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Como um cartel de drogas paralisou parte da Colômbia

O exército está nas ruas de algumas cidades colombianas após o toque de recolher - Getty Images
O exército está nas ruas de algumas cidades colombianas após o toque de recolher Imagem: Getty Images

Carlos Serrano (@carliserrano) - BBC News Mundo

11/05/2022 21h13Atualizada em 11/05/2022 21h13

A extradição de Dairo Antonio Úsuga, conhecido como "Otoniel", o homem mais procurado da Colômbia, desencadeou uma resposta imediata do Clã do Golfo, a organização criminosa comandada por ele.

No dia 5 de maio, o Clã do Golfo, também conhecido como Autodefesa Gaitanista da Colômbia (AGC) fez circular um panfleto no qual decretou "4 dias de paralisação armada ".

O panfleto dizia que estava proibido "abrir negócios de qualquer natureza" e "se movimentar através de qualquer tipo de transporte".

A declaração acabava com a ameaça de haver "consequências desfavoráveis" para quem não cumprir essas medidas.

Segundo o Clã do Golfo, o toque de recolher estava marcado para terminar à meia-noite da última segunda-feira (09/05).

A paralisação foi imposta depois que Otoniel foi extraditado para os Estados Unidos na última quarta-feira onde enfrenta um processo na Justiça local.

Otoniel, além de poderoso narcotraficante e chefe do temido Clã del Golfo, é acusado de ser o autor de massacres, expulsões, sequestros e atos de pedofilia.

Esta não é a primeira vez que a Colômbia enfrenta um toque de recolher ordenado por um grupo armado ilegal, mas, segundo analistas, há novas características nessa ação mais recente.

Veja alguns pontos-chave para entender a atual situação.

1. O que é uma paralisação armada?

Na Colômbia, as "paralisações armadas" se referem a ações de grupos ilegais, formados por guerrilheiros, paramilitares ou narcotraficantes, com ataques a civis e às forças armadas, além do bloqueio de estradas, da restrição à circulação de pessoas e veículos, de ameaças que forçam o fechamento de estabelecimentos comerciais e da suspensão das aulas em colégios e universidades.

Nessa última ação, o Clã do Golfo ameaçou atacar quem viajava pelas estradas de vários Departamentos (Estados) do país, incluindo caravanas escoltadas pelo exército.

Os guerrilheiros do Exército de Liberação Nacional (ELN) anunciaram várias dessas ações, a mais recente em fevereiro passado.

No entanto, nenhuma dessas paralisações no passado afetou tantas regiões ao mesmo tempo, segundo a agência de notícias EFE.

Como explica o portal InSight Crime, "a paralisação armada tem sido uma estratégia comum dos atores armados na Colômbia como uma demonstração de poder em resposta ao assassinato ou a captura de seus chefes quando enfrentam operações do exército ou às vésperas de uma eleição".

Caminhão incinerado na Colômbia durante uma paralisação armada - Getty Images - Getty Images
Caminhão incinerado na Colômbia durante uma paralisação armada
Imagem: Getty Images

2. Como surgiu esse novo toque de recolher?

O Clã do Golfo anunciou a paralisação armada em retaliação à extradição para os EUA de seu principal líder, Dairo Antonio Úsuga.

De acordo com um relatório da Polícia Nacional da Colômbia e da Fundação Paz e Reconciliação, a organização criminosa liderada por Otoniel está presente em 211 dos 1.103 municípios do país.

Estima-se que mais de mil homens atuem sob sua liderança, a maioria ex-integrantes da extinta guerrilha do Exército Popular de Libertação (EPL) e das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), um grupo paramilitar de direita que encerrou suas atividades em 2006.

O próprio Otoniel fazia parte da EPL e, quando esse grupo guerrilheiro se desmobilizou em 1991, decidiu mudar de lado: passou a integrar as AUC, que ocupavam a região de Urabá, no noroeste da Colômbia.

3. Qual o impacto do novo toque de recolher?

Na segunda-feira (09/05) a Jurisdição Especial para a Paz (JEP), um órgão da Justiça colombiana, informou que 11 dos 23 departamentos do país, em um total de 178 municípios, foram afetados por ações violentas.

Foram registradas várias mortes, embora haja divergência sobre os números.

Segundo o órgão, morreram 24 civis e dois membros das forças de segurança. Foram bloqueadas 26 estradas, 138 comunidades ficaram confinadas e houve 22 ataques às forças de segurança.

No entanto, o Ministério da Defesa informou seis mortes: três civis, um policial e dois soldados.

180 veículos também foram atacados, a maioria deles incinerados.

Uma das áreas mais afetadas é a cidade de Montería, no Departamento de Córdoba, onde lojas, escolas e universidades tiveram que permanecer fechadas.

No sábado, a ouvidoria local informou que 162 pacientes em Córdoba não puderam fazer tratamento de diálise.

"A vida dessas pessoas corre perigo se não receberem esses insumos logo", alertou o ouvidor, Carlos Camargo Assis.

O Terminal de Transportes de Montería informou que no sábado a circulação de ônibus diminuiu mais de 90%.

Na cidade também foi cancelado um jogo de futebol do campeonato nacional. O Deportivo Medellín, time visitante, não viajou para a partida porque não poderia "garantir a segurança da delegação".

No Departamento de Antioquia, onde fica Medellín, a segunda maior cidade do país, houve falta de abastecimento de gás em vários municípios, afetando 77 mil pessoas.

