De salário mínimo à pena de morte, ideias democratas dão guinada à esquerda

Lucía Leal.

Washington, 24 jul (EFE).- Um salário mínimo de US$ 15 por hora, a abolição da pena de morte, mais limites a Wall Street e o fim da detenção para as famílias imigrantes são alguns dos pontos da nova plataforma do Partido Democrata dos Estados Unidos, um roteiro ideológico que evidencia a guinada da legenda à esquerda.

Na convenção do partido, que começa nesta segunda-feira na Filadélfia, no estado da Pensilvânia, não só Hillary Clinton será nomeada oficialmente como candidata à presidência nas eleições de novembro, mas serão reveladas as ideias que guiarão as ações do partido durante os próximos quatro anos.

A minuta final dessa plataforma ideológica, divulgada na sexta-feira, é o resultado de vários meses de negociações nos quais o senador Bernie Sanders, adversário de Hillary nas eleições primárias da legenda e mais à esquerda que a ex-secretária de Estado no espectro político, teve uma influência determinante.

O resultado é o que os democratas consideram a plataforma mais progressista na história do partido, um programa que deveria guiar a política de Hillary se ela chegar à Casa Branca em janeiro.

O ponto mais surpreendente é a declaração de que a pena de morte "não tem lugar nos Estados Unidos", algo sem precedentes nos ideários políticos do país, que coincide com um declínio no número de execuções em nível nacional nas últimas duas décadas.

"Aboliremos a pena de morte, que provou ser uma forma cruel e incomum de castigo", promete a plataforma democrata, que considera a aplicação dessa sentença como "arbitrária e injusta", que não dissuade os criminosos e tem um alto custo.

A promessa reflete a posição de Sanders, que opinou em um debate em fevereiro que "o governo não deveria matar" gente, enquanto Hillary indicou na mesma ocasião que apoiava a pena de morte "para um grupo muito limitado de crimes particularmente atrozes".

Outro triunfo de Sanders é o respaldo na plataforma ao aumento do salário mínimo federal para US$ 15 a hora, uma quantia superior aos US$ 12 apoiados por Hillary durante as primárias.

O senador por Vermont também conseguiu introduzir uma expansão do programa de seguridade social por meio do aumento dos impostos às fortunas que ultrapassarem os US$ 250 mil anuais.

No entanto, Hillary conteve algumas das ideias de Sanders, como a de proibir o sistema de extração de hidrocarbonetos por fratura hidráulica ("fracking"), que não aparece na plataforma.

O programa também não sanciona a proposta de Sanders de impulsionar um programa de plano de saúde público e defende, por outro lado, avançar sobre a base da reforma deste setor que foi promovida pelo atual presidente, Barack Obama.

Essas ausências levaram o jornal "Washington Post" a declarar em editorial neste mês que a plataforma é mais um espelho das ideias de Hillary do que das de seu adversário na disputa interna do partido.

"Hillary manteve sua mensagem de trabalhar com as estruturas políticas do país para encarar verdadeiros problemas que a nação não pode ignorar, de forma que seriam geralmente aceitáveis para os democratas", afirmou o editorial.

No entanto, na plataforma, há outros exemplos de posturas mais progressistas que as do governo Obama, como os compromissos de "acabar com a detenção" das famílias de imigrantes ilegais e de "assegurar alternativas humanas para que não apresentem ameaças à segurança pública".

Essa é a postura defendida em bloco pelo Caucus Hispano, um grupo de congressistas democratas e latinos que também apoia outra ideia incluída na plataforma: a de "acabar com as operações contra crianças e famílias, que amedrontam inutilmente as comunidades de imigrantes".

O partido de Hillary também promete apoiar as medidas migratórias estimuladas por Obama e ampliá-las "para proporcionar alívio" das deportações a outros, entre eles os pais dos jovens conhecidos como "dreamers" ("sonhadores"), que chegaram ao país quando crianças.

O extenso capítulo de política externa da plataforma reflete, em geral, as ideias defendidas pelo governo Obama e dedica dois parágrafos à América Latina.

Um deles destaca que "os democratas rejeitam a proposta de Donald Trump de construir um muro" na fronteira com o México, país que o partido considera "um valioso aliado".

Em relação a Cuba, os democratas se comprometem a apoiar "a histórica abertura do presidente Obama e acabar com o embargo e a proibição de viagens aos americanos", e na Venezuela pretendem "pressionar o governo para respeitar os direitos humanos e responder à vontade de seu povo".

A plataforma deverá ser aprovada durante a convenção do partido e não é vinculativa, mas muitos a veem como um sinal das prioridades que poderão ser encampadas por Hillary Clinton se chegar à Casa Branca e os democratas recuperarem o controle do Congresso.

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