Chávez deseja ser 'herdeiro natural' de Fidel, diz biógrafo

O anúncio da renúncia do líder cubano Fidel Castro, considerado o principal líder da esquerda latino-americana, poderia abrir espaço para que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, assuma seu papel de "herdeiro" do legado de Castro, segundo analistas.

Na opinião do sociólogo e escritor Alberto Barrera Tyska, esse é o desejo do presidente venezuelano e, a seu ver, Chávez vem trabalhando para alcançar este título há algum tempo.

"Chávez tem desenvolvido uma campanha para se projetar no mundo como o 'filho' de Fidel, como seu herdeiro natural", afirma Barrera, um dos autores da biografia Hugo Chávez sem Uniforme.

No ano passado, Chávez, que pretende implementar um projeto socialista em seu país, admitiu publicamente que considerava a Fidel como um 'pai' e seu 'líder político'.

No entanto, Barrera diz que Fidel tem a legitimidade que, a seu ver, falta a Chávez. "Chávez tem muito dinheiro, mas pouca história. Chávez não derrubou um ditador, não ganhou nenhuma guerra, não se defendeu de nenhuma invasão, não suportou um bloqueio durante anos", afirma.

Novo líder
Para a polarizada sociedade venezuelana, a renúncia de Castro também é motivo de controvérsias.

O jornaleiro Pedro Contreras diz concordar com a decisão de Castro e acreditar que Chávez herdará o lugar de líder da esquerda latino-americana. "Sim, é o herdeiro. Agora Chávez assume a liderança, porque o caminho é o mesmo, é a busca da transformação social de nossos países."

Para o biógrafo Alberto Barrera não é tão simples assim. Ao "herdar naturalmente" o papel de líder na América Latina, essa liderança poderia ser vista como "artificial", devido às diferenças que marcam a história de ambos os chefes de Estado e de seus países.

"No fundo, essa liderança poderia ser vista como artificial. A Venezuela é um caso único no continente. Esta revolução, antes de ser de esquerda, é petroleira", afirma.

Influência de Castro
Já os opositores de Chávez vêem o afastamento do líder cubano como uma possibilidade de distanciamento do ideário cubano em seu país.

Carregando o jornal que traz na manchete a notícia da renúncia do líder cubano, o comerciante Jorge González diz que está contente com a notícia. "Agora Castro deixará de mandar aqui também, porque o Chávez obedece as ordens dele."

O biógrafo de Chávez discorda do argumento de que o presidente venezuelano segue uma cartilha ordenada por Castro, mas afirma que a influência de Fidel foi aumentando paulatinamente, a partir da tentativa frustrada de golpe de Estado de 2002, quando Chávez foi afastado 48 horas do poder.

Logo após o golpe, Chávez implementou uma série de programas sociais chamados de "missões", em especial nas áreas de saúde e educação, nas quais os médicos e educadores que atuam são cubanos.

Alberto Barrera diz que as relações institucionais entre Cuba e Venezuela tendem a se manter iguais. Mas as relações políticas entre Chávez e Raúl Castro, que poderá ser nomeado o novo chefe do Conselho de Estado de Cuba, podem esfriar.

"É possível que as relações esfriem um pouco. A figura de Raúl Castro pode ser menos emblemática e atrativa para Chávez e vice-versa. Um governo com Raúl no poder ainda é uma incógnita."

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