Bernie Sanders, o socialista despenteado que empurrou Hillary à esquerda

Lucía Leal.

Washington, 25 jul (EFE).- Bernie Sanders garantiu que levaria sua "revolução política" até a Convenção Democrata e cumpriu essa promessa nesta segunda-feira, embora para respaldar sua antiga rival, Hillary Clinton, a quem empurrou à esquerda com uma bem-sucedida campanha que pôs a desigualdade econômica no centro do debate.

"Necessitamos uma liderança que nos una e nos torne mais fortes, não uma liderança que insulte os latinos, os mexicanos, os muçulmanos, as mulheres, os afro-americanos, os veteranos e os doentes para dividir-nos. Por isso, Hillary deve ser a presidente dos Estados Unidos", destacou Sanders em seu discurso na Convenção Nacional Democrata.

Durante quase um ano, o despenteado senador desfraldou o desencanto de muitos americanos com a erosão da classe média e acumulou mais de 12 milhões de votos, uma façanha para um político que se atreveu a definir-se como socialista nos Estados Unidos.

O legislador de 74 anos participou do primeiro dia da Convenção Democrata na Filadélfia (Pensilvânia), onde muitos dos quase 2.000 delegados que colheu durante as primárias estavam dispostos a votar nele apesar de ter oficializado seu respaldo a Hillary há quase duas semanas.

"Quero que o país, o mundo e nossa gente aprecie o tipo de êxito que tivemos". Assim justificou Sanders, durante uma entrevista este mês ao jornal "USA Today", sua decisão de manter seu movimento vivo até a convenção.

A campanha de Sanders começou em maio de 2015 com um pequeno comício no estado que representa, Vermont, onde prometeu gerar um "movimento de milhões de pessoas" que exigissem o fim da corrupção financeira e política que, segundo sua opinião, estrangula a classe média do país e entorpece as reformas em Washington.

Poucos deram crédito então a esse senador independente que nem sequer fazia parte do Partido Democrata e tinha decidido desafiar uma das políticas mais poderosas e conhecidas do país.

Mas Sanders demonstrou em seguida que era mais que um iludido insurgente, e os jovens e progressistas que abarrotavam seus comícios chegaram a acreditar que tinha chances de repetir a façanha de Barack Obama em 2008 e arrebatar a indicação democrata de Hillary, a eterna favorita do partido.

Frequentemente Sanders ficava rouco por alçar a voz em suas denúncias contra o "corrupto" sistema financeiro e quase sempre parecia zangado, mas seus seguidores só viam nisso uma confirmação de sua imagem de político autêntico, defensor dos mesmos valores progressistas durante décadas frente às ideias em transformação de Hillary.

A batalha das primárias se prolongou até junho, alimentada por uma entusiasmada base de eleitores que financiava generosamente Sanders para que este cumprisse sua promessa de não aceitar as interessadas doações de poderosos grupos de interesse político e econômico, um de seus principais pontos de contraste com Hillary.

Seu apoio final a Hillary decepcionou a muitos de seus eleitores, que teriam preferido que concorresse como candidato independente ou apoiasse à candidata do Partido Verde, Jill Stein.

Sanders, porém, ressaltou ao longo de toda a campanha que o maior perigo para o país era a possível eleição em novembro do republicano Donald Trump, e sua aparição na convenção teve como principal objetivo reunir forças contra o magnata.

Apesar do desgosto de seus admiradores, a campanha de Bernie refletiu a guinada progressista do Partido Democrata e motivou em boa parte o giro à esquerda de Hillary em muitos temas, entre eles sua rejeição ao Tratado Transpacífico (TPP) entre os EUA e 11 países.

O senador também deixou sua marca na plataforma democrata, um roteiro ideológico do partido para os próximos quatro anos que defende a abolição da pena de morte e um salário mínimo de US$ 15 a hora em nível nacional.

Os novos objetivos de Sanders são ajudar a eleger candidatos progressistas para cargos legislativos em novembro e promover uma reforma do Partido Democrata, cuja parcialidade no processo de primárias foi colocada em evidência com o vazamento dos e-mails do Comitê Nacional do partido político.

Nascido em Brooklyn (Nova York) em 1941, Bernie Sanders é filho de um imigrante judeu que fugiu do Holocausto na Polônia e uma nova-iorquina com raízes polonesas e russas, embora seja pouco religioso e inclusive tenha pressionado por um maior apoio ao povo palestino na política externa dos Estados Unidos.

De origens modestas, Sanders perdeu seus pais quando era relativamente jovem e estudou Ciências Políticas na Universidade de Chicago antes de se mudar para Vermont, onde trabalhou como carpinteiro, cineasta, escritor e pesquisador antes de exercer durante oito anos o cargo de prefeito da capital, Burlington.

Apaixonado pelos direitos civis, Sanders chegou inclusive a participar, com 22 anos, da histórica "Marcha em Washington" de 1963, liderada por Martin Luther King, e se inspirou nos valores de muitos países europeus para defender uma ampla rede social e um aumento dos impostos sobre as grandes fortunas.

Agora, este político iconoclasta que está há quase três décadas no Congresso quer conseguir que a "revolução política" que tanto se esforçou em gerar aprenda a trabalhar com Hillary e encontre outra forma de frear a "volta por cima da oligarquia" nos EUA.

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