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Brexit: Como uma eventual saída sem acordo do Reino Unido da UE poderia custar até 10 mil empregos ao Brasil

Saída do Reino Unido da UE sem acordo afetaria sobretudo exportações do setor agrícola no Brasil

Renata Moura - @RenataMS - Da BBC News Brasil em Londres

2019-04-07T07:26:07

07/04/2019 07h26

Estudo do Instituto Halle de Pesquisa Econômica calcula que quase 10 mil trabalhadores em território brasileiro poderiam ser afetados em dezenas de setores ligados às exportações, mas principalmente na agricultura.

A possível saída do Reino Unido da União Europeia (UE) sem um acordo - o chamado hard Brexit - significaria "um caos" para a economia global, na visão de analistas, e o Brasil poderia sentir esse impacto, em um primeiro momento, "no bolso" e no mercado de trabalho.

Um estudo do Instituto Halle de Pesquisa Econômica (IWH), da Alemanha, que considera o cenário em 43 países, calcula que quase 10 mil trabalhadores em território brasileiro poderiam ser afetados em dezenas de setores ligados às exportações, mas principalmente na agricultura, atividade em que o país se destaca como maior fornecedor da UE.

Internacionalmente, há previsão de que o hard Brexit afete 600 mil empregos, com um baque maior na Alemanha. Sozinho, o país teria aproximadamente 100 mil vagas "em risco", a maioria em funções ligadas à produção e comércio na indústria automotiva. Países como China, França, Polônia e Itália, seriam, nessa ordem, os outros quatro da lista mais afetados.

No caso do Brasil, os efeitos seriam indiretos.

"Mais de 5 mil dos 10 mil empregos estariam em risco na agricultura brasileira. Outras atividades sentiriam menos", diz em entrevista à BBC News Brasil Oliver Holtemöller, chefe do departamento de macroeconomia e vice-presidente do instituto, um think tank membro da Associação Leibniz, que reúne institutos de pesquisa alemães de diversos ramos de estudo.

No entanto, especialistas ressalvam que também poderiam haver oportunidades para o Brasil em possíveis negociações individuais com o Reino Unido.

O Halle foi fundado em 1992 por um acordo entre o governo da Alemanha e o Estado federal da Saxônia-Anhalt para a realização de pesquisas econômicas empíricas, institucionais e para terceiros, nas áreas de dinâmica e estabilidade macroeconômica, instituições e normas sociais, produtividade, inovação, estabilidade financeira e regulação.

Holtemöller, um dos autores do estudo sobre os potenciais efeitos de um hard Brexit no mercado de trabalho internacional, explica que o cenário turbulento é previsto diante da perspectiva de o Brexit reduzir exportações de países da União Europeia para o Reino Unido em um percentual que estima em 25%. A queda ocorreria caso a saída seja efetivada sem o chamado "acordo de retirada" - que o governo britânico negociou com os líderes da União Europeia, mas que já foi rejeitado três vezes pelo Parlamento.

Para estimar os impactos, por país e indústria, o instituto construiu coeficientes que indicam quantas pessoas empregadas são necessárias para produzir nas unidades de produção, baseando seus cálculos em informações extraídas do Banco de Dados Mundial de Insumo-Produto (WIOD, da sigla em inglês).

Mas o que é Brexit e em que pé ele está?

Brexit é uma abreviação para "British exit" ("saída britânica", na tradução literal para o português) e é o termo mais comumente usado quando se fala sobre a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia.

Ele foi aprovado em um referendo em 23 de junho de 2016, quando os britânicos foram perguntados se o Reino Unido deveria permanecer ou deixar a União Europeia. A maioria - 52% contra 48% - decidiu que o país deveria deixar o bloco. Mas a saída não aconteceu de imediato e acabou virando um processo cheio de incertezas.

Diante de impasses envolvendo o acordo que prevê como seria essa retirada, a probabilidade de um não-acordo, ou hard Brexit, segundo analistas, só cresce. A data do Brexit em si também é incerta. Originalmente, estava marcado para 29 de março. O prazo acabou adiado para 12 de abril com possibilidade de novas mudanças.

Nesta sexta-feira, a primeira-ministra britânica, Theresa May, pediu oficialmente uma nova prorrogação, desta vez para 30 de junho. No entanto, a editora da BBC na Europa, Katya Adler, foi informada por uma fonte na UE de que o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, vai propor uma extensão "flexível" de 12 meses, com a opção de abreviar este prazo.

O pedido de May foi feito em meio a tentativas de chegar a um entendimento com a oposição para destravar o caminho de saída do bloco e precisa ser aprovado por unanimidade pelos líderes da União Europeia, na próxima quarta-feira, 10 de abril.

