Análise: Bush e Blair marcham em direções contrárias

da BBC, em Londres

Os aliados velhos de guerra marcham em direções contrárias.

Em Londres, o primeiro-ministro Tony Blair confirmou nesta quarta-feira um cronograma para a retirada parcial de tropas britânicas do Iraque (nos próximos meses, sairão 1,6 mil soldados, em uma redução dos atuais 7,1 mil).

Em Washington, o presidente George W. Bush enfrenta crescente resistência por sua decisão de reforçar o contingente americano, que hoje totaliza cerca de 140 mil soldados. Os britânicos chegaram a ter 40 mil soldados no Iraque.

Existe um esforço dos dois lados do Atlântico para não tratar a decisão de Blair como uma calamidade militar e política. O primeiro-ministro fala em estabilidade relativa em Basra, onde estão postadas as tropas britânicas.

Porta-vozes da Casa Branca assumem um tom positivo, abençoam a decisão britânica e garantem que ela é fruto de uma missão bem-sucedida do aliado número um dos Estados Unidos. É verdade que tudo é relativo.

Como reconheceu o próprio Blair, a xiita Basra não é a multi-sectária Bagdá, onde a escalada de violência justificou a decisão de Bush de mandar mais tropas. Mas também é verdade que condições domésticas (na Grã-Bretanha) impediam Blair de manter seu compromisso iraquiano com os americanos.

Impacto político

O impacto político da decisão de Blair é significativo, o que levou a secretária de Estado Condoleezza Rice a vir a público nesta quarta-feira em Berlim para dizer que a coalizão pró-americana no Iraque segue "intacta".

Rice disse isso em um dia em que, além da confirmação de Blair, a Dinamarca anunciou que vai retirar suas tropas do Iraque em agosto. O país seguinte na fila é a Lituânia.

Em meio a esse tom do governo Bush de que tudo está sob controle, o senador democrata Ted Kennedy alvejou a Casa Branca dizendo que a decisão britânica de retirar tropas é uma "rejeição espetacular" da guerra americana.

Ele lembrou que 16 países retiraram suas tropas do Iraque ou as reduziram de forma expressiva. De fato, é cada vez mais a coalizão de Bush com ele mesmo.

Para a Casa Branca sitiada, e enfrentando um Congresso hostil e uma opinião pública desencantada com a guerra, mais importante do que a retirada parcial de tropas britânicas do Iraque será a retirada absoluta de Tony Blair, talvez já em junho, do comando do seu país.

Munição

Nas guerras pós-11 de setembro, Blair tem sido o leal lugar-tenente de Bush (excessivamente leal, de acordo com os críticos), animador do presidente americano e um eloqüente porta-voz das justificativas para as intervenções militares.

Seja o trabalhista Gordon Brown, seja qualquer outro dirigente britânico, George W. Bush não terá em Londres um parceiro tão fiel e loquaz como Tony Blair.

Em termos mais imediatos, o anúncio britânico é mais munição na ofensiva dentro dos Estados Unidos contra a guerra de Bush e, em particular, sua decisão de despachar 21 mil soldados adicionais para o Iraque.

O anúncio de Blair enfraquece o agressivo argumento de Bush de que fixar um calendário de retirada de tropas envia um sinal equivocado, dando ânimo aos inimigos e enfraquecendo ainda mais o precário governo do primeiro-ministro Nuri al-Maliki.

O próprio Blair, no mês passado, na Câmara dos Comuns, qualificara de irresponsáveis as pressões da oposição para a retirada das tropas britânicas do Iraque em outubro. Um primeiro-ministro em retirada se dobra à realidade. E como será com Bush?

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