Caio Blinder: Apoio americano a Abbas pode dar munição ao Hamas

da BBC, em Londres

O governo Bush reluta em assumir um ativo papel de mediação no conflito israelo-palestino, de acordo com uma das recomendações da comissão bipartidária que divulgou no começo do mês seu relatório para uma mudança de curso da política americana no Oriente Médio.

Washington, no entanto, está abertamente a favor do Fatah do presidente palestino Mahmoud Abbas no confronto contra o grupo islâmico Hamas que pode desembocar em uma guerra civil.

Este ativismo não se concretizou quando Abbas mais precisava do apoio americano em incipientes negociações de paz com Israel. A fraqueza diplomática do presidente palestino foi um dos fatores que contribuíram para a vitória do Hamas nas eleições legislativas de janeiro.

Ironicamente a votação foi estimulada pelo governo Bush como parte de sua campanha para democratizar o Oriente Médio.

O resultado frustrou imensamente a Casa Branca, que desencadeou as pressões na comunidade internacional para o corte de fundos para o governo palestino, chefiado pelo Hamas, diante da recusa do grupo para reconhecer explicitamente Israel, renunciar formalmente ao terrorismo e endossar prévios acordos de paz.

Agora os americanos respaldam a iniciativa de Abbas para antecipar eleições, o que o Hamas considera golpismo e mais uma prova de que o presidente palestino está a reboque de Bush e de Israel.

Moderados e extremistas

Para Washington, o conflito entre Fatah e Hamas se insere em um confronto mais amplo no Oriente Médio entre moderados e extremistas. A resposta específica é prática, com o governo Bush buscando uma rápida infusão de dinheiro do Congresso americano e de países aliados na região - para reforçar as forças de segurança de Abbas.

Para os americanos isto é mais do que necessário e urgente face ao fundos que o Hamas está recebendo dos iranianos. No final das contas, a frente palestina é mais um campo da batalha entre Washington e Teerã no Oriente Médio.

O problema é que esta infusão de dinheiro tanto de americanos como de iranianos, ao invés de esforços internacionais para a cessação de hostilidades, é mais lenha na fogueira palestina.

A tensão é agravada pela ausência de um único e efetivo centro de poder - o Hamas é mais forte em Gaza e o Fatah domina na Cisjordânia - e pela presença de milícias que, quando muito, acatam as ordens de facções e não de uma autoridade nacional.

O anúncio de Abbas de que irá convocar eleições pode ser mais um lance de um tortuoso processo de negociações para a formação de um governo de unidade nacional.

Há pessimismo de que a costura de um acordo seja possível. Mouin Rabbani, analista do International Crisis Group, avalia que ainda interessa ao Hamas negociar com Abbas, mas de uma posição de força. Rabbani adverte que o apoio dos americanos (secundados pelos britânicos) a Abbas poderá reforçar o Hamas.

O corte de fundos internacionais e a ineficácia administrativa do Hamas desde que assumiu o governo contribuíram para a perda de apoio popular. No entanto, a percepção de que o Fatah de Mahmoud Abbas (que tampouco se revelou competente à frente da administração em Gaza e Cisjordânia) segue a agenda dos EUA e Israel pode dar munição política o Hamas.

No empenho para sufocar o Hamas e na relutância para dar um vigoroso apoio a Abbas em negociações com o governo do primeiro-ministro Ehud Olmert, o governo Bush pode dificultar ainda mais a pacificação do conflito entre os palestinos e reforçar a intransigência do grupo islâmico em relação a Israel.


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