Ela propôs que, se os parlamentares britânicos aprovarem um acordo a tempo, o Reino Unido saia do bloco antes das eleições para o Parlamento Europeu, que terão início em 23 de maio. Mas afirmou que o país se preparará para participar dessas eleições caso nenhum acordo seja aprovado até lá.

Efeitos indiretos de um não-acordo

Em um horizonte em que o Brexit ocorra sem esse acordo, o Instituto Halle analisa que os produtos da União Europeia passariam a ser tarifados nas negociações com o Reino Unido, o que os deixaria mais caros e reduziria o apetite britânico para consumi-los.

Os efeitos disso, afirma, se alastrariam pela cadeia produtiva que abastece esse mercado e acabariam chegando de forma "indireta" a vários países, inclusive ao Brasil.

"Os efeitos não estão relacionados às exportações brasileiras para o Reino Unido (que não foram objeto do estudo), mas a insumos intermediários que as empresas brasileiras entregam a exportadoras de produtos da UE para o Reino Unido", disse Holtemöller.

"O setor alemão de fabricação de produtos alimentícios, por exemplo, exportaria menos para o Reino Unido e, portanto, também importaria menos insumos intermediários do setor agrícola do Brasil". O impacto é visto num horizonte de curto prazo.

A longo prazo a expectativa é que "as empresas possam se ajustar à nova situação".

Retração

Enquanto essa acomodação não chegasse, porém, uma vez reduzidas as exportações para o bloco, as empresas atingidas reduziriam suas áreas de produção, demitiriam pessoal ou diminuiriam seus horários de trabalho, segundo projeções de Holtemöller.

"Existem também outras possibilidades. As empresas podem reduzir os preços, o que pode levar a lucros menores ou a aumentos salariais mais baixos."

O Departamento de Inteligência e Competitividade da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA) confirmou em nota à BBC News Brasil - sem estimar possíveis impactos no mercado de trabalho - que "uma saída não negociada do Reino Unido da União Europeia implicaria, no curto prazo, em maior custo de aquisição destas mercadorias pelas empresas do Reino Unido, com impactos financeiros negativos para as vendas de alimentos do Brasil".

"Essa dificuldade", segundo a associação, poderia ser superada por um futuro acordo comercial entre o Brasil e o Reino Unido. "Todavia este processo demanda tempo, e também está sujeito a imprevistos".

Qual é a importância da UE e do Reino Unido para o comércio do Brasil?

De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), a União Europeia e a Europa (bloco que considera a UE, a Rússia e outros países) detêm juntas o posto de segundo principal destino das exportações brasileiras hoje.

A fatia que abocanham das exportações é de aproximadamente 28% e segue de perto a da Ásia - para quem perderam a liderança a partir de 2017.

Excluindo o Oriente Médio, o chamado bloco Ásia compra atualmente 30% do que o Brasil vende lá fora.

Mas a força do comércio Brasil-UE resiste e é ressaltada pela própria União Europeia, que mantém uma página dizendo que o Brasil é o seu 10º maior parceiro comercial e também seu maior fornecedor de produtos agrícolas.

A lista do que compra inclui, por exemplo, carnes, soja, café, milho, algodão, frutas, sucos e outros subprodutos.

Isoladamente, o Reino Unido também é um parceiro importante para diversos setores brasileiros, incluindo ramos do setor agrícola e da indústria de alimentos.

Dados do MDIC levantados pela BBC News Brasil mostram que a região - que engloba Inglaterra, País de Gales, Irlanda do Norte e Escócia - é a 17º principal compradora internacional dos produtos brasileiros, em meio a 253 parceiros.

Dentro da União Europeia, é a sexta mais importante, atrás de Holanda, Alemanha, Espanha, Itália e Bélgica.

Só no ano passado, as exportações totais do Brasil para o mercado britânico alcançaram US$ 3 bilhões.

A força dos bens intermediários

Um levantamento do Departamento de Inteligência e Competitividade da ABIA, realizado a pedido da BBC News Brasil, mostra que, só no ano passado, as exportações de alimentos in natura e de alimentos industrializados do Brasil para os britânicos alcançaram US$ 859,7 milhões - ou seja, 28,65% do total de US$ 3 bi negociados com esse mercado no período.

"Deste montante, mais de dois terços podem ser classificados como bens intermediários, bens manufaturados ou matérias-primas empregados na produção de outros bens intermediários ou de produtos finais", diz a associação, acrescentando que "as cadeias produtivas de valor britânicas, inclusive as indústrias de alimentos e bebidas, dependem fortemente de matérias-primas importadas, sendo o Brasil um de seus principais fornecedores."

