Plano de Bush reforça comparações de Iraque com Vietnã

da BBC, em Londres

O plano que o presidente George W. Bush anuncia nesta quarta para o Iraque – provavelmente incluindo o envio de mais 20 mil soldados americanos ao país – tem ecos do Vietnã, com a crença de que um esforço extra deve dar conta do recado.

A estratégia também tem várias contradições entre a esperança por resultados rápidos e a evolução gradativa pregada pelas novas táticas desenvolvidas pelo Exército americano para conter a insurgência.

Essas táticas foram delineadas pelo general David Petraeus, nome favorito para assumir as forças americanas no Iraque.

A sugestão da mídia de que o reforço das tropas é uma medida rápida e temporária também contraria os conceitos do general.

Repetição

A história não se repete totalmente e assim, o que aconteceu no Vietnã talvez não aconteça no Iraque. Contudo, há paralelos interessantes entre as duas guerras.

Primeiro, existe a consciência de Washington de que a atual política não está tendo resultados. Isso já foi admitido pelo próprio presidente Bush.

Segundo, existe uma tentativa de entrega da responsabilidade para o governo local durante a guerra e não depois dela – o que aconteceu no Vietnã com a política da “vietnamização”.

Em terceiro lugar, a administração americana acredita piamente que um novo envio de tropas faz parte da resposta adequada.

Quarto: opositores da guerra estão convencidos de que a tarefa não pode ser cumprida e que os Estados Unidos devem se desvencilhar da missão o quanto antes – a opinião pública também é comum aos dois conflitos.

Em quinto lugar, nos tempos do Vietnã, o presidente também solicitou a consultoria de um grupo externo. Na ocasião. Lyndon Johnson buscou conselhos dos chamados Wise Men ("Os Seis Sábios") que, como o Grupo de Estudos do Iraque, também aconselhou uma retirada militar.

Os “Seis Sábios” eram um grupo de notáveis, formado durante a administração do presidente Harry Truman, para desenvolver uma política para conter o avanço do comunismo no mundo.

O fator Bush

Contudo, também há diferenças consideráveis. A operação no Vietnã é muito maior. Os Estados Unidos tinham enviado mais de 500 mil soldados. A luta era contra o Exército norte-vietnamita e contra os insurgentes vietcongs.

Também há o fator Bush. Ele já está indo contra as sugestões feitas pelo Grupo de Estudos do Iraque, que entende que uma retirada é necessária o mais rápido possível. Contudo, Bush parece cada vez mais convencido a fazer a rota inversa. Ele está determinado a não ter um segundo Vietnã.

Se os líderes americanos estavam convencidos de que o comunismo tomaria conta do sul da Ásia caso o Vietnã fosse conquistado, Bush tem mais certeza ainda de que o fundamentalismo islâmico vai ganhar terreno com a queda do Iraque.

No livro das memórias do presidente Lyndon Johnson, The Vantage Point, pode-se encontrar uma leitura bastante instrutiva, onde se percebe o conflito entre confiança e dúvida e como as opções foram ficando cada vez mais limitadas.

Ofensiva do Tet

O ano-chave para os Estados Unidos na guerra do Vietnã provavelmente foi em 1968, quando, em janeiro, o Exército norte-vietnamita desfechou a Ofensiva do Tet.

A ofensiva do Tet foi uma manobra lançada pelo Exército norte-vietnamita e pela Frente Nacional de Libertação do Vietnã no final de janeiro de 1968. A operação surpreendeu por ter sido marcada para o dia do Tet (o Ano Novo vietnamita) e trazer um ataque conjunto em várias cidades do sul do país, especialmente a capital Saigon.

Apesar da ofensiva ter sido rechaçada pelos americanos, o vice-presidente Hubert Humphrey disse a Johnson: “O Tet realmente nos derrubou”.

As memórias de Johnson nos lembram do falso otimismo que permeava a administração da época.

À época, o general William Westmoreland, comandante das forças americanas no Vietnã, pediu mais tropas e as conseguiu. Johnson observou que o general “acreditava que aproveitar a oportunidade poderia encurtar a guerra”.

Johnson menciona as suas próprias esperanças de que o Vietnã do Sul pudesse fazer mais por si mesmo. “Eu queria que os sul-vietnamitas tivessem uma responsabilidade mais pesada na luta pelo seu país”. Contudo, ele não estava seguro sobre o futuro e pouco depois anunciou que não disputaria a reeleição.

Hora de sair

“O general Creighton Abrams [assistente de Westmoreland, mas que depois assumiria o comando das tropas] me deu um relatório completo sobre a situação e falando com bastante confiança sobre os avanços do Exército sul-vietnamita”, observou Johnson em 26 de março de 1968.

Johnson temia que os ”Seis Sábios” “estivessem muito influenciados pela cobertura negativa pessimista da imprensa sobre a guerra”.

Só que os ”Seis Sábios” tinham suas próprias razões para a postura pessimista.

O ex-presidente diz no livro que no mesmo dia em que ele recebeu o relatório do general Abrams, Dean Acheson, ex-secretário de Estado, afirmava que “sentia que a tarefa não poderia mais ser cumprida em tempo hábil”. Acheson também teria dito que era preciso fazer a retirada. A maioria dos ”Sábios” concordava.

A história do desenvolvimento do Exército sul-vietnamita, escrita em 1991 pelo brigadeiro-general James Collins, historiador-chefe do Exército americano, delineia a decisão tomada.

“Em 16 de abril [de 1968], o vice-secretário de Defesa ordenou um plano para uma retirada gradual com a entrega da responsabilidade da guerra para as forças sul-vietnamitas”, escreveu Collins. Assim, depois de muitos acontecimentos, os americanos se retirariam em 1973. Em 30 de abril de 1975, os tanques norte-vietnamitas entraram em Saigon (então capital do Vietnã do Sul).

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