Escócia pode ser arrastada pra fora da UE mesmo sendo contra o "Brexit"

Pablo Rodero.

Edimburgo (R.Unido), 21 jun (EFE).- Os escoceses, os mais europeístas do Reino Unido, aguardam com inquietação o referendo da próxima quinta-feira sobre a União Europeia (UE) porque uma eventual vitória do "Brexit" poderia abrir passagem a um segundo plebiscito sobre a independência da Escócia.

A Escócia é a região do Reino Unido onde espera-se que na quinta-feira haja um maior apoio à permanência na União e que quase dois terços dos eleitores escoceses votem contra a saída britânica do bloco europeu, segundo a maioria das pesquisas divulgadas até agora.

Embora os escoceses tenham rejeitado a independência no plebiscito de 2014, o independentista Partido Nacional Escocês (SNP), firme partidário de manter o Reino Unido na UE, venceu as últimas eleições gerais e regionais na Escócia.

Os analistas apontam que, apesar do forte apoio pela permanência na Escócia, seus votos poderiam ser anulados pelos do resto do país dado seu pouco peso demográfico com apenas 8% da população total do Reino Unido.

Muitas são as vozes que falam de um possível segundo referendo de independência para a Escócia caso se confirme o "Brexit", entre elas as da ministra principal escocesa, Nicola Sturgeon, que garantiu que a questão voltaria à mesa de negociações "se a Escócia for arrastada pra fora da UE contra sua vontade".

O governo escocês defendeu sem fissuras a manutenção na UE, mas se recusou a fazer campanha junto com o partido conservador, criando sua própria plataforma, que batizaram como "Escócia mais forte na Europa".

Após as últimas eleições regionais, o partido trabalhista confirmou sua perda de apoio na Escócia, sendo superado pelos conservadores pela primeira vez no parlamento regional de Holyrood.

O SNP, no governo da Escócia desde 2007, manteve um discurso muito crítico com o que consideram uma austeridade politicamente motivada por parte do governo central, liderado pelo primeiro-ministro conservador David Cameron.

Um dos elementos-chave das altas expectativas de voto para a permanência na UE na Escócia é o apoio da maioria dos eleitores do SNP e dos partidários da independência em geral, segundo diversas pesquisas de opinião.

A capital escocesa, Edimburgo, é considerada pela empresa de pesquisas britânica YouGov uma das 10 cidades mais "eurófilas" do Reino Unido, junto com Aberdeen e seguida de perto por Glasgow, as maiores cidades escocesas.

Embora seja difícil encontrar escoceses no centro histórico da cidade, infestado de turistas estrangeiros, poucos são os que falam a favor de abandonar a União Europeia na capital escocesa.

Crawfird Hill, um escocês de 52 anos que esperava o trem na estação de Waverley, votará pela permanência na UE porque diz que "há muito mais a perder que a ganhar".

Além disso, acredita que poderia haver um segundo referendo de independência caso o resto de país vote por deixar a UE, embora considere "ridículo votar para manter-se na UE, mas para abandonar o Reino Unido".

A cidade também conta com uma das mais prestigiadas universidades do país, a Universidade de Edimburgo, que aloja milhares de jovens estudantes de todo o país, o grupo demográfico mais favorável a manter-se na UE, mas também o menos inclinado a comparecer às urnas.

"Acredito que, se o país abandonasse a UE, os jovens teriam menos oportunidades para o futuro", declarou Georgina, um estudante dessa universidade, ativa na campanha contra o "Brexit" e filiada ao partido trabalhista.

"Acho que a política não atrai os jovens porque parece que os políticos não nos escutam, mas para mim é imprescindível que os jovens votem, porque é nosso futuro", argumentou.

Pelo contrário, os eleitores de mais idade são os que estatisticamente apoiam mais a saída do bloco europeu e este dado não é uma exceção na Escócia, onde este grupo já foi decisivo no referendo de 2014 com uma majoritária rejeição à independência.

"Para mim é uma questão emocional", disse Jannet, uma professora aposentada de Edimburgo partidária da permanência. "Devemos trabalhar para melhorar a União Europeia por dentro", acrescentou enquanto completava palavras cruzadas em uma cafeteria.

Na mesa ao lado, outro grupo de aposentados discutia o mesmo assunto e, de todos eles, só uma, que preferiu não se identificar, se mostrou abertamente partidária da ruptura alegando que "devemos sair para reter a identidade e a independência", e acrescentando que não se sentia europeia.

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