Como uma universidade virou centro de batalha entre bilionário pró-Europa e governo acusado de autoritarismo

  • Zoltan Balogh/MTI/AP

    Húngaros participam de protesto chamado de "Nós pertencemos à Europa", em Budapeste

    Húngaros participam de protesto chamado de "Nós pertencemos à Europa", em Budapeste

Michael Ignatieff não é o tipo de pessoa que você esperaria encontrar no centro de uma disputa de poder global envolvendo nomes de peso como Donald Trump e Vladimir Putin.

Ele era o esguio e intelectual apresentador de programas de arte do horário nobre da TV britânica nos anos 1990. Tinha o jeito de um músico de jazz experimental.

O autor e acadêmico canadense entrou na política em seu país de origem, e foi líder do principal partido de oposição, o Liberal, entre 2008 e 2011. No ano passado, assumiu o cargo de presidente da Universidade da Europa Central (CEU), na Hungria.

O que era para ser um último emprego para Ignatieff, hoje com 69 anos, virou uma tempestade política: a instituição de ensino baseada em Budapeste tornou-se campo de batalha entre o liberalismo internacional e o populismo nacionalista.

Tudo isso em meio à aprovação, pelo governo da Hungria, de uma lei que pode fechar a universidade e torna incerto o futuro de 600 funcionários e de alunos de cem países.

Bernadett Szabo/Reuters
Michael Ignatieff, retiro da Central European University, em Budapeste (Hungria)

Precedente perigoso?

Ignatieff diz que um fechamento seria o primeiro de uma universidade europeia desde a Segunda Guerra Mundial.

"Por isso é que algo tão chocante. Isso cruzaria uma linha perigosa. Não há qualquer razão para sairmos de Budapeste, é um ultraje", disse o canadense em Londres.

"Somos uma instituição livre, e isso é uma tentativa de controle", afirma.

A justificativa das autoridades do país da Europa Oriental é que a universidade não atingiu novos critérios de qualidade educacional. A disputa, contudo, tem raízes mais profundas, a começar pelo fato de que a CEU é bancada pelo megainvestidor George Soros.

O bilionário, que nasceu em Budapeste e sobreviveu ao Holocausto, é um defensor de causas liberais.

Segundo Ignatieff, o atual primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, tem uma longa rixa pessoal com Soros - Orbán disse recentemente no Parlamento Europeu, por exemplo, que Soros é um "agressor" da Hungria.

O megainvestidor fez inimigos em outros lugares. Ele chamou o presidente dos EUA, Donald Trump, de "vigarista e aspirante a ditador", e é um duro crítico do mandatário russo, Vladimir Putin.

No última semana, manifestantes em Budapeste usaram o slogan "Europa, não Moscou", para protestar contra a suposta preferência do governo húngaro pelas relações com a Rússia, em detrimento do Ocidente.

A história da rivalidade entre Orbán e Soros tem contornos ainda mais interessantes: nos anos 1980, o atual líder do país recebeu uma bolsa de Soros para estudar na renomada universidade britânica de Oxford.

Orbán fez estudos sobre a sociedade civil em transições democráticas (a Hungria esteve sob controle comunista até 1989), mas hoje é um premiê enfrentando protestos nas ruas. Há quem o veja no mesmo time de Trump e Putin em um embate contra o liberalismo.

Na campanha presidencial francesa, por exemplo, o candidato centrista, Emmanuel Macron, acusa sua oponente da extrema-direita, Marine Le Pen, de integrar aliança com Orbán e Putin.

Emmanuel Dunand/AFP
O premiê húngaro, Viktor Orbán, em coletiva no Parlamento Europeu, em Bruxelas

'Alegações falsas'

A CEU é registrada tanto nos EUA e na Hungria como instituição de ensino, e diz ter como missão promover valores democráticos após o fim do controle soviético no país europeu.

Ignatieff esteve em Londres para um evento da University of East London, que junto com a CEU desenvolve projetos de ajuda a refugiados - iniciativas que não encontram grande acolhida em uma Hungria hoje mais hostil em relação à imigração.

O presidente da universidade disse acreditar que a eleição de Trump tenha sido vista pelo governo húngaro como uma chance de atacar a instituição.

"O senhor Orbán deve ter pensado que a administração de Trump não se importaria se ele fosse contra uma instituição associada com o liberalismo. Mas desde o início as coisas foram bem diferentes", explicou, referindo-se ao pronunciamento do Departamento de Estado dos EUA expressando a oposição de Washington à nova legislação educacional húngara.

O assunto chegou à Comissão Europeia, que abriu uma investigação contra a Hungria, que é integrante da União Europeia. O vice-presidente da Comissão, Frans Timmermans, disse que as novas regras educacionais húngaras "foram vistas por muitos como uma tentativa de fechar a CEU".

E um grupo de pesquisadores europeus escreveu uma carta aberta para o premiê, classificando a posição do governo em relação à universidade como algo "contrário ao garantido por regimes democráticos".

Orbán, no entanto, escreveu de volta aos cientistas, dizendo que suas alegações "não correspondem à realidade" e que são parte de uma "campanha internacional de desinformação" contra o governo húngaro.

Desfecho

Segundo Ignatieff, a licença da universidade pode ser cancelada a partir de outubro, impedindo o recrutamento de novos estudantes.

"Não vamos fechar, mas talvez tenhamos que deixar o país".

Ele diz ter recebido ofertas de seis países para abrigar a instituição de ensino.

No entanto, a intenção é permanecer na capital húngara e tentar apaziguar os ânimos. Ignatieff enfatiza o fato de não haver disputa política com Orbán.

"Isso não é fascismo. Ele (Orbán) é um populista democrata que ganhou uma eleição legítima. Não estamos vivendo na Hungria comunista ou na Alemanha nazista."

Ignatieff também diz que não se deve ver o dedo de Putin em tudo. "Damos a Putin poderes com os quais ele só pode sonhar. Fazemos dele alguém maior do que é", argumenta.

Mas o canadense diz se preocupar com o precedente que o eventual fechamento de uma universidade no coração da Europa possa abrir para o futuro da democracia.

"A democracia não é apenas o governo da maioria, liberdade de imprensa e um Judiciário livre. Também envolve instituições que têm o direito de governar a si próprias", diz.

"Universidades são irritantes e difíceis. Mas se você quer uma democracia, elas são extremamente importantes".

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