Do ponto de vista global, o Instituto Halle destaca que "tanto para bens intermediários quanto para uso final, a UE é o parceiro comercial quantitativamente mais importante do Reino Unido".

E o acordo do Brexit?

O acordo de retirada do Reino Unido do bloco foi negociado entre a primeira-ministra, Theresa May, e os países remanescentes em 25 de novembro de 2018.

O documento estabelece que a relação comercial de produtos entre as duas partes deve ser o mais próxima possível da atual, viabilizando a facilidade de negociação.

"Isto significa uma área de livre comércio de mercadorias", explica o Instituto Halle no material de divulgação do estudo.

Em entrevista à BBC News Brasil, o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP), Kai Enno Lehmann, complementa que "com um possível acordo começaria um período de transição e durante esse período as regras da União Europeia continuariam se aplicando ao Reino Unido".

Já no caso de não acordo, "no minuto em que o Reino Unido sair da União Europeia vai perder qualquer acordo que a União Europeia tenha com outro país. Todos os acordos que regem de um lado a relação entre Reino Unido e União Europeia e, de outro, a da União Europeia com o resto do mundo não teriam mais validade".

A situação do Reino Unido nesse caso, segundo o professor, seria "dramática" economicamente.

"Potencial caos", mas também "oportunidades"

"O problema com uma saída abrupta seria o potencial caos que se criaria. O Reino Unido simplesmente perderia do dia para a noite a base do seu comércio mundial, teria que renegociar seus acordos individualmente", explica Lehmann. "O impacto seria global simplesmente porque o Reino Unido é uma das maiores economias da União Europeia e do mundo".

Com relação ao Brasil, como não existe um acordo de livre comércio vigente - mas sim em negociação - entre o Mercosul e a União Europeia, a repercussão da saída do Reino Unido seria menos intensa do que em outros mercados, na avaliação dele, e também poderia haver um lado positivo.

"Sem esse acordo vai ter impacto? Não há dúvida. Vai ser uma coisa negativa? Com certeza também. Uma ruptura brusca seria ruim para todos os estados membros da UE, embora o impacto seja muito pior para o Reino Unido. A economia britânica sofreria bastante e isso teria impacto em todos os seus parceiros comerciais, inclusive o Brasil", diz o professor, observando, porém, que como o Reino Unido "ficaria muito frágil e com menor poder de barganha", poderia haver vantagens para o Brasil em possíveis negociações individuais, mas não no curto prazo.

"Para o Brasil e vários setores as oportunidades são grandes, caso o país assuma um pensamento estratégico e estabeleça o que quer do Reino Unido e de um acordo de livre comércio. Se eu fosse representante de um setor estratégico faria muita pressão no governo (para assumir essa postura) e tentar se aproveitar dessa situação."

O presidente da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), Luiz Roberto Barcelos, faz coro. Segundo ele, os produtores do setor esperam, em vez de queda com o Brexit, impulsionar as vendas para o Reino Unido, para onde seguem atualmente, por exemplo, 26% de todo o melão que o Brasil exporta.

A fruta é a que os britânicos mais importam dos produtores brasileiros, mas uvas, mangas, melancias e limões também estão na lista.

"A expectativa é buscar um acordo nos moldes do que estamos negociando com a comunidade europeia e tentar reduzir o imposto de importação, que hoje é de 8,8%, para zero", diz Barcelos. "O percentual vai caindo ao longo de 10 anos até zerar".

"Acordo crucial"

Lehmann, da USP, diz que apesar das possíveis oportunidades que um hard Brexit pode trazer, um acordo seria crucial, uma vez que "o processo de saída do país do bloco seria ordenado".

Holtemöller também afirmou que "no caso de um acordo que implique o livre comércio entre UE e o Reino Unido, os efeitos sobre o emprego seriam muito menores".

"No entanto, sem um acordo formal, se aplicariam tarifas nas transações entre o Reino Unido e a UE. Carros e peças de automóveis, por exemplo, seriam tributados em 10%. As tarifas agrícolas são ainda maiores", prevê o instituto em nota para apresentação do estudo.

Em um texto publicado no site, em que também analisa os dados, o economista ressalta que "um Brexit sem acordo desestabilizaria as cadeias globais de valor (ou seja, o conjunto de atividades necessárias para produzir e entregar o produto ao consumidor final" e que "é por isso que a retirada desordenada da Grã-Bretanha da UE tem o potencial de causar uma perda significativa de riqueza".

Do ponto de vista econômico, defende, "é crucial que um acordo ainda possa ser alcançado".


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