Outros Departamentos que aparecem entre os mais afetados pelas ações violentas são Sucre, Bolívar, La Guajira, Atlântico e Chocó.

A presidente-executiva da Federação Colombiana de Transportadores Rodoviários de Carga (Colfecar), Nidia Hernández, informou que o toque de recolher gerou perdas equivalentes a US$ 3,2 milhões (R$ 16,4 milhões).

Segundo o Ministério da Defesa, na última segunda 93 municípios registraram abertura comercial inferior a 50%.

Pichação com referência ao Clã do Golfo, também conhecido como Autodefesa Gaitanista da Colômbia (AGC) - Getty Images - Getty Images
Pichação com referência ao Clã do Golfo, também conhecido como Autodefesa Gaitanista da Colômbia (AGC)
Imagem: Getty Images

4. O que torna este toque de recolher diferente

Quando Otoniel foi capturado em outubro de 2021, o presidente colombiano Iván Duque afirmou que esse golpe marcou "o fim do Clã do Golfo".

Com esse toque de recolher, porém, o grupo mostrou que ainda tem capacidade de causar problemas.

Essa paralisação é a maior do Clã do Golfo nos últimos seis anos, segundo o portal La Silla Vacía.

"O toque de recolher mostra que o Clã do Golfo tem o poder criminoso de paralisar departamentos inteiros", diz uma análise do portal.

Sergio Guzmán, diretor da Colombia Risk Analysis, uma consultoria de risco político e de segurança que opera na Colômbia, vê dois outros fatores específicos nessa paralisação armada.

"Já vimos que quando um capo [chefe] é capturado, é lançado um 'plano de pistola': policiais são mortos, estações são atacadas. Mas esse ataque foi contra a população civil de maneira mais ampla", disse Guzmán à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

"Vimos isso com o ELN, mas não necessariamente com as Autodefesas Gaitanistas."

"É preocupante que um grupo armado ilegal tenha a capacidade e a intenção de realizar uma ação armada dessa magnitude. Para isso, é necessária uma infraestrutura política e militar bastante sofisticada."

Laura Ardila, jornalista do La Silla Vacía, descreveu esse toque de recolher como "sem precedentes".

"Essa paralisação é inédita porque as AGC chegam pela primeira vez a áreas que se recuperaram da violência ou em que atos de violência não ocorriam há muitos anos", disse Ardila à BBC.

"Eles demonstraram uma capacidade de expansão no controle e exercício do medo."

Da mesma forma, Guzmán chama a atenção para o fato de que a paralisação atingiu áreas menos periféricas.

"Eles estão se aproximando perigosamente dos centros urbanos. É significativo que em uma cidade de importância econômica como Montería os negócios fecharam. É uma cidade bem conectada à infraestrutura nacional."

5. Como o governo reagiu (e por que foi criticado)

Na segunda-feira, o Ministério da Defesa divulgou um balanço das ações da força pública para enfrentar as consequências da paralisação armada.

O ministério menciona que "180 membros do Clã do Golfo foram capturados, neutralizados e levados à Justiça".

Também informou que mobilizou 19.729 militares e foram realizados sobrevoos, incursões, patrulhas, escoltas policiais e entrega de alimentos.

No domingo, o presidente Duque ofereceu uma recompensa equivalente a US$ 1,2 milhão (R$ 6,1 milhões) para quem fornecer informações que levem à captura de outros membros do Clã do Golfo.

"Que fique claro: ou eles se entregam ou vão acabar como Otoniel", alertou o presidente.

"Continuaremos a quebrar, permanentemente, toda a cadeia do Clã do Golfo."

Alguns setores, no entanto, expressaram suas críticas à reação do governo.

"É muito fácil ser corajoso na Casa de Nariño [sede governo colombiano] com 300 policiais e escoltas de proteção, mas é hora de visitar as regiões onde estamos sofrendo, passando fome e não há como retirar os feridos e doentes", disse no sábado o prefeito de Frontino (Antioquia), Jorge Hugo Elejalde, em declarações registradas pela EFE.

Em entrevista à emissora W Radio na segunda-feira, o governador de Antioquia, Aníbal Gaviria, disse que "o controle territorial do Estado colombiano há quatro ou cinco décadas é cheio de lacunas, com deficiências, e essa situação deu força à paralisação".

Por sua vez, a análise de La Silla Vacía sustenta que, apesar da extradição de Otoniel, a Colômbia de Duque "continua incapaz de garantir medidas básicas de segurança, como a livre circulação em vastas áreas do país".

O analista Sergio Guzmán diz que a reação do governo não foi oportuna.

"Vejo que as autoridades não reagiram com todo o peso da lei e a rapidez esperada", diz o analista.

"O governo do presidente Duque saiu no meio da paralisação para a posse do presidente da Costa Rica e não apareceu em Montería."

"Sem falar nas forças militares que, com a paralisação decretada na quinta, só se mobilizaram no domingo. Isso é preocupante porque parecem não dar o peso que merece uma ação que paralisou, ameaçou ou sitiou uma grande parte da população do país."

Segundo Guzmán, o toque de recolher é um sinal de que a situação de segurança no país está "erodindo" e que o governo está perdendo o monopólio do uso da força.

"Que o governo não tome isso como uma séria ameaça à existência da nação parece que é subestimar a ameaça que isso representa", conclui o analista.

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