General brasileiro diz ser impossível prever saída do Haiti

da BBC, em Londres

O comandante das tropas da ONU no Haiti, o general brasileiro Alberto dos Santos Cruz, afirmou ser impossível prever por quanto será necessária a presença dos militares no país que, quase três anos após a criação da missão, ainda é assolado pela violência.

"É muito difícil fazer uma previsão. Depende das reações que a gente vai encontrar (das gangues armadas nas áreas ainda não controladas)", disse Santos, falando à BBC Brasil por telefone, de Porto Príncipe.

O comandante, que assumiu o posto em janeiro pelo período de um ano, disse ainda que o número de civis mortos nas operações militares, concentradas na favela de Cité Soleil, não é "significativo".

A Minustah (Missão de Estabilização da ONU no Haiti, na sigla em francês), que teve seu mandato estendido nesta quinta-feira, chegou ao país em julho de 2004, logo após a revolta popular que levou à queda do então presidente Jean-Bertrand Aristide.

Com 1,2 mil homens, o Brasil é o país com o maior número de tropas na Minustah.

Leia a seguir trechos da entrevista à BBC Brasil.

BBC Brasil - Qual é o significado da renovação do mandato para o Haiti?

Santos - A renovação significa a oportunidade para a continuação do trabalho da ONU no Haiti. É um trabalho que está sendo feito em benefício da população e logicamente para a estrutura do governo haitiano.

BBC Brasil - Soldados têm conduzido operações como distribuição de água, cuidados médicos, etc. Isso não seria papel dos civis?

Santos - Exatamente. Só que a gente tem que entender o momento em que as coisas acontecem. Quando você tem uma operação militar numa área controlada pelos grupos armados, logo após a operação, as agências ainda não estão em condições de montar esse auxílio. É mais para um auxílio imediato. E logo depois têm de vir as agências, com o seu planejamento de maior porte.

BBC Brasil - Suas tropas têm conduzido grandes operações em Cité Soleil, uma favela considerada de difícil atuação dado o risco de baixas entre civis. Como o senhor tem lidado com isso?

Santos - Em primeiro lugar, tem que haver uma conscientização dos soldados a cerca dos chamados danos colaterais. Além disso, (planejamos) a escolha de horários para que não haja gente inocente na rua. A gente treina o soldado para não atirar em pessoas que não estejam ameaçando ele com arma. Há um grande compromisso de todas as tropas para evitar esse dano colateral. Não tivemos danos colaterais significativos.

BBC Brasil - Na última operação, três pessoas morreram, segundo a ONG Médicos Sem Fronteiras. Eles dizem que tem gente saindo de Cité Soleil.

Santos - Sem dúvida, houve mortes, não sei a identidade desses mortos. São criminosos atirando nos nossos soldados. Recebemos milhares de tiros e respondemos de maneira criteriosa. É normal que alguns civis que ficam próximos à linha de fogo saiam do local, temporariamente, para ficar mais seguro. Mas no outro dia todo mundo já estava retornando.

BBC Brasil - Entre os mortos, havia pelo menos uma civil que, segundo a MSF, teria sobrevivido se tivesse sido socorrida antes. Eles alegam que longas operações dificultam o atendimento aos feridos.

Santos - Em primeiro lugar, todos os criminosos que nos atacam são civis. No caso dessa mulher, eu não sei os detalhes, teria que haver uma investigação. Quanto ao MSF e à Cruz Vermelha, nós interrompemos a operação para eles poderem entrar. Eles sabem muito bem que não colocamos impedimento nenhum para as organizações humanitárias.

BBC Brasil - Por quanto tempo o senhor acha que será necessária a presença dos capacetes azuis no Haiti?

Santos - É muito difícil fazer uma previsão. Depende das reações que a gente vai encontrar nessas áreas que ainda estão com dificuldade de acesso. Você tem a presença militar, mas ainda não tem a presença governamental, de instituições da área da saúde, educação, etc.

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