Índios Kaxinawá criam game para divulgar sua cultura

Alba Santandreu

São Paulo, 10 mar (EFE).- Os Kaxinawá, etnia indígena originária do norte do Brasil e Peru, participaram da criação do "Huni Kuin", um game com o qual buscam divulgar sua cultura e mostrar ao mundo suas tradições ancestrais.

A tecnologia e o legado histórico do povo Kaxinawá andam pelas mãos nesta iniciativa lançada em 2012 por um antropólogo da Universidade de São Paulo (USP).

A partir da data, cerca de 30 indígenas colaboraram desde suas aldeias, situadas no Acre, no desenvolvimento desta iniciativa, que será lançada em abril.

Os índios contaram as histórias de seus antepassados, deram voz ao game e elaboraram os desenhos do "Huni Kuin", palavra nativa que significa 'povo verdadeiro'.

"Foi uma construção coletiva. Fomos à aldeia com um programador e antropólogos para conhecer suas histórias e sua forma de vida. Chegamos a ficar por até quatro meses com eles", explicou à Agência Efe o antropólogo Guilherme Meneses, que nos últimos quatro anos visitou as aldeias em reiteradas ocasiões.

A plataforma, que conta com cinco níveis e narra diferentes histórias, se centra em um casal de gêmeos Kaxinawá concebidos em um sonho, que herdam poderes e devem enfrentar uma série de desafios para poder se transformar em pessoas verdadeiras.

Ao contrário de outros jogos, os protagonistas não utilizam armas de fogo, mas flechas e seus inimigos não são anti-heróis, mas animais da região do Amazonas, como serpentes, tapires e paca.

A narração é feita na língua originária dos Kaxinawá, a maior população indígena do Acre, e os diálogos têm subtítulos em português, inglês e espanhol.

O objetivo, segundo Meneses, é divulgar a cultura e as tradições desta etnia e dos indígenas em geral, sobre os quais, disse, ainda existem preconceitos e muita desinformação.

Os indígenas, por sua vez, querem que o jogo seja de utilidade para que as novas gerações aprendam a história e os costumes de seus antepassados.

"Esses jogos servem para o futuro. Para que nossos filhos e nossos netos conheçam nossa história e preservem nossa identidade", apontou à Agência Efe Isaka Huni Kuin.

Após seis meses de pesquisa e quatro anos de trabalhos, o projeto, que reúne tradição e novas linguagens, poderá ser baixado de maneira gratuita a partir de abril.

Antes de atravessar as fronteiras, a plataforma será apresentada em uma das aldeias indígenas dos Kaxinawá, etnia que conta com cerca de 7,5 mil pessoas no Brasil.

"Eles também querem poder jogar dentro das aldeias e que as novas gerações entendam a história de seus antepassados", afirmou o antropólogo.

Em um mundo cheio de tradições, Isaka Huni Kuin admitiu que o uso da tecnologia está ajudando a preservar a cultura e a sabedoria dos antepassados, apesar dos idosos da etnia muitas vezes não entenderem.

"Muitos líderes levaram consigo toda a sabedoria quando morreram. A tecnologia vai nos permitir mantê-la e resgatá-la", ressaltou Isaka.

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