Mensagem de Bush corre o risco de não ser ouvida, diz 'FT'

da BBC, em Londres

O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, inicia nesta quinta-feira em São Paulo uma visita de uma semana a países da América Latina para buscar conter a perda de influência americana sobre seu tradicional “quintal”, mas suas promessas correm o risco de “entrar por uma orelha e sair pela outra”, na avaliação de comentário publicado pelo diário econômico britânico Financial Times.

O artigo, assinado pelo editor de América Latina do jornal, Richard Lapper, observa que, seis anos após assumir a presidência e com sua credibilidade em frangalhos, Bush “tenta recuperar o tempo perdido” com sua mais longa visita à região, com passagens por Brasil, Uruguai, Colômbia, Guatemala e México.

“Seu objetivo é restabelecer a confiança nos Estados Unidos em um momento no qual a influência do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, maior opositor de Bush na região e arquiteto da nova filosofia do ‘socialismo do século 21’, está em ascensão”, diz o texto.

Na avaliação do jornal, a mudança de foco “reflete a sensação em Washington de que os Estados Unidos estão perdendo influência em uma região sobre a qual reivindicava domínio desde o início do século 19”.

O artigo observa, porém, que os críticos afirmam que os esforços americanos, com o anúncio de um pacote de ajuda aos países da região, na segunda-feira, “são poucos e vieram tarde demais”.

“Enquanto Chávez e seus aliados cubanos estabeleceram uma rede permanente de clínicas nas áreas pobres da Venezuela e da Bolívia, a resposta dos Estados Unidos dá a sensação de um esforço emergencial sem continuidade”, diz o jornal.

O artigo diz que “tal é a escala da desilusão latino-americana que parece serem necessários muito mais atenção e dinheiro para mudar a maré em favor de Washington”.

O jornal conclui dizendo que a viagem de Bush corre o risco de se transformar num fiasco parecido ao da viagem do então vice-presidente Richard Nixon à região, em 1958, quando sua comitiva foi apedrejada por manifestantes em Caracas.

“Cenário de Hollywood”

A perspectiva da chegada de Bush transformou São Paulo “em um cenário digno de Hollywood” na quarta-feira, segundo reportagem do diário argentino La Nación.

“Tropas do Exército nas ruas, uma frota de helicópteros de guarda, esquadrões de choque e de patrulhagem e franco-atiradores armados com fuzis preparados para acertar uma pessoa a um quilômetro de distância foram parte da nova ‘decoração’ da cidade”, relata o jornal.

A reportagem observa que o esquema de segurança mobiliza 4 mil homens das forças norte-americana e brasileira e que teve até mesmo um sentido ‘estético’, com a derrubada de um barraco que abrigava três famílias a poucos metros do hotel Hilton na zona sul de São Paulo, onde se hospedará Bush.

O jornal diz que a operação de segurança converteria muitas cidades menores em “verdadeiras cidades sitiadas” e que “plantará o caos” em São Paulo, apesar de “se diluir entre os seus 18 milhões de habitantes”.

“Durante mais de 20 horas, os motoristas terão que encontrar vias alternativas para seus trajetos diante do bloqueio de ruas que, para preservar os planos de segurança, não serão divulgados”, observa a reportagem, afirmando que o segredo sobre o itinerário e os horários da visita de Bush visa evitar a possibilidade de um ataque contra ele.

Diplomacia do etanol

Reportagem publicada pelo diário espanhol El Mundo afirma que a viagem de Bush à América Latina caracteriza o etanol como “nova arma diplomática dos Estados Unidos” na região, como “contrapartida à diplomacia do petróleo promovida por Hugo Chávez, inimigo de Washington”.

Segundo o jornal, o irmão do presidente Jeb Bush, ex-governador da Flórida, que estará na comitiva de sua viagem, teria sido “o cérebro” por trás da estratégia de apostar no etanol.

“Em novembro de 2006, quando começavam os preparativos para a viagem presidencial, Jeb se fez convidar para a Casa Branca, onde insistiu no fato de que o desenvolvimento dos biocombustíveis poderia ser a chave para um entendimento com os governantes de Argentina e Brasil”, diz a reportagem.

O jornal observa que a Argentina, apesar de não ter uma produção de etanol desenvolvida como a feita a partir da cana-de-açúcar no Brasil, é um grande exportador de milho, matéria-prima do etanol produzido nos Estados Unidos.

Porém o país acabou excluído da viagem de Bush “e da equação proposta pelo seu irmão” por conta de sua aproximação com Chávez.

“Dadas as circunstâncias, o colosso amazônico passou a ser o único aliado factível com que contaria Washington para contrapor a ameaça do neopopulismo na região”, diz o jornal.

A reportagem afirma, porém, que as propostas que Bush oferecerá ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva “têm dois lados”.

De um lado, a oferta de criar um fundo de US$ 5 bilhões para “desenvolver tecnologias que permitam reduzir os cursos de produção e avançar no processo de adaptação da indústria, sobretudo do parque automobilístico, ao novo combustível”. “A potencialização do combustível verde criaria centenas de milhares de postos de trabalho no Brasil, o sonho dourado de Lula”, diz o jornal.

Por outro lado, porém, Bush não deve atender à principal demanda brasileira, pelo fim das tarifas de importação ao etanol brasileiro, por causa do lobby dos agricultores americanos. “Eles advertiram Bush de que se reduzir um centavo das taxas alfandegárias às importações brasileiras, bloquearão as avenidas de Washington com seus tratores”, diz a reportagem.


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