Papai Noel manda brasa!

Ivan Lessa
da BBC, em Londres

Algumas pessoas ganharam o suéter que tanto queriam. Outras, colônia. O garotão ali, como se comportou bem, levou o videogame com que tanto sonhou.

Mas e o Stephen Tame, do condado de Essex, aqui no Reino Unido, que estava desde 2002 disputando na Justiça a desgraça que lhe impôs não o destino mas seus empregadores?

Em janeiro de 2002, logo depois do Natal, Stephen, pedreiro por profissão, levou um tombo feio num armazém de seus empregadores, a Professional Cycling Marketing, e após 53 dias em estado de coma levou dois anos para se recuperar.

Logo depois de receber alta, Stephen, dado como novo em folha, começou a notar em si próprio algumas mudanças. Os mais próximos e os não tão próximos a Stephen também notaram.

E não era só a dificuldade em se concentrar e a fala por vezes atrapalhada. Stephen começou a deixar patente que perdera completamente suas inibições sexuais diante do sexo oposto ou mesmo diante do sexo posto.

Deu para não fazer outra coisa a não ser ficar vendo vídeos e DVDs pornográficos. Não parava de ligar para aqueles telefones onde, mediante quantia estipulada, se conversa livre e exclusivamente sobre sexo, e nos termos mais baixos.

Em companhia mista, diante de senhoras e senhoritas de seu conhecimento, ou mesmo desconhecidas, Stephen passou a ser a epítome da inconveniência: só falava em safarnagens.

Interrompia incessantemente qualquer conversa, não importasse de quem, com disparates, sempre ligados a sexo.

Os rugidos do prazer

Stephen, não bastasse o verbo solto, deu asas também à sua libido: qual Cupido endoudecido começou um caso sério para valer com uma prostituta que visitara, numa de suas muitas incursões no reino de Eros: uma mulher de 57 anos, bem mais velha que ele pois, não se sabe se atraente ou não.

Isso não combinava de jeito nenhum com o velho Stephen Tame a que amigos e parentes estavam acostumados.

A perigosa ligação foi particularmente chocante e desagradável para a sra. Stephen Tame, Sarah, de 29 anos, que cansou de pedir ao marido que parasse com aquelas “bobagens” – possível que ela, diplomática e compreensiva, assim tenha se referido à nova personalidade solta pelo condado por Stephen.

Ninguém sabe como era o procedimento de Stephen em casa, antes ou mesmo depois de sua mudança, e é melhor cobrir com um discreto véu essa parte dos sensuais acontecimentos, ou aflições, segundo o agora incoercível cônjuge.

Sabemos é que Sarah foi morar com os pais, como é o costume apropriado nesses casos.

Mais: viu-se às voltas com uma chatíssima depressão e continua até hoje a necessitar de auxílio profissional, um auxílio profissional diferente do que seu esposo foi procurar, mas um auxílio profissional dos mais caros, esclareçamos, bem mais caro do que os préstimos de uma prostituta de 57 anos do condado de Essex, diga-se sem qualquer desabono para nenhum dos envolvidos.

Os sininhos da justiça

Diante do desandar de sua libido Stephen Tame fez o que todos nós faríamos em seu lugar: processou os patrões. Pelo acidente que lhe deixou impaciente e agressivo na arena onde deveria reinar, serena e coberta de diáfanos véus, Vênus.

Agora, pouco dias antes do Natal, depois desses anos todos de tribunal em tribunal, Stephen teve ganho de causa. Um juiz lhe deu toda razão e condenou a firma responsável pelo lúbrico trambolhão a indenizar o ex-empregado (claro que ele deixou de quebrar pedra. Lá teria tempo para isso?) em perto de 6 milhões de dólares.

Por mais feio que seja o caso, em seu amplo sentido, convenhamos: não deixa de ser um final quase que feliz, até onde se pode saber ou adivinhar.

Pena que nem Stephen nem Sarah estivessem no tribunal para ouvir a decisão. Alguns tablóides sensacionalistas sugeriram qual poderia ser o paradeiro do ex- (ex- mesmo depois dos milhões?) casal. Não é do feitio deste espaço especular ou repetir canalhices.

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