, doações de R$ 30 para quem tivesse condições de ajudá-lo.

Já a investigação policial aponta que THC Procê cobrava mensalidades de R$ 32,80 a R$ 74,80 de cada participante da cooperativa.

Os advogados que acompanham o processo disseram que Sérgio Costa está ciente da complexidade de seu caso, mas se diz preparado para se defender judicialmente.

Mata atlântica

A investigação para prender THC Procê, batizada de Mata Atlântica, começou após a polícia receber uma denúncia anônima de que ele cultivava uma grande plantação de maconha no seu quintal. Policiais usaram até um helicóptero para fazer imagens aéreas da casa do youtuber antes da operação.

Além do plantio, os policiais também apreenderam fertilizantes e sementes que seriam enviadas para diversas regiões do país. Em depoimento à polícia, TCH Procê afirmou que a plantação era para consumo próprio.

THC Procê afirmou ainda que havia criado a cooperativa para distribuir sementes, com a intenção de reduzir os danos causados aos usuários e combater o tráfico, mas não sabia que era um crime.

O advogado Emílio Figueiredo afirmou que as sementes estão num limbo jurídico e não podem ser consideradas entorpecentes. "É um fruto que não tem característica de droga. Ela também não é matéria-prima principal do processo industrial do entorpecente e por isso não pode ser tratada dessa forma."

Último vídeo

Após a prisão de THC Procê, três policiais civis que participaram da operação para capturá-lo gravaram um vídeo e o publicaram no canal do YouTube de THC Procê. "Quero infomar que nós temos o endereço de cada um dos senhores. Vamos bater na casa de vocês e vão responder por tráfico de drogas e associação para o tráfico", diz um dos policiais civis durante a gravação.

O mesmo agente ainda faz um apelo para os internautas. "Esse é o último vídeo do canal. Quem não é a favor dessa legalização, quem preserva a família, compartilhe esse vídeo para mostrar que a polícia está presente e que o crime dura pouco tempo", afirmou.

Para o advogado Emília Figueiredo, que auxilia a defesa de THC Procê, a atitude dos policiais foi ilegal. "O que eles fizeram foi um abuso de autoridade. Eles violaram um sigilo telemático e usaram uma conta pessoal particular para publicar um conteúdo sem autorização. Depois disso, ficaram constrangendo e ameaçando as pessoas que criticavam a ação nas redes sociais. Eles [policiais] chegaram até a expor telefones pessoais de usuários nas redes", afirmou Figueiredo.

De acordo com a defesa, os policiais chegaram até a divulgar o telefone da mãe de um dos usuários do Facebook que criticou a ação dos policiais. Figueiredo disse que tem registro de todos os abusos cometidos.

Protestos

A prisão de THC Procê causou uma onda de protestos nas redes sociais. A hashtag #LiberdadeTHCProcê se popularizou principalmente no Twitter e Facebook, acompanhada de fotos e protestos pedindo para que Sérgio Costa seja solto.

A defesa do acusado disse estar consciente de que seu caso é complexo, mas está tranquilo e vai "provar na Justiça que seu plantio era para uso pessoal".

O caso de THC Procê é semelhante ao de Geraldo Antonio Baptista, o Ras Geraldinho, 55, condenado por tráfico de drogas após ser preso com uma plantação de 37 pés de maconha em 2012. Ele continua preso até hoje no interior de São Paulo.

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