Com apoio menor após eleição, premiê britânica terá de 'suavizar' Brexit?

  • Toby Melville/ Reuters

Britânicos contrários ao Brexit têm visto no resultado das eleições da semana passada no Reino Unido - que reduziu o apoio parlamentar à premiê Theresa May - uma possível oportunidade de última hora para alterar o processo de saída do país da União Europeia.

May, que havia convocado as eleições antecipadas justamente na tentativa de aumentar sua base parlamentar para fortalecer-se ao negociar os termos do Brexit, viu sua posição se debilitar, já que seu partido, o Conservador, perdeu a maioria absoluta no Parlamento britânico.

O resultado agora é que diversos grupos de lobistas, incluindo ex-ministros ainda próximos do governo, têm iniciado conversas sobre um planejamento tático para conseguirem influenciar a discussão.

E até mesmo tradicionais líderes conservadores já admitem que o partido terá de ceder nas negociações.

Uma das principais questões em jogo é a relação do Reino Unido com a União Europeia no pós-Brexit. De um lado, o que se chama de "Brexit duro" - que vinha sendo defendido por May - significaria abandonar por completo o mercado comum e a liberdade de circulação de pessoas com passaporte europeu em território britânico.

De outro, um Brexit mais "suave" poderia manter laços próximos com a UE, possivelmente estabelecendo-se algum tipo de associação com o mercado comum em troca de algum tipo de liberdade de circulação para cidadãos não britânicos.

Até mesmo os ministros que apoiam o Brexit concordam que um governo com apoio parlamentar minoritário precisa se comportar de maneira diferente. Sendo assim, já é possível esperar uma mudança no tom, uma abordagem mais em busca de um consenso - o que significaria que o governo estaria mais propenso a concordar com as mudanças sugeridas pela oposição sobre a saída da União Europeia sem maiores conflitos.

Um ministro disse à BBC, pedindo anonimato, que o governo terá uma abordagem menos ideológica. Alguns membros do gabinete irão pressionar por uma posição menos rígida, apelando a Theresa May para que suavize um pouco as linhas "vermelhas" das negociações do Brexit.

Questões fundamentais

Mas será que o revés eleitoral de May a forçará a negociar também o eixo fundamental do Brexit - de sair do bloco europeu -, que foi decidido em plebiscito no ano passado?

Nesta terça-feira, o presidente francês, Emmanuel Macron, disse em encontro com May que a possibilidade de o Reino Unido permanecer na UE é uma opção a ser considerada até que as negociações do Brexit (que começarão formalmente em 19 de junho) forem concluídas.

Mas o governo britânico insiste que não vai voltar atrás no Brexit. Segundo ministros ouvidos pela BBC, é possível que o governo agora se esforce para negociar o máximo possível de acesso do Reino Unido ao mercado comum europeu no pós-Brexit.

E, levando-se em conta a "mensagem" passada pelos eleitores britânicos nas urnas na semana passada, mais de 80% do público votou para os dois principais partidos - e ambos, Conservador e Trabalhista, prometeram abandonar a livre circulação de pessoas e o livre comércio da União Europeia.

No momento, May negocia com o partido norte-irlandês DUP (Partido Unionista Democrático, que obteve 10 assentos parlamentares na eleição) em busca de apoio para composição de seu governo e de mais capital político.

Mesmo assim, a aritmética parlamentar ainda é preocupante para May, o que significa que ela precisa ouvir mais outros partidos - e também que está mais vulnerável à pressão deles.

Um argumento fácil de ser defendido é o de que a comissão que debate o Brexit precisa ter representantes de todos os partidos. Isso poderia ser uma ferramenta política para Theresa May fazer parecer que está ouvindo todos os lados. A ideia não está sendo rejeitada, mas tampouco encorajada no governo. E quem está lá dentro sabe como projetos assim podem se mostrar inúteis.

Já existe, por exemplo, a comissão para discutir a situação do Brexit entre as quatro nações que fazem parte do Reino Unido (Inglaterra, País de Gales, Irlanda do Norte e Escócia). Algumas pessoas próximas desse processo garantem que ele não avançou muito até agora. E anos de discussão em uma comissão para debater o NHS (sistema britânico de saúde pública, equivalente ao SUS) também não foram efetivos.

Theresa May não é uma pessoa que confia facilmente nos outros. Na verdade, não seria muito do estilo dela dialogar com cada partido de maneira formal - e, mais do que isso, não está claro se as lideranças trabalhistas, de oposição, iriam querer esse tipo de aproximação com ela.

Mas a realidade dos números do Parlamento mostra que ela é forçada a levar em consideração todas as opiniões, ou seu governo irá cair. Não há dúvidas de que haverá discussões sobre como será feito o Brexit e sobre se um novo processo deveria começar ou não. Parece provável que agora governo e oposição passem a se conhecer muito melhor.

Mas trabalhar junto com outros partidos significará para May "cortar suas próprias asas" - e é importante lembrar que ela não é só vulnerável para a oposição, mas também para seu próprio lado.

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